A Vida e Nada Mais - Ed. 2019

Parte I. Todo o Afeto que se Encerra

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O restaurante “La Belle Équipe”: caminhos cruzados nos atentados de 13 de novembro em Paris

13.11.2017

Hoje faz dois anos que 180 franceses tombaram diante dos atentados terroristas em Paris. Como esquecer?

Era para ser, todavia, um dos dias mais felizes de minha vida.

Eu, sem nenhuma experiência internacional, havia obtido êxito num processo de seleção coordenado pela Embaixada da França em Brasília, em convênio com a Enamat do TST, para fazer um curso de curta duração sobre efetividade da execução judicial, na Escola Nacional da Magistratura Francesa.

O curso teve nove dias úteis, sendo cinco dias de aulas teóricas na capital e quatro dias de estágio no Tribunal de Versalhes. Dediquei-me com afinco aos estudos, fiz dezenas de perguntas e deixei boas amizades.

Acordei feliz naquela sexta-feira dia 13, porque teríamos uma preleção com o juiz de Marselha (Comarca cuja competência inclui a ilha de Córsega, conhecida como região de atuações mafiosas) e, depois, a entrega dos certificados. Almocei com alguns conhecidos, encontrei um professor da Universidade de Nantes, que estava de passagem pela cidade e leciona a mesma matéria de saúde e segurança do trabalho que eu desenvolvo na USP, e fui para o hotel arrumar as coisas para o retorno no dia seguinte.

Ao arrumar as malas, sintonizei a TV no jogo França versus Alemanha: não se falava de outro assunto na cidade.

Fiz Skype de quase uma hora com minha esposa e meus filhos em São Paulo, comemorando o final do curso e a iminência do retorno ao lar em meio a tantas saudades.

Mal terminei a ligação, eles voltaram a me chamar dizendo que a Globo tinha interrompido a programação para falar de uma bomba no estádio. A própria tevê francesa, àquela altura, não havia dado a notícia.

Eu os tranquilizei dizendo que o estádio era bem longe, em Saint Dénis, estando eu no 12º setor (arrondissement, como eles dividem a cidade), distante mais de 30km.

Mas o barulho das sirenes começou a ficar ensurdecedor e eu desconfiei que a tragédia não estava limitada àquele estádio.

Veio a notícia do Bataclan e aquela longa agonia, noite adentro, até que os mortos começaram a ser contados na casa das dezenas.

Porém, o que eu não podia imaginar e, naquele momento, evitei comentar, é que o pequeno café La Belle Équipe também foi alvo dos terroristas – um deles, tendo deixado o Bataclan, saiu atirando a esmo e, passando pela Rue Charone (não muito longe do cemitério Père Lachaise), abriu fogo contra os clientes do restaurante, ferindo mortalmente 18 pessoas.

Eu havia passado pelo café no domingo anterior, pois ele estava a 300m do hotel (donde o barulho das sirenes) e pareceu um ambiente familiar.

Chamou-me a atenção que, em frente ao café, havia uma casa de abrigo de mulheres vítimas de violência familiar, sob completo sigilo e com acesso restrito. Dias depois, fiquei imaginando os momentos de horror que elas, já alquebradas pelos caminhos cruzados da vida, tiveram de testemunhar.

Bem, desnecessário dizer que ninguém dormiu da sexta para o sábado e que tudo o que eu queria no sábado era chegar ao aeroporto a qualquer custo. Consegui o último assento de uma van. Os amigos franceses me pediram que não tomasse o transporte coletivo pois não se sabia o que estava por vir. Táxis escassearam. Cheguei ao Charles de Gaulle com 12 horas de antecedência. A TAM, ao contrário das companhias americanas, não cancelou o voo.

Tive um nó na garganta quando ouvi a entrevista de uma brasileira, que estava perto do Bataclan, dizendo que se sentia mais segura na Paris conflagrada do que na São Paulo em tempos de paz. O pior é que talvez ela tenha razão.

Nem me lembro do resultado do jogo. A França ainda viria a sofrer o atentado do caminhão assassino em Nice e o homicídio covarde do padre na Normandia.

Mas a vida segue persistente e vigorosa. Eles não podem nem devem esmorecer.

Tudo isso reitera aquilo que a gente sempre soube, mas nem sempre põe em prática: nossa passagem por aqui é curta demais para tanta vaidade.

A vida é agora.

Sobre medos bobos e coragens absurdas

25.11.2017

Os leitores de primeira hora já me viram citar Clarice Lispector mais de uma vez nesta página.

Gosto de várias frases atribuídas a ela, como aquela que diz que para aparentar simplicidade é preciso trabalho árduo e incansável.

E ela também alertou a todos que buscam o autoconhecimento que é preciso ter muito cuidado na hora de cortar seus próprios defeitos, pois nunca se sabe sobre qual deles se assenta nossa vida e, de tanto mexer, o edifício pode cair.

Esse pensamento é mesmo devastador e reaparece na música do Oswaldo Montenegro, que certo sábado nós compartilhamos aqui, em que ele diz: “quantos defeitos sanados com o tempo eram o melhor que havia em você”.

Mas há uma frase de Clarice ainda mais inspirada: “nós todos somos feitos de medos bobos e coragens absurdas”.

Essa frase voltou a minha mente na noite da quinta-feira, quando divulguei o texto “Há tempo para tudo na vida”, com o anúncio de nosso projeto editorial inédito e fora dos padrões (um livro extraído das páginas do Facebook 1 ). Os comentários dos leitores me pegaram no contrapé e marejaram meus olhos. Vários pensamentos povoaram minha mente, enquanto eu repassava as dificuldades pessoais e coletivas vivenciadas em 2017.

Medos bobos me mantiveram afastado das redes sociais por anos; alguma coragem, porém, é necessária para encarar o lançamento de um livro, no meio da reforma trabalhista, tentando falar de nosso tempo e de nossas contradições, como se isso fosse leve e divertido.

Num mundo tão cheio de gente, coragem define.

O concurso para juiz do trabalho e o sonho do urso rosa

30.11.2017

Se há uma coisa que eu aprendi com a paternidade é jamais duvidar da força da literatura infantil.

Nós, acostumados com tantos autores impenetráveis, nem sempre medimos os livros pelo modo como ele nos inebria. As crianças, sempre autênticas, aprovam ou desaprovam os livros de acordo com seu impacto, com sua sensibilidade, e não com as convenções sociais.

Como adulto, já tive algumas experiências fortes com livros infantis. Lembro-me de histórias sobre amizades genuínas, técnicas para contornar obstáculos e modos inteligentes de adequar o alvo ao poder de sua flecha.

Semana passada, numa sala de espera de consultório, eu e meu caçula vimos um livro de capa dura chamado O sonho do urso rosa .

O urso estava angustiado porque não conseguia alcançar o sonho, mas ao mesmo tempo não sabia explicar qual era esse sonho. A girafa amiga trouxe um cachecol; o cavalo camarada trouxe ferraduras novas; a rã esperta trouxe óculos de sol.

Nada o consolava, entretanto.

Até que a coruja apareceu e demonstrou que cada amigo presenteou o ursinho com aquilo que achavam que devia ser o sonho dele, baseados todos em seus próprios anseios e suas visões de mundo.

O cachecol, a ferradura e os óculos podem ser o grande sonho de muita gente, mas não era o do urso.

Sábado e domingo, 2 e 3 de dezembro, muita gente querida estará na capital federal, em busca de seu sonho autêntico – o ingresso na magistratura.

Podem uns e outros achar o sonho engraçado ou sem sentido, mas é o seu sonho e somente você poderá acalentá-lo.

Nós somos muito gratos pelos cachecóis que a vida houver nos dado, mas a busca de nossos sonhos mais profundos é o que nos torna verdadeiramente humanos e verdadeiramente únicos.

Os candidatos devem manter a serenidade plena, com a certeza de que eu, os 8.000 seguidores desta página e todos os leitores anônimos enviaremos nossos melhores pensamentos para que brilhem.

Apenas brilhem.

Brilhem e façam valer seus melhores conceitos de ética e de equidade, dignificando os quadros ávidos da magistratura.

E se por acaso não conseguirem ser fortes, sejam ao menos humanos, como diz a música do Frejat.

Tal como o urso rosa, esse sonho... ninguém te tira.

A cartola do Cartola, quem diria, era um EPI

09.12.2017

Voltando pra casa na terça à noite, ouvi uma melodia maravilhosa.

Fiquei impressionado com a voz de Cida Moreira e, sobretudo, com a letra contundente da canção, chamada “Autonomia”.

Fala de amor e de sonhos, mas há no ar uma certa melancolia que, vim a saber, refletia o estado de espírito de seu criador, o insuperável Cartola. Já debilitado pela saúde, ele conseguiu fazer poesia em grau máximo com sua autonomia em grau mínimo.

A música ainda está em meus pensamentos e hoje a compartilho com os leitores, em nossa crônica musical dos sábados.

Mas havia, também, uma nota curiosa lida pelo apresentador do programa de rádio: a origem do apelido do grande músico carioca.

Tendo perdido a mãe aos 15 anos e abandonado os estudos, ele atuou como servente de pedreiro e, para evitar os pingos de cimento sobre o rosto, passou a usar, por sua conta, um chapéu-coco.

Os colegas, espantados com sua atitude, esnobaram dizendo que ele usava uma cartola como aquelas da alta sociedade.

E o apelido, com um toque de maldade, um toque de ironia, pegou.

Nota 10 pro Cartola – criativo, sagaz e no exercício de sua dignidade.

Nota 0 pro seu patrão e um puxão de orelha nos colegas.

Um embrião de equipamento de proteção individual, veja só, nos tirou Angenor de Oliveira e nos entregou Cartola.

Tenhamos todos um sábado de paz e, se possível, com plena autonomia.

Um juiz, a associação dos advogados e um velho prédio

18.12.2017

Quase não me lembro do início de minha admiração pela AASP.

Quando eu era aluno do Largo de São Francisco e tinha acabado de chegar do interior, passava correndo pelo calçadão do centro velho de São Paulo e a imagem daquele velho prédio da Rua Álvares Penteado, 151, impressionava – se não pelo relógio ou pelos detalhes da arquitetura, talvez pelas bandeiras sempre hasteadas e pela limpeza impecável do saguão.

Mais tarde vim a saber que no prédio já funcionou a Bolsa de Valores de São Paulo e que a entidade ostenta o título de maior associação voluntária do país, com seus mais de 100.000 membros ativos.

Dada sua envergadura nacional, bastante justa, houve alteração do nome, de Associação dos Advogados de São Paulo para “Associação dos Advogados – São Paulo, desde 1943”. Espero não ter errado o nome exato, mas achei a informação fantástica e muito reveladora de sua respeitabilidade.

Em 2004, quando eu adquiria cabelos brancos para manter sob controle o processo da VASP na 14ª Vara do Trabalho de São Paulo, com seus 5.000 reclamantes e infinitos incidentes, recebi uma ligação do estimado juiz Alexandre Lazzarini, que respondia à época pela 1ª Vara de Falências e Recuperação Judicial de São Paulo (Fórum João Mendes), convidando para debate do projeto da Lei de Falência, de que nenhum trabalhista aceitou participar. Afinal, a plateia era hostil, formada basicamente por estudiosos do direito falimentar e síndicos de massa falida.

Eu topei.

Mexi com a plateia perguntando se honorários de advogado e de administradores teriam natureza alimentar (como seria consagrado pelo STF), brinquei com o juiz que cuidava da falência da Varig no Rio de Janeiro e recebi de algumas pessoas um elogio de gosto duvidoso (“para um juiz do trabalho, você até entende bem de processo civil”).

De lá para cá, foram várias visitas e várias colaborações, em atividades pequenas, palestras médias e casa lotada no auditório do térreo.

Agora, em 18 de dezembro de 2017, vou assentar mais um tijolo no castelo de sonhos realizados: farei o lançamento de dois livros novos (a segunda edição dos comentários à reforma trabalhista e a coletânea de crônicas do Facebook e Instagram) no lindo saguão de entrada do prédio, junto à cafeteria.

Para um juiz do trabalho, não sei se mando bem em processo civil, mas sei que me sinto em casa na associação dos advogados.

E espero que minha casa esteja cheia nesta segunda-feira.

Querido pirata de livros

20.12.2017

Faz tempo que eu queria falar com você, que não conhece o sentimento do remorso nem se preocupa em saber quantas pessoas estão envolvidas no processo produtivo de um livro.

Sei que você já atuava na época do mimeógrafo, que minha tia Maria usava para duplicar os desenhos dela, destinados à alfabetização dos alunos da rede pública nos anos 1960 e 1970, assim como você ficou eufórico com o desenvolvimento das fotocopiadoras dos anos 1980 e 1990.

Mas seu auge veio mesmo no século XXI com as diversas formas de digitalização do esforço alheio, quer dizer, de livros e de trabalho intelectual que você nunca teve capacidade de fazer.

Sei também que os livros custam muito caro no Brasil, apesar da isenção de alguns impostos, e que você é movido por aquele pensamento rasteiro segundo o qual “se eu não fizer, outra pessoa vai fazer”.

Ainda bem que nem todos os cidadãos pensam como você e ainda há gente que acredita na importância de se respeitar a fila, dar preferência no cruzamento, denunciar a violência doméstica, proteger nossas crianças e, enfim, lutar por uma sociedade mais justa.

Mas não era disso que eu queria falar, pois estaria gastando energia em vão.

Eu estou aqui morrendo de curiosidade de saber como você pretende divulgar a cópia pirata de meu novo livro, que foi extraído do Facebook e do Instagram. Portanto, ele não é nem inédito nem exclusivo da editora.

O livro de crônicas E agora, Tarsila? está integralmente disponível na Internet, de graça, porque ele é a coletânea das melhores postagens feitas em público desde março de 2017.

Alguns leitores mais caprichosos já haviam arquivado as postagens e soube de outros que as carregam em espiral. Um orgulho inenarrável para mim, mas um pequeno embaraço para você.

Você poderá oferecer uma cópia pirata de um livro aberto, claro, mas nunca vai conseguir oferecer o carinho e o esmero com que essas páginas foram escritas, coletadas e encadernadas.

Tudo na vida tem um preço.

Menos o afeto.

Conversas de cemitério

22.12.2017

Tenho vários amigos que morrem de medo de cemitério. Bobagem. A julgar pelo que vemos diariamente nos telejornais, devíamos ter mais medo dos vivos do que dos mortos. Um amigo disse que, tendo que atravessar um cemitério às 23h00, encontrou apenas uma pessoa ainda rezando diante de um túmulo. Intrigado, perguntou: “Você não tem medo de estar aqui a esta hora?”. E o samaritano respondeu: “Bem, quando eu era vivo eu tinha”.

Certamente essa é uma piada, porque nenhum cemitério funciona às 23h00: há tanto vandalismo que quase todas as prefeituras fortificaram os campos santos. Aliás, por que são as prefeituras que geralmente cuidam desses espaços?

Antigamente, os cemitérios eram geridos apenas pelas instituições religiosas. Até que sucedeu um fato interessante: onde enterrar um professor da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que, apesar de nascido em família alemã protestante, não professava nenhuma religião, numa época em que a cidade tinha apenas cemitérios confessionais? A solução encontrada (enterrá-lo no cemitério de animais) obteve o repúdio da comunidade acadêmica, que conseguiu trasladar o corpo do prof. Julio Frank para dentro da faculdade. O túmulo, de 1841, está intacto, mesmo após a reconstrução do prédio em 1930. A situação concorreu para que cemitérios não confessionais fossem desenvolvidos pelas municipalidades.

E um desses lugares é o Cemitério da Consolação, região central de São Paulo, em cuja Quadra 36, Terreno 46, está a lápide de Tarsila do Amaral, perto da calçada. Aliás, Tarsila e seus vizinhos estão por merecer protetores auriculares, tamanho o barulho do entorno daquele local que era para ser de paz. Ontem fui visitá-la para fazer esta postagem. Fiquei impressionado com a quantidade de brasileiros e brasileiras que honraram a pátria e que lá encontraram sua morada final

Pode-se agendar por e-mail uma visita guiada para se conhecerem as esculturas de fama internacional (destaque para Victor Brecheret) ou simplesmente por curiosidade. Garanto que muitos foram ver o túmulo do Jim Morrison no Père Lachaise em Paris e nem sabem das visitas guiadas do Consolação.

Star Wars, Ep. VIII: dilemas trabalhistas também ocorrem em galáxia muito, muito distante

23.12.1017

Recesso forense. Revoada geral. Eu, meu caçula e outros 10.000.000 de brasileiros fomos conferir o Episódio VIII de Star Wars.

Fique tranquilo que você não encontrará nenhum spoiler de O último Jedi aqui na página do professor Homero, mas onde mais você encontrará um roteiro trabalhista para discutir no bar depois da sessão de cinema?

A horas tantas, uma personagem simpática é acionada para ajudar as forças do bem, mas recusa o convite porque está em tiroteio intenso. Indagada sobre onde se encontrava, responde, sem pestanejar, que estava numa “disputa sindical”, dá alguns conselhos pros amigos e pede licença pra continuar no tiroteio sindical. Bem, deve ter sido a fala menos interessante para 99% das pessoas, mas eu fiquei num misto de choque, riso e consternação. Será que o futuro do movimento sindical em galáxia muito, muito distante será todo ele resolvido à força da bala? O fato é que algum roteirista devia estar muito irado com seu sindicato ao imaginar a cena.

Noutro trecho, somos informados de que a exploração da mão de obra infantil vai muito bem, obrigado. Há grande realce para essa chaga social, o que também impressiona, pois a visão dos criadores da trama vai no sentido da persistência desse drama. (Aliás, uma das cenas mais fortes de “Blade Runner 2049” é também ligada ao uso intensivo da mão de obra infantil.)

Usaram a palavra cuidadoras (“caretakers”) para representar empregadas domésticas, todas de baixa estatura, todas mulheres e todas resignadas. Mas elas pareciam serviçais que dedicam a vida inteira a lavar, passar e cozinhar para um determinado personagem central da trama, que mora numa ilha. Elas não têm cara de celetistas. O roteiro sugere que sejam trabalhadoras voluntárias confessionais. Não faço ideia de onde elas dormiam, pois o espaço era diminuto.

Bem, eu queria apenas compartilhar esses três fragmentos (assembleia sindical armada, mão de obra infantil e serviços domésticos não remunerados), mas a gente pode rolar de rir se pensar na carteira de trabalho dos troopers , nos danos morais dos pilotos e copilotos, indenizações acidentárias e o mais.

É, meus amigos, quando a gente diz que o direito do trabalho tem vocação universal a gente não está brincando.

Antes de partir: conversas sobre o Kasato Maru

02.01.2018

Kasato Maru é nome do navio que trouxe a primeira leva de japoneses (781 pessoas), no âmbito de um acordo comercial estabelecido com o Brasil. Vieram para colher café, sobretudo no interior de São Paulo, mas não me pergunte sob quais condições trabalhistas.

Há relatos da presença japonesa no Brasil anteriormente, mas em caráter acidental ou episódico, como em Macaé ou em Floripa.

A partir do Kasato, que saiu de Kobe e aportou em Santos aos 18 de junho de 1908, estabeleceu-se a rota constante da imigração japonesa. Há estimativas de que 200.000 pessoas fizeram a travessia.

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A história desse navio é fabulosa e daria um filme de grande suspense: ele nasceu russo, foi parar nas mãos dos japoneses como indenização de guerra, serviu para o transporte de cargas e passageiros e, tendo sido obrigado a reforçar o arsenal japonês na Segunda Guerra, foi afundado pelas forças russas. Dada sua importância histórica, há projetos para seu içamento ou pelo menos para a recuperação das âncoras e outros símbolos, envolvendo esforços de autoridades brasileiras, japonesas e russas.

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Em agosto, quando eu anunciei minha viagem ao Japão, que começa amanhã, falei sobre minha convivência com japoneses e descendentes, na cidade de Presidente Prudente, SP, em que passei a infância, e cheguei a fazer dois ou três semestres do idioma japonês.

Não havia sala de aula em que ao menos um terço dos colegas não fossem descendentes. No caso das escolas que faziam a separação das turmas pelas notas, então a percentagem de descendentes subia para metade ou dois terços.

Ao lado de Prudente, a pequena Álvares Machado ostenta o único cemitério sul-americano dedicado exclusivamente aos japoneses natos. Há muita reverência aos pioneiros e à coragem que eles demonstraram ao fazer a travessia oceânica com as imensas barreiras culturais e enormes incertezas do que iriam encontrar.

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O centenário da chegada do Kasato Maru, em 2008, foi celebrado com a presença do príncipe herdeiro, Nahurito (que, aliás, deve ser entronizado em 30 de abril de 2019, com a anunciada abdicação de seu pai, Akihito).

Entre as manifestações artísticas alusivas à data, os paulistanos ganharam o Monumento à Imigração Japonesa, de Tomie Ohtake, que faz lembrar as ondas do mar da travessia e está instalado num dos locais de maior movimento da cidade (Avenida 23 de Maio).

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110 anos depois, a gente reclama do sinal fraco da Internet, acha ruim quando o Skype demora 30 segundos para começar e se queixa da temperatura do ar condicionado.

Não sei se teríamos 10% da coragem daquelas famílias desenraizadas.

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Até as madeiras do Kasato Maru já sabiam que o mundo dá voltas: na década de 1980, assistimos ao fenômeno da imigração em rota inversa, porque brasileiros em dificuldades financeiras lotaram aviões em busca de melhor sorte no Japão próspero. Surgia a forte onda dos dekasseguis (união dos verbetes na língua japonesa deru, que é sair, e kasegu, que evoca trabalhar por dinheiro).

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A vocação universal do direito do trabalho se fará presente.

Antes de partir: a cultura japonesa do cartão de visitas

02.01.2018

Nos últimos meses, recebi diversas recomendações dos leitores a respeito da vida cotidiana no Japão.

Algumas chegam a ser engraçadas, como levar meias novas porque a todo instante são retirados os sapatos.

Por coincidência, será também meu primeiro contato com a neve.

Mas o que mais me deixou curioso é a cultura do cartão de visitas.

Ao que eu fui informado, o cartão está para os japoneses assim como os beijinhos ou o aperto de mão estão para o brasileiro: ao ser apresentado a uma pessoa, primeiro você entrega o cartão de visitas e, depois, inicia a conversa.

A polidez recomenda que o cartão seja entregue com seu nome virado para cima e na posição facilitadora para a pessoa ler, ou seja, quase na horizontal.

Disseram-se que até mesmo no trem, sabendo que a viagem será longa e que você dividirá um banco com um estranho, convém se virar para ele, fazer algum comentário sobre o clima e, bingo, entregar o cartão de visitas.

Talvez esse hábito fale sobre formalismos, talvez seja uma tática de agilizar a comunicação sem ter de fingir que entendeu o nome do convivente. Prometo compartilhar aqui minhas conclusões.

O fato é que encomendei uma bela quantidade de cartões, e, tal como me foi explicado, devo me apresentar prioritariamente como professor, que é a profissão mais respeitada no Sol Nascente, e não como magistrado. (Ironicamente, no Brasil seria bem o oposto; de vez em quando noto estranhamento quando me apresento como professor em meu próprio país.)

Segundo a cultura nipônica, apenas o professor está acima do imperador, pois sem professor não haveria imperador.

Antes de partir: a cultura japonesa contemporânea

02.01.2018

Apesar da corrente migratória descrita na postagem anterior e da presença dos japoneses em quase todos os estamentos sociais brasileiros, penso que a integração cultural ainda possui muito espaço para avançar.

Quase nada conhecemos da música popular japonesa. Nosso imaginário ainda é povoado pelas danças antigas, pelo magnífico cinema de Akira Kurosawa e pelo teatro Nô.

Mas, sobre esses gigantes, muitos edifícios foram construídos nos últimos anos, florescendo vasta produção cultural no arquipélago asiático.

Eu recomendo de olhos fechados o único filme japonês ganhador do Oscar de produção estrangeira, chamado A Partida (Okuribito), de 2008, de Yôjirô Takita, uma daquelas películas para a vida inteira.

O filme tem a delicadeza de explicar como nossas memórias são formadas e como a gente “apaga” algumas mais amargas e “reinsere” algumas mais prazerosas.

Não o veja, se não quiser mudar a forma de ver a vida e as experiências vividas.

A partir de amanhã, as postagens voltam a ser, digamos, mais jurídicas, em tempo quase real, desde o Império do Sol Nascente.

(I) Diário no Império do Sol Nascente

Quarta-feira, 3 de janeiro de 2018.

Há um convênio firmado entre a Universidade de São Paulo, de que sou professor desde 2009, e a Universidade de Shishu, localizada na cidade de Matsumoto, cerca de 2h de Tóquio.

Os alunos da graduação e pós-graduação de uma instituição podem fazer créditos na outra instituição, devidamente contabilizados com reciprocidade, de modo que a formação tenha os horizontes bastante ampliados. A sede do conhecimento dos jovens supera qualquer barreira do idioma. Isso é impressionante.

Shinshu é uma universidade nacional (uma federal, diríamos nós) com oito faculdades: artes, educação, direito e economia, ciências, medicina, engenharia, agronomia e ciências têxteis. Possui 1.100 empregados e 11.000 alunos, dos quais 300 estrangeiros.

É esse cenário, na discreta cidade de Matsumoto (209.000 habitantes, -5º C), que eu passo a conhecer a partir de sábado, depois de desembarcar no aeroporto de Osaka na sexta e seguir viagem por trem.

São 11h de diferença de fuso no horário brasileiro de verão.

(II) Diário no Império do Sol Nascente

Quinta-feira, 4 de janeiro de 2018.

BRAZIL‐JAPAN LITIGATION AND SOCIETY é o nome do seminário de que eu tomarei parte nos dias 8 e 9 de janeiro.

No primeiro dia, mediarei a mesa de abertura, em que serão expostas as características do vínculo de emprego e das relações de trabalho nos dois países. O prof. Takashi Araki (Universidade de Tóquio) e meu colega Antonio Rodrigues de Freitas Júnior (USP) farão as exposições de 45min, seguindo-se debates.

No dia 9, às 13h30, será minha vez de palestrar, sobre o panorama da saúde e segurança do trabalho no Brasil: “Overview of health and safety at work in Brazil”.

As formas alternativas de solução de conflito e o dinamismo das relações coletivas de trabalho serão tônicas dominantes durante o congresso, como podem conferir nas duas imagens anexas contendo a íntegra do seminário.

Professores e pesquisadores da USP (Largo de São Francisco e também Ribeirão Preto) e da UERJ farão apresentações.

Quem se dedica ao estudo do direito do trabalho desde logo aprende a respeitar sua vocação internacional, porque as peculiaridades locais e as dificuldades momentâneas da política e da economia não escondem que os seres humanos são todos eles únicos e especiais – e que o trabalho é a via expressa para sua emancipação e dignidade.

(III) Diário no Império do Sol Nascente

Sexta-feira, 5 de janeiro de 2018.

Chegamos ao aeroporto de Osaka (2.649.601 habitantes, terceira maior cidade japonesa, perdendo para Tóquio e Yokohama).

Aglomera-se com a antiga capital, Kyoto, e com o polo científico, Kobe, formando uma região de 17.000.000 de habitantes.

O horizonte de prédios é especialmente belo.

A biblioteca pública é estonteante.

A cidade está numa baía. Não chega a ser Guanabara, mas o pouso do avião fica mais bonito.

Muitos japoneses usam aquela máscara...

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jusbrasil.com.br
3 de Dezembro de 2021
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1153089840/parte-i-todo-o-afeto-que-se-encerra-a-vida-e-nada-mais-ed-2019