Fake News - Ed. 2020

O Processo de Circulação das Fake News - Estado, Fake News e Responsabilidade

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Eric de Carvalho

Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, é professor e pesquisador do MediaLab da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

Eric.carvalho@espm.br

Introdução

Fake News é um conceito apropriado pelo senso comum sem conceituação unânime entre a comunidade acadêmica; é consentido, grosso modo, como notícias falsas que são espalhadas pela sociedade. Por se tratar de objetos de pesquisa naturais do jornalismo e, portanto, da comunicação social, o autor deste artigo crê que é da responsabilidade de pesquisas do campo das ciências da comunicação analisarem a natureza dessas notícias, assim como todo o dispositivo que envolve sua produção: a cultura do compartilhamento, mecanismos de engajamento, processos de fact checking 1 , tecnicidades de comunicação e a midiatização da informação e da boataria.

No intuito de jogar luzes à discussão desse tema que afeta à toda sociedade, é objetivo deste artigo esclarecer alguns desses conceitos comuns ao campo da comunicação que interferem na produção e disseminação das fake news. A identificação de uma notícia falsa permite que sua disseminação seja evitada, assim como a desinformação espalhada pela sociedade. Coibir o compartilhamento de fake news é um ato de utilidade pública.

1.Fake News como resultado da cultura do compartilhamento

Fake News são notícias falsas compartilhadas entre as pessoas; diferentemente de um boato ou uma fofoca, são informações apresentadas como notícias (ou seja, com o intuito de informar sobre um fato ou dado) e podem ser facilmente compartilhadas em redes por meio de ambientes digitais. Trata-se de um efeito colateral resultante da cultura do compartilhamento. Aspectos dessa cultura podem ser analisados sob a perspectiva de diversos teóricos estudiosos da comunicação.

Adepto de uma visão otimista sobre a potencialidade da comunicação em rede sobre o tecido social, os estudos de Manuel Castells se orientam para a análise de uma “sociedade em rede” que articula processos sociais com o aumento do uso de computadores e o advento da internet. Segundo o autor, ao final dos anos 1990 e meados dos anos 2000, “as redes interativas de computadores estão crescendo, criando novas formas e canais de comunicação, moldando a vida e sendo moldadas por ela” (CASTELLS, 1999, p. 25). Seu olhar para a cultura digital tem como foco suas potencialidades sobre processos socioculturais, tais como a política. Essa perspectiva relaciona o tecido social e a sociedade em rede como esferas interligadas.

O cenário articulado em rede permite a comunicação entre pessoas, reprodução de ideias, de valores e de comportamentos. Segundo Castells, “(...) cada vez mais, as pessoas estão organizadas não simplesmente em redes sociais, mas em redes sociais mediadas por computador” (CASTELLS, 2003, p. 110); o autor também acredita que o papel mais importante da internet na estruturação das relações sociais é sua contribuição para o novo padrão de sociabilidade baseado no individualismo.

No Brasil, diversos autores passaram a estudar a relação entre tecido social e sociedade em rede. Saad Correa (2010) enfatiza a influência da internet sobre o tecido social, indissolúveis na composição do que chama de “contemporaneidade digital”; segundo a autora não é possível delimitar essa esfera devido à sua fluidez e mutação inerentes. Seus estudos são orientados para a comunicação digital e, também, para a comunicação organizacional digital.

Esses autores estudam a organização da sociedade em redes, evidenciando o ambiente digital como um espaço privilegiado para trocas de informações. Lemos (2003) destaca a “lógica recombinante” da sociedade em rede, que permite a hibridação entre o tecido social e aspectos dessa cultura digital. “Antes de ser uma cultura pilotada (...) pela tecnologia, trata-se, a meu ver, de uma relação que se estabelece pela emergência de novas formas sociais que surgiram a partir da década de sessenta (...) e das novas tecnologias digitais” (LEMOS, 2003, p. 11).

Segundo o autor, a sociedade em rede possui essa lógica recombinante que permite ao usuário da internet que crie (ou recrie, ou mescle) conteúdos e os compartilhe em rede a qualquer momento, atualizando as características de uma sociedade permeada por uma cultura híbrida. Ele afirma que o hibridismo não é característica exclusiva da cibercultura, tratando-se de fenômeno social antigo, mas adquire novo alcance, velocidade e proporção nesse estágio. Sob sua óptica, novas tecnologias podem ser vetores de estabelecimento de vínculos sociais, além de permitir a recombinação de informação sob os mais diversos formatos, como texto, imagem ou formatos audiovisuais.

Essa lógica está presente na produção de fake news: combina-se imagens, textos e vídeos de forma a dar um aspecto verossímil (e frequentemente sensacionalista) a uma suposta notícia. O ambiente digital facilita não somente a produção como também o compartilhamento das fake news em redes sociais digitais.

Jenkins, Green e Ford (2014) analisam essas relações sociais em redes digitais mediante a perspectiva da cultura da conexão. Segundo os autores, o surgimento de novas plataformas tecnológicas com acesso à internet (como os smartphones) favoreceu o surgimento de uma...

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jusbrasil.com.br
7 de Dezembro de 2021
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1153090740/o-processo-de-circulacao-das-fake-news-estado-fake-news-e-responsabilidade-fake-news-ed-2020