Fake News - Ed. 2020

Fake News e o Custo da Informação - Comunicação, Mídia e Fake News

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Diogo Mendonça Cruvinel

Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais. Especialista em Direito Público pelo Centro Universitário Newton Paiva. Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito Milton Campos.

Resumo: Este artigo busca analisar o fenômeno das fake news sob a ótica da economia da comunicação, apontando o alto custo inerente à produção e à veiculação de informações de boa qualidade, bem como o baixo custo para a produção e a veiculação das informações de baixa qualidade, como algumas das principais razões pelas quais os aplicativos de mensagens instantâneas e as redes sociais virtuais se tornaram ambientes férteis para a disseminação de notícias falsas. Para tanto, serão apresentadas três modalidades de custo da informação que incidem diretamente sobre os receptores e três modalidades de custo da informação associadas aos emissores, demonstrando que a sequência de procedimentos necessários para que a informação saia de uma ponta e chegue à outra comporta medidas específicas, em cada uma de suas etapas, para a alteração do custo final. Pretende-se com este trabalho apresentar informações e identificar alguns elementos que possam contribuir no debate sobre a criação de mecanismos mais eficientes para o combate à circulação das fake news.

Introdução

Muito se tem falado atualmente, tanto nos noticiários nacionais quanto internacionais, a respeito do papel decisivo das fake news no desfecho, dentre outras, das eleições presidenciais norte americanas, no Brexit 1 , nas eleições alemãs, francesas e italianas, com alta probabilidade de que isso se repita também em outras eleições, inclusive nas brasileiras. Diante disso, vários autores de diferentes áreas passaram a se dedicar ao estudo deste fenômeno social que, embora não seja exatamente novo, tornou-se potencialmente perigoso por ter atingido um patamar inédito e preocupante, principalmente em razão da velocidade e do alcance em escala global quase instantâneo a um número de pessoas suficientemente amplo e capaz de influenciar os resultados de eleições e de demais consultas populares. Este risco potencial de interferência na estabilidade do funcionamento de democracias consolidadas revela a necessidade de realização de novas pesquisas com foco no aprimoramento das técnicas para mitigação dos efeitos deletérios provocados pela circulação das fake news, cuja consequência mais notável e imediata é a deturpação da vontade dos cidadãos para o exercício do voto, uma vez que muitos deles podem ter passado a formar suas convicções e, com isso, a fazer suas escolhas tendo como referência a imagem de uma falsa realidade.

Este artigo tem como objetivo analisar uma das condições, dentre as várias existentes, para que as notícias falsas ganhem ressonância e circulem mais rapidamente entre as pessoas, sobretudo nos meios de interação virtuais, tais como redes sociais em sites na internet e aplicativos para smartphones. Para tanto, partimos da premissa de que as fake news precisam encontrar ambientes minimamente férteis para serem disseminadas e que a ausência de informações corretas e confiáveis expõe as pessoas a um volume maior de notícias falsas 2 . Tais notícias podem ser veiculadas tanto propositalmente, de má-fé, quanto involuntariamente, por pessoas que, desavisadas, acabam repassando informações falsas como se verdadeiras fossem 3 . Este tipo de comportamento constitui uma característica psicológica natural e intrínseca do ser humano em querer ser o portador, em primeira mão, de notícias impactantes aos demais membros de seus grupos sociais, ainda que essas notícias sejam falsas. Isso infelizmente faz sentido na lógica da nossa sociedade atual, em que os indivíduos cada vez mais competem por serem os primeiros (ou os melhores) em tudo, inclusive em acesso à informação.

O problema é que as informações de boa qualidade trazem consigo um alto valor agregado, o que, consequentemente, eleva seu custo ao serem disponibilizadas para o público em geral. Mas este valor agregado nem sempre é reconhecido pelos potenciais receptores como um fator diferencial capaz de convencê-los a pagar o preço mais alto, pois relegam a segundo plano a importância da origem e a confiabilidade da procedência, bem como da qualidade do texto. Além disso, por demandarem um pesado trabalho de elaboração intelectual, apuração, checagens e revisões, por parte do emissor, acabam demorando mais tempo do que a maior parte das pessoas, por ansiedade, está disposta a esperar. Isso faz com que as informações corretas e completas, pela demora natural no processo de elaboração, acabem dando lugar às notícias superficiais, de circulação mais rápida, mas de baixa qualidade e, muitas vezes, falsas.

Uma sociedade ideal, constituída por pessoas bem informadas e, sobretudo, com capacidade de analisar criticamente as notícias e opiniões que lhes são apresentadas estaria muito menos propensa a sofrer as danosas consequências causadas pela circulação de notícias falsas. Primeiramente, porque tais notícias não encontrariam aderência entre receptores mais qualificados e, muito possivelmente, seriam descartadas de plano ou teriam sua circulação imediatamente interrompida por aqueles que possuíssem condições de reconhecê-la como sendo falsa (ou, pelo menos, duvidosa). Em segundo lugar, porque, estando inserido numa sociedade altamente bem informada e com elevada capacidade de interpretar criticamente as informações, um indivíduo ficaria naturalmente constrangido pelos seus pares a repassar notícias e informações de baixa qualidade. Assim, em termos ideais, a capacidade de análise crítica dos indivíduos em relação ao conteúdo que recebem eleva, por consequência, o nível de qualidade das informações que circulam naquela sociedade, reduzindo, por outro lado, a circulação de notícias falsas (baixa capacidade de análise crítica de determinada população).

1.Custo da informação para o receptor

O processo de construção de nosso conhecimento passa, inicialmente, pela recepção tanto das informações que adquirimos pelas nossas próprias observações quanto por aquelas adquiridas por terceiros, que conosco compartilham fatos, análises, experiências e opiniões. Ao receber essas novas informações, as comparamos e as analisamos à luz da bagagem cultural que já construímos, o que nos permite formar nosso próprio juízo acerca da novidade. A exposição a elevado volume de informações não significa necessariamente que estamos absorvendo todo o conteúdo que nos é novo. Para que isso ocorra, é necessário que a informação nova nos faça sentido a partir daquilo que já trazemos como referências, valores, impressões e até sentimentos. Só assim podemos transformar uma informação em conhecimento, agregando-a à nossa bagagem cultural que é permanentemente atualizada.

No fim da década de 1950, o economista Anthony Downs 4 elaborou um modelo teórico seminal com o propósito de explicar a dinâmica de produção e distribuição de conteúdo político em contextos democráticos. Para tanto, partiu do pressuposto da racionalidade dos atores políticos (governos e candidatos) e dos eleitores, num cenário em que as formas de se fazer a informação chegar aos destinatários dependia basicamente dos meios de comunicação unidirecionais da época (rádio, televisão, jornais, etc.). Contudo, nos tempos atuais, a comunicação política acompanhou a evolução tecnológica e migrou em boa medida para os ambientes de comunicação virtuais, tais como os aplicativos de troca de mensagens instantâneas por indivíduos ou grupos e as plataformas que hospedam redes de interações sociais. Embora muitas das lições de Downs permaneçam válidas, mesmo nos dias de hoje – ainda que considerando as ressalvas feitas pelo próprio autor ao elaborar um modelo baseado num pressuposto de racionalidade dos atores envolvidos nas trocas de informação – tornou-se necessário realizar novas análises e abordagens a essa dinâmica de interação entre indivíduos, uma vez que a forma de as pessoas se comunicarem evoluiu para um modelo não existente ao tempo em que sua brilhante obra fora escrita. Sem ter a pretensão de reelaborar a teoria erigida por Downs, este trabalho tem como objetivo mais modesto apenas trazer novos elementos que demonstram a complexidade atual para lidarmos com o problema da desinformação deliberada, que já se mostrou suficientemente danoso às democracias contemporâneas.

O simples fato de estarmos conectados à internet, ligarmos a televisão, o rádio ou circularmos pelas ruas e conversarmos com outras pessoas já é suficiente para que estejamos expostos a um volume enorme de novas informações. Ocorre que nem sempre essas informações de fácil circulação passam pelos filtros adequados para verificação da procedência ou da veracidade para, por exemplo, selecionar aquilo que realmente merece ser armazenado e processado como conhecimento. O acesso a informações selecionadas e de boa qualidade demanda, portanto, uma postura ativa do receptor para buscá-las nas fontes mais confiáveis, refletir e analisar criticamente todo o conteúdo que lhe é apresentado como novo. Entretanto, tal procedimento demanda ao interessado um custo significativo, que pode ser desdobrado nas seguintes espécies: (a) custo do acesso à informação; (b) custo do tempo para que a informação seja apreendida e assimilada; e (c) custo cognitivo para compreender em profundidade o significado da informação.

a.Custo do acesso à informação

O primeiro obstáculo para o acesso à informação diz respeito ao custo financeiro que o receptor da mensagem deve arcar para ter contato com conteúdo de qualidade. Neste ponto, nossa forma de consumo de informação comporta uma metáfora com nossa forma de consumo de alimentos. Para uma alimentação saudável é necessário que nossa dieta seja rica, por exemplo, em verduras, hortaliças, legumes frescos, frutas da estação e grãos integrais. Ocorre que estes alimentos são significativamente mais caros do que outros com qualidade inferior, como frituras, produtos industrializados, gorduras saturadas, comidas com excesso de sal, de açúcar ou de farinha branca. Seguindo essa metáfora, podemos dizer que, para consumirmos informações de qualidade e provenientes de fontes confiáveis é...

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jusbrasil.com.br
7 de Dezembro de 2021
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1153090729/fake-news-e-o-custo-da-informacao-comunicacao-midia-e-fake-news-fake-news-ed-2020