Revista de Direito do Trabalho - 11/2018

Direito ao Esquecimento nas Relações de Trabalho - Estudos Nacionais

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Autores:

ANDRÉ ARAÚJO MOLINA

Professor Titular da Escola Superior da Magistratura Trabalhista de Mato Grosso – ESMATRA-MT. Doutor em Filosofia do Direito pela PUC-SP. Mestre em Direito do Trabalho pela PUC-SP. Bacharel em Direito pela UFMT. Juiz do Trabalho Titular na 23ª Região. aamolina@bol.com.br

FLÁVIO DA COSTA HIGA

Professor da Escola da Magistratura Trabalhista de Mato Grosso do Sul – EMATRA-MS. Pós-Doutor pela Universidade de Lisboa. Doutor e Mestre em Direito do Trabalho pela USP. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela PUC-Campinas. Juiz do Trabalho Titular na 24ª Região. flaviochiga@hotmail.com; flaviohiga@trt24.jus.br

Sumário:

Área do Direito: Trabalho

Resumo:

Este artigo trata da evolução doutrinária e jurisprudencial do tema do direito ao esquecimento, tendo como metodologia algumas incursões históricas e de direito comparado, tencionando demonstrar, ao final, a sua possível recepção pelo direito do trabalho brasileiro, enquanto diretriz para acomodar a tensão recorrente entre o direito à informação e os direitos da personalidade dos trabalhadores, sem que um prevaleça sobre o outro abstratamente, notadamente na atual sociedade comunicacional em que vivemos.

Abstract:

The present paper deals with the doctrinal and jurisprudential evolution of the subject of the right to forget, having as methodology some historical incursions and comparative law, intending to demonstrate, in the end, its possible reception by the Brazilian labor law, as a guideline to accommodate recurrent tension between the right to information and the rights of the personality of the workers, without one prevailing over the other abstractly, notably in the current communicational society in which we live.

Palavra Chave: Direito ao esquecimento – Direito do trabalho brasileiro – Aplicação

Keywords: Right to forget – Brazilian labor law – Application

1. Introdução

Les Représentants du Peuple Français, constitués en Assemblée nationale, considérant que l’ignorance, l’oubli ou le mépris des droits de l’homme sont les seules causes des malheurs publics et de la corruption des Gouvernements, ont résolu d’exposer, dans une Déclaration solennelle, les droits naturels, inaliénables et sacrés de l’homme, afin que cette Déclaration, constamment présente à tous les membres du corps social, leur rappelle sans cesse leurs droits et leurs devoirs, [...]. 1

Déclaration universelle des droits de l’homme et du citoyen de 1789.

As incisivas ponderações insculpidas no preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 não deixam dúvida acerca do papel político desempenhado pela memória no plano cívico. Quiçá um tanto exorbitante em função do momento de ebulição histórica vivido, o documento francês atribuiu à ignorância, ao esquecimento e ao desprezo a razão exclusiva pelas calamidades públicas e pela corrupção dos governos, declarando que o escopo daquela missiva era o de que todos os membros do grupamento social recordassem de seus direitos e deveres. Impôs-se, deveras, uma espécie de obrigação deontológica de não esquecimento dos direitos naturais como instrumento de luta contra o despotismo. 2

Sob o prisma axiológico, esse “dever de memória” engloba outras vertentes, tais como uma política de reconhecimento póstumo do sofrimento dos atores sociais do passado, 3 além da extensão dessa dor à sociedade contemporânea, sob o signo do repúdio às chagas sociais de outrora e a promessa de que as cicatrizes deixadas servem de legado para que erros não sejam reproduzidos. Nesse cenário, parece inquestionável que o sistema jurídico deve privilegiar a memória, pois, v.g., negar as barbáries do Holocausto – como fez o então presidente do Irã em 2005 4 – equivale a perpetrar novo crime contra a humanidade, 5 numa espécie de “patologia moral 6 ”.

Os efeitos positivos das lembranças não estão confinados somente aos fatos históricos relevantes, ligados à identidade e à herança cultural de um povo. Do ponto de vista individual, as pessoas físicas e jurídicas também agregam valor às suas escolhas cotidianas quando são municiadas de um cabedal mais vasto de informações, que lhes permita a tomada de decisões estratégicas de modo refletido. 7 Todavia, essa miríade de dados a serem processados deve possuir limites quantitativos e qualitativos que ainda remanescem incógnitos e para os quais a mente humana não está – e, quem sabe, jamais esteja – preparada para absorver.

Isso porque, desde os primórdios, a humanidade sempre teve o esquecimento como regra e a lembrança como exceção. Hodiernamente, as redes globais e a tecnologia digital promovem uma drástica ruptura de paradigma, tornando as recordações perenes e o oblívio praticamente impossível. 8 A mudança é colossal e, se negligenciada, pode trazer graves consequências às pessoas tanto individualmente quanto para a população em geral. Mas ela não é inexorável, na medida em que as novas tecnologias não nos obrigam a lembrar. Elas apenas facilitam a tarefa de evitar o esquecimento. Caberá à sociedade decidir que destino pretende dar às informações oriundas das mídias sociais, 9 rectius, se pretende manter ou alterar o quadro de hiperinformação perpétua que se vislumbra no horizonte. 10

Sabe-se que, assim como a memória, o esquecimento também exerce função essencial no processo cognitivo-analítico, haja vista propiciar um contexto lógico centrado preponderantemente no presente, capaz de fazer abstrações desvinculadas de obsoletas reminiscências. Nietzsche fora além, afirmando que o “esquecimento” é condição sine qua non para vivenciar a experiência da felicidade 11 e lucubrando os suplícios que afligiriam uma pessoa sem o dom de olvidar. 12 Borges criou o personagem imaginado pelo filósofo tedesco, batizando-lhe de “Funes, El Memorioso”, um homem de prodigiosa memória e incapacidade de raciocínios complexos. 13 O que a Filosofia e a Poesia conceberam no campo da ficção, ocorreu na vida real: “AJ”, abreviação utilizada para designar uma mulher de 41 anos de idade que nunca se esquece de absolutamente nada, afirmou sentir-se inapta para fazer escolhas e considerar a sua condição pessoal “um fardo”. 14

Dentro da dualidade memória e esquecimento, o acesso a determinadas informações pretéritas passa a desafiar a atuação da ciência jurídica.

Para além da memória individualmente armazenada em cérebros extraordinários, assunto que transborda os lindes jurídicos, são as lembranças conservadas em registros e arquivos digitais acessíveis on-line por qualquer pessoa e a qualquer tempo que suscitam os mais candentes debates. O Direito é desafiado a definir epistemologicamente a existência ou não de um “direito ao esquecimento”, delimitar seu eventual campo de aplicação e confrontá-lo com outros igualmente relevantes, tais como o “direito à informação” e a “liberdade de expressão”, a fim de esboçar diretrizes para sopesar a prevalência in concreto de um ou de outro.

E o espaço das relações de trabalho é um terreno fértil em que frutifica a discussão a respeito do tema proposto, na medida em que durante a execução de todo o contrato, inclusive mesmo nas fases pré e pós-contratuais, as informações a respeito do trabalhador passam a ser cada vez mais requisitadas, acessadas e utilizadas.

2. Esquecimento vs. Sociedade da informação

El olvido está tan lleno de memoria

que a veces no caben las remembranzas

y hay que tirar rencores por la borda

en el fondo el olvido es un gran simulacro

nadie sabe ni puede/aunque quiera/olvidar. 15

Mario Benedetti

O livro The Scarlet Letter, de Nathaniel Hawthorne, 16 conta a história de uma jovem britânica que, no ano de 1666, cruzou o além-mar com o ideal de edificar uma vida melhor em Massachussets, na região de New England, solo norte-americano colonizado por puritanos ingleses. Em seus planos, resolveu ir na frente do marido a fim de organizar a estada até que ele reunisse condições de deixar o velho continente. Ao saber que o navio que trazia seu esposo fora atacado por índios, presumiu a sua morte e entregou-se a uma paixão pelo reverendo local, da qual nasceu sua filha. Linchada moralmente pelos seus concidadãos, ela foi levada à prisão e, como se negou a revelar o nome do pai da criança, obrigada a carregar para sempre em suas vestes a letra A (adultery ou affair), bordada na cor escarlate na altura do peito, como símbolo do estigma social decorrente do pecado da concepção em uma relação adúltera. 17

A leitura da obra – escrita em 1850 e transposta para as telas de Hollywood em 1995 18 – causa um misto de indignação e perplexidade diante da intolerância religiosa ali retratada, mas principalmente pela crueldade de uma condenação perpétua, algo proscrito na maioria dos ordenamentos civilizados. 19 Contudo, o que mais chama a atenção é a atualidade da temática desenvolvida, escrita em meados do século XIX e retratando uma situação fictícia do século XVII, com ingredientes que se encaixam na realidade do mundo digital, apto a disseminar e conservar dados – verdadeiros ou falsos 20 – capazes de arruinar a reputação de alguém por toda a eternidade.

Algumas histórias tornaram-se verdadeiros clássicos da “injustiça digital”, citadas pelos mais diversos articulistas tanto pela propagação inconveniente quanto pela perenidade e o anacronismo dos julgamentos morais, tendo em comum a absoluta ausência de controle das vítimas sobre os seus dados postados em ambientes virtuais. Uma delas é a de Stacy Snyder, mãe solteira, então com 25 anos de idade, que, em 2006, aspirava à carreira docente, haja vista ter cumprido todos os créditos, sido aprovada nos testes e concluído o treinamento prático – boa parte disso com honra ao mérito. Ao ser convocada por um representante da universidade, o sonho acabou. Ela teve o diploma negado sob alegação de que o seu comportamento era “antiprofissional” para uma professora. O que motivou a decisão obtusa da instituição foi o fato de ela ter postado uma foto em sua página virtual no MySpace, com a legenda drunken pirate, 21 na qual aparecia fantasiada de pirata, segurando, junto à boca, um copo plástico. Ela ainda tentou retirar a publicação do ar, mas já era tarde demais. Sua página havia sido catalogada por motores de busca e a foto arquivada por rastreadores. No processo que moveu em face da universidade sob alegação de violação da 1ª Emenda, 22 por ter sido penalizada pelas suas atitudes pessoais e extraclasse, um juiz distrital negou o pedido, ao fundamento de que a sua foto não gozava da proteção alegada por ela. 23

Malgrado o argumento seja um tanto espúrio, pode-se cogitar de o revés impingido à Snyder ser fruto de autoflagelação, porquanto foi ela quem postou em sua página digital, em pleno século XXI, o retrato acompanhado de dizeres ambíguos. 24 Entretanto, o mesmo não pode ser dito de Andrew Feldmar, um renomado psicoterapeuta de 66 anos, domiciliado no Canadá, que, também no fatídico ano de 2006, tentou cruzar a fronteira do país com os Estados Unidos, como já fizera mais de 200 vezes, para buscar um amigo no aeroporto internacional de Seattle. Nessa ocasião, porém, um guarda resolveu abordá-lo e fazer uma busca pela internet, tendo encontrado um artigo científico de 2001, no qual Feldmar mencionara ter tomado LSD na década de 1960. Ele ficou detido por quatro horas, teve colhidas as suas impressões digitais e foi permanentemente proibido de ingressar em território estadunidense. Os casos diferem entre si não apenas pelo fato de a “confissão” de Feldmar se referir a um fato ocorrido cerca de quarenta anos antes da interpelação – ocasião em que os registros de deslizes pessoais ficavam circunscritos à memória de uns poucos amigos –, mas também por ele ter menos condições de dimensionar que um trabalho publicado em um periódico relativamente obscuro poderia ser tão facilmente acessado.

Todavia, conquanto seja possível admitir a hipótese de que ambos soubessem perfeitamente dos riscos que corriam, será que o futuro desejado é esse em que as pessoas não podem ter nenhum tipo de controle sobre as suas informações pessoais? Outrossim, será que todo ser humano merece um julgamento eterno e, muitas vezes, descontextualizado e parcial sobre condutas pretéritas que, até pouco tempo, estavam naturalmente fadadas ao oblívio? Supõe-se que a resposta afirmativa a essas duas indagações permitiria às novas tecnologias marcarem indelevelmente as pessoas com a “letra escarlate digital”, esquecendo uma lição que deveria ser lembrada – qual seja a de que é imperioso “esquecer para perdoar” (forget to forgive) – e passando a lembrar do que deveria ser esquecido. Transcendendo os limites da “experiência de felicidade” sugerida por Nietzsche através do esquecimento pessoal, a busca e a obtenção da felicidade como políticas de Estado também passam por uma espécie de “deslembrança social”, pela qual seja possível seguir em frente e ter a chance de recomeçar sem ser admoestado e julgado por registros inoportunos e prejudiciais.

3. Felicidade e direitos da personalidade

SECTION I. That all men are by nature equally free and independent and have certain inherent rights, of which, when they enter into a state of society, they cannot, by any compact, deprive or divest their posterity; namely, the enjoyment of life and liberty, with the means of acquiring and possessing property, and pursuing and obtaining happiness and safety. 25

The Virginia Declaration of Rights.

Independentemente da existência de uma prescrição explícita e a despeito de o conceito ser um tanto vago e de proliferarem divergências sobre a sua amplitude e políticas públicas específicas de implementação, a busca da felicidade parece ser um valor imbricado aos direitos humanos, mesmo porque não faz sentido conceber uma existência indigna e miserável. Basta ver que culturas bastante diversas e em épocas bem distintas, tais como os Estados Unidos da América do último quarto do século XVIII e o Japão do pós-guerra, 26 sacramentaram esse mandamento em diplomas bastante relevantes. Um dos mais famosos escritos a justificá-lo epistemologicamente sob ótica de um direito ligado à personalidade adveio do trabalho de Warren e Brandeis, como uma sofisticação do “direito à vida”. Segundo seu escólio, em tempos remotos o Direito protegia a vida apenas sob a ótica da incolumidade física, tendo evoluído, posteriormente, para a tutela da propriedade. Mais tarde, reconheceu-se a natureza espiritual do homem – dotado de sentimentos e intelecto –, razão pela qual o espectro de proteção passou a abarcar o “direito de usufruir da vida” e o “direito de ser deixado em paz” (the right to be let alone). 27

Indicado para a Suprema Corte norte-americana em 1916, Brandeis passou a tentar incutir a ideia entre seus pares, sem embargo de ter perdido algumas batalhas, como no célebre caso Olmstead v. United States, 277 U.S. 438 (1928), 28 em que foi negada a tutela da privacidade em face de escutas telefônicas clandestinas, 29 diante da ausência de lei específica. 30 Havia, indubitavelmente, como de certa maneira ainda há, 31 um obstáculo a ser transposto em face da ausência de legislação ordinária que regulamente direta e especificamente o “direito de ser deixado em paz”.

No cenário norte-americano, a doutrina justifica essa omissão pelo fato de a Constituição do país ter sido plasmada a partir de uma moldura que se concentrava precipuamente em fincar as bases do governo da nação em detrimento das garantias e das liberdades pessoais. Prova disso é que a estrutura legislativa dedicada aos direitos individuais fora integralmente redigida em comandos negativos, sob a forma de restrições do Estado em benefício do cidadão. 32

Em que pese o alegado empecilho, não demorou muito até que algumas cortes estaduais começassem a lobrigar a possibilidade de colmatar tais lacunas por meio de interpretações mais ampliativas de provisões genéricas como a do “direito à felicidade”. Foi o que ocorreu em Melvin v. Reid, decidido pela Corte de Apelação da Califórnia em 1931, que concernia aos episódios da vida de Gabrielle Darley, ex-prostituta e acusada de homicídio. Depois de ser absolvida em 1918, ela abandonou o estilo de vida pregresso e, no ano seguinte, casou-se com Bernard Melvin, passando a levar uma vida exemplar, honrada, virtuosa e correta. Sucedeu que, no ano de 1925, Dorothy Davenport Reid produziu e exibiu – sem o consentimento ou ao menos o conhecimento de Gabrielle Darley Melvin –, um filme denominado The Red Kimono, baseado nos fatos ocorridos na época de sua vida mundana, advertindo os espectadores de que se tratava de uma história real e utilizando o seu nome de solteira na personagem principal. Submetida ao escárnio e à execração pública, Melvin passou por graves distúrbios físicos e mentais e processou Reid por perdas e danos, vindicando reparação no valor de US$ 50.000,00. Na decisão que deu provimento ao recurso de Melvin e determinou o retorno dos autos à origem para arbitramento da indenização, a Corte deixou claro que seria avessa ao acolhimento das pretensões na ausência de dispositivos legais expressos que o amparassem, mas que o “direito à felicidade”, previsto na Constituição da Califórnia, dava suporte jurídico à condenação. 33 Ademais, afirmou que toda pessoa tinha o direito à reabilitação em vez de ser arremessada de volta à sua vida de crimes e vergonha, uma vez que até mesmo ao ladrão crucificado foi concedido o direito de arrepender-se em seus momentos terminais de agonia. 34 Um dos principais argumentos em que a Corte se amparou para acolher as alegações de Melvin foi o fato da ilicitude da obtenção do material para a película, já que ausente a autorização e o consentimento de Gabrielle para a divulgação dos seus dados pessoais.

A questão da licitude da obtenção do material cuja divulgação se pretende obstar faz uma diferença significativa no debate, haja vista muitos vislumbrarem na proibição desse jaez uma espécie de censura e atentado à liberdade de expressão. 35 Foi esse o motivo, aliás, de a Corte de Cassação francesa ter rechaçado, no início da década de 1990, as pretensões de determinada pessoa pelo fato de os acontecimentos de sua vida privada terem sido, em seu tempo, levados ao conhecimento público e revelados de maneira lícita, o que a impedia de se prevalecer do postulado “direito ao esquecimento 36 ”.

Mas a conjuntura atual parece bem mais auspiciosa, 37 como revela a decisão da Corte de Cassação italiana de 2012, ao tratar da circulação de dados atinentes a uma pessoa proeminente e que haviam sido licitamente divulgados. O evento envolveu um expoente político de uma pequena comunidade da Lombardia, pertencente ao Partido Socialista, que fora preso por corrupção no longínquo ano de 1993, mas acabara sendo absolvido ao final do processo criminal. Ele se queixou do fato de que, até hoje, uma busca por seu nome na rede resulta invariavelmente no infausto acontecimento, sempre no arquivo do jornal Corriere della Sera e noticiando apenas a carceragem, sem referências ao desfecho favorável com a vitória judicial. 38

Com base no art. 11 do Código de Privacidade, 39 a Corte estabeleceu que o direito à informação objeto de tratamento deve responder aos critérios de necessidade, proporcionalidade, pertinência ao objetivo, exatidão e coerência com a identidade atual da pessoa retratada. Por isso, se o interesse público à informação constitui um limite ao direito fundamental à intimidade, ao sujeito a quem pertencem os dados também deve ser atribuído, correlatamente, o “direito ao esquecimento”, para que não sejam ulteriormente divulgadas notícias que, pelo transcorrer do tempo, são atualmente esquecidas ou ignoradas pela generalidade dos concidadãos, 40 ainda que verdadeiras e, na divulgação original, foram levadas ao público de maneira lícita.

A Espanha é um dos países onde o direito ao esquecimento ganhou maior desenvolvimento, tanto doutrinário 41 como legislativo e jurisprudencial, culminando com as decisões do Tribunal Constitucional de 30 de novembro de 2000, 42 nas quais fixou-se a interpretação de que o direito ao esquecimento garante à pessoa o poder de controle e disposição sobre os seus dados pessoais – direito de autodeterminação informativa –, do qual decorre uma série de faculdades, como a necessidade de consentimento do seu titular para recolhimento e uso de seus dados pessoais; o direito de conhecer os dados; ser informado de quem os possui e com que finalidade; assim como o direito de oposição a essa posse e uso, podendo exigir que se ponham fim à posse e o emprego das referidas informações.

É certo que a internet ajudou a potencializar alguns direitos fundamentais, como a liberdade da informação e a liberdade de expressão, mas, ao mesmo tempo, possibilitou um maior número de ofensas a outros direitos fundamentais, como a intimidade e a privacidade, principalmente a proteção de dados e informações pessoais. A partir dessa constatação, principalmente os países integrantes da Comunidade Europeia deram início à aprovação de legislações, comunitárias e domésticas, para regular o acesso, tratamento e divulgação de dados. O grande marco legislativo foi a aprovação da Diretiva 95/46, de 24 de outubro de 1995, pela União Europeia, estabelecendo diretrizes gerais para que os países criassem e adaptassem as suas legislações internas aos mesmos parâmetros gerais comunitários. Também o art. 8º da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, de 18 de dezembro de 2000, consagra como um direito fundamental a proteção de dados. 43

Forte nesses marcos comunitários e na sua experiência jurisprudencial interna, a Espanha levou a julgamento do Tribunal de Justiça da União Europeia o caso em que um cidadão espanhol demandava em face da Google Spain o direito a que parte dos seus dados fossem omitidos da ferramenta de busca. O enredo é relativamente trivial: em 2010, González apresentara, na Agência Espanhola de Proteção de Dados, uma reclamação contra a La Vanguardia e a Google, pelo fato de a inserção de seu nome no motor de busca estabelecer conexões a duas páginas do jornal da La Vanguardia, nas quais figurava um anúncio de venda de imóveis em hasta pública decorrente de um arresto para a recuperação de dívidas junto à Segurança Social. Ele pedia que se ordenasse à La Vanguardia que suprimisse ou alterasse as referidas páginas, para que os seus dados pessoais deixassem de aparecer ou que fossem protegidos, e que se ordenasse à Google Spain ou à Google Inc. que suprimissem ou ocultassem os seus dados pessoais, para que deixassem de aparecer nos resultados de pesquisa. Ele fundamentou seu pedido no fato de o aludido processo ter sido há vários anos e que as referências atuais a ele careciam atualmente de pertinência, maculando o seu direito ao esquecimento.

A sentença internacional, de 13 de maio de 2014, 44 deu razão ao cidadão espanhol, garantindo o direito de que os indivíduos solicitem a eliminação de dados pessoais contidos na rede, ainda que esses dados não sejam falsos, mas o seu tratamento passa a ser ilegítimo quando os dados pessoais são inadequados, impertinentes ou excessivos em relação aos fins a que se destinam e o tempo já transcorrido.

Ao decidir o caso, o tribunal, entre tantos aspectos relevantes, reconheceu a potencialidade violadora de direitos fundamentais dos motores de busca; esclareceu que a incompatibilidade das publicações com a Diretiva europeia não decorria necessariamente da inexatidão de dados, mas também do fato de serem inadequados, impertinentes ou excessivos em relação ao atendimento das finalidades do tratamento; afirmou a prevalência dos direitos fundamentais, em princípio, não apenas sobre o interesse econômico do operador do motor de busca, mas também do interesse público de encontrar determinada informação e, ainda, asseverou que o elemento temporal é um critério de aferição da compatibilidade. 45

O Tribunal Europeu fixou duas importantes premissas que passaram a iluminar os tribunais internos dos países comunitários, quais sejam: 1) os cidadãos têm o direito de solicitar aos motores de busca a desindexação das suas informações ou dados pessoais, independentemente da prova de prejuízo econômico, apenas alegando que a informação não respeita seu direito fundamental à proteção de dados pessoais e que 2) há um direito fundamental ao exercício do direito ao esquecimento por parte dos cidadãos, resguardando-se apenas o tratamento dos denominados dados pessoais públicos, decorrendo que se deva realizar a ponderação em cada caso concreto entre o direito a que se apague o conteúdo e o direito de informação pública, como nos casos de preservação dos dados com fins jornalísticos, excepcionados pelo art. 9º da Diretiva 95/46/CE.

A partir da decisão do Tribunal de Justiça da União Europeia, no ano de 2014 destacaram-se outras duas decisões judiciais domésticas, uma espanhola e outra francesa, avançando sobre o tema e reconhecendo o direito dos cidadãos, para além do atendimento do pedido de correção e desindexação das informações que não tinham interesse público – violando o direito ao esquecimento –, o direito à indenização pelos danos morais sofridos, 46 em razão de cujas decisões a própria Google Search criou, em 5 de maio de 2015, uma ferramenta de acesso aos usuários espanhóis para que possam solicitar a desindexação dos seus dados pessoais, acenando para o respeito e adequação ao precedente do Tribunal Internacional e às mais atuais decisões internas. 47

Recentemente e mais próximo da nossa realidade sul-americana, foi a vez da Corte Suprema do Chile reconhecer o direito ao esquecimento no sistema jurídico daquele país, ao reformar uma decisão das instâncias ordinárias e determinar que um veículo informativo de internet eliminasse os registros informáticos de uma notícia que afetava negativamente o recorrente. 48 Cuidava a relação fática de um policial que foi processado como autor do delito de abuso sexual, cuja notícia foi veiculada na versão eletrônica do jornal de maior circulação do Chile no dia 17 de agosto de 2004. Alegou o autor da ação, sem negar o fato de que fora realmente processado, que a manutenção da notícia on-line violava o seu direito de reinserção na vida social, estigmatizando-o, afrontando os direitos fundamentais de integridade física e proteção da vida privada, própria e da família. Por sua vez, a empresa jornalística defendeu-se invocando o princípio da liberdade de informação, inclusive porque a notícia divulgada era verdadeira, não incidindo na hipótese a Lei de Imprensa (Ley 19.733, de 4 de junio de 2001) que contempla procedimentos de aclaração e retificação de notícias incorretas, cujos argumentos de defesa foram acolhidos pelas instâncias ordinárias, rejeitando-se o pedido do cidadão para exclusão da reportagem.

De sua parte, a Suprema Corte começou afirmando que não há na legislação ordinária chilena a enunciação de um direito ao esquecimento, mas que tal garantia fundamental derivava diretamente dos direitos fundamentais da Constituição, como a dignidade humana, a proteção da honra e da vida privada das pessoas, e inclusive decorreria do direito de autodeterminação informativa, entendido como o direito de as pessoas controlarem os seus dados pessoais. E também a Corte buscou nos tratados internacionais, notadamente nos artigos 5º e 11 da Convenção Americana de Direitos Humanos, os fundamentos normativos do direito ao esquecimento no território chileno.

Avançou a Corte para fazer raciocínio analógico, a partir dos antecedentes criminais, já que a própria lei penal – a mais gravosa do ponto de vista da afetação dos direitos individuais – assinala que o transcurso do tempo de duração da pena permite eliminar os registros públicos uma vez cumprida aquela, com maior razão os meios de comunicação social devem atuar coerentemente com a intenção de propiciar ao condenado a possibilidade de reinserção social e o desenvolvimento de uma nova vida conforme o respeito às garantias constitucionais, uma vez transcorrido o tempo da condenação.

Com esse raciocínio, concluiu a Suprema Corte...

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jusbrasil.com.br
28 de Janeiro de 2022
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1188259359/direito-ao-esquecimento-nas-relacoes-de-trabalho-estudos-nacionais-revista-de-direito-do-trabalho-11-2018