Ética Geral e Profissional - Ed. 2020

5. Ética e Cibercultura

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Sei ter o pasmo comigo

Que teria uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto--me nascido

a cada momento

Para a completa novidade do mundo... 1

5.1. Introdução

Queira-se ou não, vive-se uma revolução diante das implicações culturais do desenvolvimento das tecnologias digitais de informação e de comunicação. 2 A virtualização da informação produziu uma nova espécie de relação entre as pessoas. Fala-se hoje, sem estranhamento, em ciberespaço e em cibercultura. Os conceitos foram bem delineados por Pierre Lévy: “O ciberespaço (que também chamarei de ‘rede’) é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo”. Quanto à cibercultura, significa “o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço”. 3

Por sinal, Pierre Lévy considera inadequada a metáfora do impacto dessa nova realidade na vida dos homens. A tecnologia não pode ser comparada a um artefato bélico, arremessado sobre um alvo: a humanidade. Ao contrário, “as técnicas são imaginadas, fabricadas e reinterpretadas durante seu uso pelos homens, como também é o próprio uso intensivo de ferramentas que constitui a humanidade enquanto tal (junto com a linguagem e as instituições sociais complexas)”. 4 O ser humano continua essencialmente o mesmo. É o animal pensante que fala, ama, se angustia, enterra seus mortos e se ontem fazia fogo mediante fricção entre duas pedras, hoje comanda equipamentos mais sofisticados.

A profunda mutação que se produz no convívio entre as pessoas encontra-se em pleno curso e hoje é impossível prever o que ocorrerá não daqui a um século, mas dentro de dez anos. Pensar que os mastodontes informáticos fabricados na década de cinquenta do século passado eram pesados e gigantescos e que se previu sua completa inutilidade senão para uso militar e hoje qualquer criança possui ipads, iphones e outras bugigangas informáticas, sinaliza o terreno movediço em que se procura caminhar 5 . Seja como for, já é tangível a multiplicação das capacidades de memória e transmissão, o implemento de novas interfaces 6 com o corpo e o sistema cognitivo humano, a completa virtualização da vida individual e coletiva. A realidade presente e o que se prenuncia, desafiando as mais ousadas teorias da ficção científica, autorizam a conclusão de que o mundo de nossos bisnetos será muito diferente daquele em que viemos à luz.

A Quarta Revolução Industrial mergulhou o planeta num tsunami de inesperados. Somos hoje conduzidos pelos algoritmos. Para Harari, "em breve a autoridade pode mudar novamente - dos humanos para os algoritmos. Assim como a autoridade divina foi legitimada por mitologias religiosas, e a autoridade humana foi justificada pela narrativa liberal, a futura revolução tecnológica poderia estabelecer a autoridade dos algoritmos de Big Data, ao mesmo tempo que solapa a simples ideia da liberdade individual" 7 . Afunila-se o espaço reservado para as escolhas pessoais. Isso faz com que a preocupação ética se imponha como aquela mais relevante para perscrutar o destino da Humanidade. "Pode-se dizer que algoritmos jamais poderão tomar decisões importantes por nós, porque decisões importantes normalmente envolvem uma dimensão ética, e algoritmos não entendem de ética. No entanto, não há razão para supor que os algoritmos não serão capazes de superar o ser humano médio mesmo na ética". 8 Chegará o dia em que, até na conduta ética, nossa mente será manipulada pelos algoritmos?

5.2. O virtual

A virtualização está presente em todos os espaços e nem sempre é objeto de reflexão por parte de pessoas que dela se servem no cotidiano. Isso em virtude da polissemia que acomete o verbete virtual. Para Pierre Lévy, há pelo menos três sentidos: o técnico, vinculado à informática, o corrente e o filosófico. Mas ainda há sentidos diferentes, se o tema for ótica ou mecânica. “Na acepção filosófica, é virtual aquilo que existe apenas em potência e não em ato, o campo de forças e de problemas que tende a resolver-se em uma atualização”. 9 Melhor esclarecendo, “o virtual encontra-se antes da concretização efetiva ou formal (a árvore está virtualmente presente no grão). (...) Mas no uso corrente, a palavra virtual é muitas vezes empregada para significar a irrealidade – enquanto a ‘realidade’ pressupõe uma efetivação material, uma presença tangível. A expressão ‘realidade virtual’ soa então como um oxímoro, um passe de mágica misterioso”. 10 Todavia, o virtual é real. “O virtual existe sem estar presente”. 11 Não existe tanta diferença entre os vários sentidos do verbete virtual. “Um mundo virtual – considerado como um conjunto de códigos digitais – é um potencial de imagens, enquanto uma determinada cena, durante uma imersão no mundo virtual, atualiza esse potencial em um contexto particular de uso”. 12 A virtualização atingiu todos os setores e não existe hoje atividade confiada aos homens que não esteja condicionada ou extraia proveito da nova era do ciberespaço.

“Não haverá vida fora da internet”, vaticinou Bill Gates. E se no chamado mundo real as preocupações macroecológicas são o crescimento populacional, a poluição, o aquecimento do planeta e a falta d’água, como observa Cid Torquato, “no ‘mundo virtual’ na world wide web, 13 neste mercado cada vez mais conectado, interativo e em tempo real, a necessidade de preservação ecológica é tão ou mais vital que a do meio ambiente físico, embora, à primeira vista, este nos pareça bem mais catastrófico. Trata-se de um ecossistema extremamente poderoso, mas frágil, que exigirá sabedoria, ética e políticas regulatórias severas em prol de sua sobrevivência”. 14 Ora, o planeta se encontra no estágio de grande risco hoje detectado até pelos mais céticos, exatamente porque não houve consciência ética dos responsáveis pela degradação. Ávidos por dinheiro, convolaram núpcias indissolúveis entre cupidez e ignorância. O resultado aí está. Por isso é que o usuário do ciberespaço, notadamente as novas gerações, aptas a perscrutá-lo com desenvoltura, deve ser alertado dos perigos da carência ética para a aceleração da finitude da aventura humana sobre a Terra.

Também neste território há pouco inexplorado, mas hoje predominante em todas as experiências de convívio, é preciso insistir numa postura essencialmente ética. Pois “o ciberespaço é, infelizmente, frequentado por mentes humanas, com suas aptidões para o bem e conhecida compulsão para o mal”. 15

O ciberespaço implicou radical revisita de conceitos. Houve uma desterritorialização, pois “o ciberespaço é autônomo e prescinde do átomo, portanto, do analógico com a natureza essencialmente não territorial, não fixa e, portanto, associada ao movimento”. 16 Desaparecem as categorias estáticas às quais o profissional do direito se acostumou a recorrer: fornecedor, consumidor, leitor, autor, criações originais ou cópias. “O espaço virtual favorece o anonimato e a despersonalização”. 17 É um golpe rude na cultura tradicional e se os novos tempos favorecem a liberdade, ameaçam outros valores igualmente protegidos pela ordem fundante. Daí a parametrização ética na tentativa de refrear abusos e vulnerações a direitos longevamente consagrados.

A disciplina clássica do direito tradicional é insuficiente ao enfrentamento das situações já existentes e, menos ainda, quanto às que hão de vir. Na lucidez e descortino de pensador à frente de seu tempo, José Eduardo Faria já detectara os desafios do direito emergente nos novíssimos tempos. Urgia “desenvolver um ordenamento capaz de substituir a coerção pelo consenso, o comando pela negociação, a decisão imperativa pela persuasão, a imposição pelo acordo, a subordinação pela coordenação, a intervenção controlada por um mecanismo descentralizado de autodireção e, por fim, a responsabilização individual pela responsabilização organizacional no caso de condutas potencialmente comprometedoras do equilíbrio sistêmico da sociedade”. 18 Até hoje não se produziu tal normatividade. Nem por isso as pessoas deixaram de recorrer aos benefícios e vantagens de toda a ordem propiciadas pelo mundo virtual. Há que se adentrar a tal vórtice, despido de preconceito ou acometido de desespero. As técnicas estão a serviço do homem. São instrumentais, não determinantes. Uma sociedade é condicionada pelas técnicas de que se serve, mas não determinada por elas. “Por trás das técnicas agem e reagem ideias, projetos sociais, utopias, interesses econômicos, estratégias de poder, toda a gama de jogos dos homens em sociedade. Portanto, qualquer atribuição de um sentido único à técnica só pode ser dúbia. A ambivalência ou multiplicidade das significações e dos projetos que envolvem as técnicas são particularmente evidentes no caso do digital”. 19 A disseminação do uso da tecnologia da informática acarretou uma reviravolta semântica. A linguagem das redes constitui outro idioma ou ao menos um dialeto digital. “Qualquer linguagem – verbal, visual, icônica, sonora, gestual e a lista não teria fim, pois o nome linguagem é legião – é essencialmente intersubjetiva”. 20 O emissor emite sua mensagem com um sentido e no significado totalmente diverso. É sempre a ética chamada a calibrar os sentidos e a eliminar arestas que possam surgir de incompreensões unilaterais ou recíprocas.

5.3. As redes

O Facebook já ultrapassou há tempo um bilhão de usuários e possui perfis bem completos sobre cada um deles. São ativos valiosíssimos, por concentrar informações que nenhum governo detém. É a mais conhecida, mas não é a única rede virtual. Quem não conhece o Google, 21 o maior instrumento de busca de informações ou o Youtube, que fornece clips e músicas para toda a população do globo?

O Twitter é uma rede que permite comunicações digitadas em até 140 caracteres. Por ele, pode-se “seguir” tuiteiros e também colecionar seguidores. No final de 2012, a rede ganhou uma importante adesão: a do Papa Bento XVI. Seu perfil é @pontifex, palavra que significa pontífice ou “construtor de pontes” em latim. As pessoas podem formular questões ao Papa mediante a tag #askpontifex e as respostas virão em espanhol, inglês, italiano, português, alemão, polonês, árabe e francês. O Papa Francisco também se serve das redes para as suas mensagens edificantes.

Milhões de brasileiros já se utilizam desse meio fácil e sedutor de comunicação. Quem já não presenciou jovens totalmente alheios ao que acontece ao redor, estejam em aula, no trabalho, no ônibus ou simplesmente caminhando na rua, recebendo e mandando mensagens?

Os benefícios são evidentes. Atinge-se um número imenso de pessoas sem a necessidade de utilização da anacrônica mensagem escrita em suporte papel – a extinta carta! – e sem necessidade de se recorrer ao telefonema convencional. É algo silencioso, instantâneo, atinge qualquer distância. Atravessa os mares e chega aos outros continentes no mesmo instante em que se digita.

A mobilização pela internet conseguiu, por exemplo, convencer o mundo de que existia na África um ditador chamado Kony, que obrigava crianças a se alistarem no exército e a matarem como adultos. Ajudou a primeira eleição de Barack Obama. 22 Sacudiu o oriente com a mobilização dos interessados na ressurreição da democracia, na chamada Primavera Árabe. Mais importante do que isso, a Islândia escreveu sua Constituição com uso das redes sociais. O conceito, no jargão da web, é o de crowdsourcing, ou seja, a concretização de projetos com a ajuda maciça de usuários da internet. Isso foi possível porque a Islândia possui pequena população – 311 mil habitantes – elevado nível educacional e 100% de acesso à internet.

Mas tudo tem um preço. Os ativistas da internet estão na mira dos governos que temem o despertar de uma consciência de reprovação a suas políticas. Há muitos anos alguns usuários mais antenados previam um ataque crescente e avassalador do Estado e das grandes empresas aos segredos dos cidadãos. O episódio Julian Assange e os vazamentos da WikiLeaks é emblemático e ainda não chegou a seu capítulo final. Assange esteve em prisão virtual na embaixada do Equador em Londres, com pedido de extradição ainda em curso. Em julho de 2019 continuava preso, sob custódia da polícia londrina que o prendeu em 19.4.2019, sob alegação de haver descumprido requisitos fixados quando da concessão de fiança.

Vários livros foram escritos para abordar essa queda de braço entre governo e ativistas, com tendência de derrota final destes últimos. 23 Não existe consenso a respeito dessa dependência que, nos Estados Unidos, é apontada como fenômeno de complexa explicação. Pesquisa recente apurou que os viciados em redes sociais são mais propensos ao suicídio, às trocas de parceria sexual e ao consumo de álcool e outras drogas. Isso, ao que parece, em virtude da impulsividade que caracteriza o usuário fanático pelos celulares.

O noticiário foi agitado com a perspectiva de criação de moeda própria para o Facebook, o que foi considerado abono à tese de que esse gigante da tecnologia tem projeto de dominação mundial. O alarme atingiu o sistema bancário e financeiro, porque, diversamente de outras criptomoedas, criadas para finalidade especulativa, o Face quer fazer da "libra" - esse o nome adotado - forma de pagamento real para seus mais de dois bilhões de usuários. Seriam atendidos até aqueles que não têm acesso ou não recorrem aos préstimos bancários. A consequência concreta foi a alta do bitcoin, que atingiu seu maior valor em dezoito meses. Contra a libra do Facebook, levantam-se teses de que ela servirá para lavagem de dinheiro, evasão fiscal e financiamento do terrorismo 24 . Para Laura Carvalho, a tendência é a libra se tornar uma moeda digital universalmente aceita, a "tornar ainda mais claro que as gigantes de tecnologia podem substituir Estados soberanos no século 21, minando assim as bases da democracia" 25 .

Redes são também entretenimento. Constituem lazer e propiciam humor. Um dos exemplos é o meme. Ideia ou hábito que se dissemina pela sociedade. Verbete criado por Richard Dawkins, o biólogo que escreveu O gene egoísta, em 1976. Para Dawkins, assim como os genes se propagam entre corpos, os memes saltam de cérebro para cérebro por um processo de imitação. No território online, meme quer dizer imagem replicada continuamente e quase sempre associada a piadas e brincadeiras. É algo na rotina do Facebook. 26

A respeito da mobilização pelas redes sociais, o sociólogo italiano Paolo Gerbaudo escreveu um livro interessante. 27 Foi aos lugares onde ocorreram as manifestações, entrevistou pessoas e concluiu que existem lideranças que ele chama de “coreógrafos”. Para ele, o Twitter é ótimo para coordenação interna da comunidade ativista, mas insuficiente à criação de um movimento de massas.

Mas tudo tem ao menos dois lados. Uma pesquisa recente do Pew Internet & American Life Project entrevistou 2.462 professores do ensino fundamental e médio nos EUA e concluiu que a vasta maioria concorda que as atuais tecnologias estão criando uma geração que se distrai com facilidade e só consegue se concentrar por breves intervalos de tempo. Dois terços dos professores concordam que as tecnologias contribuem mais para distrair os alunos do que para alavancar o seu desempenho escolar.

Larry Rosen, professor de Psicologia da Universidade Estadual da Califórnia e autor do livro Idisorder, fez sua equipe de pesquisa observar 263 alunos do ensino médio e superior estudando em casa por 15 minutos. O objetivo era verificar se eles conseguiam se manter concentrados e, em caso negativo, o que motivara a dispersão. Os resultados foram surpreendentes. Verificou-se que só conseguiam se dedicar às tarefas por períodos de 3 a 5 minutos, em média, antes de perder a concentração. De maneira geral, a distração era causada pela tecnologia, incluindo: 1) a presença de dispositivos como iPods, laptops e smartphones no local de estudo; 2) as trocas de mensagens de texto; 3) os acessos ao Facebook. 28

Os alunos que entravam no Facebook uma vez durante os 15 minutos observados tinham notas mais baixas. Não importava a quantidade de acessos: um só era suficiente. O que significa que as mídias sociais afetam negativamente a concentração e a atenção temporárias e também o desempenho escolar. Os jovens pesquisados foram consultados sobre o que acontecia com eles durante esse período. Responderam que, alertados por um bipe, uma vibração, uma luz piscando, sentem-se compelidos a responder ao estímulo. 3/4 dos jovens chegam aos dispositivos a cada 15 minutos e, quando não podem fazê-lo, ficam extremamente ansiosos. A ansiedade inibe a aprendizagem.

Aprender a conviver com distrações internas e externas tem tudo a ver com o ensino da concentração. Em psicologia, chama-se metacognição a capacidade de perceber quando a situação exige concentração e quando ela é desnecessária.

A estratégia para ensinar concentração é o intervalo tecnológico. O estudante tem permissão para usar smartphones, tablets 29 ou laptops para fazer pesquisas na internet e atividades relacionadas com o estudo por certo tempo. Depois desse, tenham eles se servido do equipamento para a finalidade permitida ou para checar e-mails e mensagens de texto ou para acessar redes sociais, são solicitados a deixar seus aparelhos em modo silencioso e virados de ponta-cabeça sobre a carteira, à vista de todos. Pede-se a concentração por 15 minutos. Depois disso, outro intervalo tecnológico.

Como observa Larry Rosen, “a tecnologia não vai desaparecer. Ao contrário, ela tende a ficar cada vez mais atraente. Com mais conexões sociais eletrônicas em nossas vidas, as distrações internas também aumentam, e os intervalos tecnológicos podem treinar o cérebro a se concentrar, aplacando a preocupação e a ansiedade com aquilo que podemos estar perdendo no nosso mundo social virtual”. 30

Outra crítica dos estímulos da internet é a neurocientista inglesa Susan Greenfield. Radical, afirma que passar tempo demais à frente de computadores, games, tablets e smartphones causa alterações cerebrais comparáveis ao mal de Alzheimer. Os usuários perdem momentaneamente a noção clara do que é passado, presente ou futuro. Ao mesmo tempo, não recusa que os videogames desenvolvem a coordenação motora e a memória e que a interatividade, sobretudo nos idosos, é ferramenta excelente para estimular a neurogênese, a formação de novas células cerebrais. Há relatos científicos de que a depressão e seus sintomas são reduzidos ante relacionamentos retomados ou criados nas redes sociais. É a neuroplasticidade, capacidade de o cérebro reorganizar-se e reinventar-se a todo momento por meio de estímulos externos. 31

Seja como for, há que se tomar cuidado. Hoje, crianças de dois ou três anos só almoçam ou jantam se estiverem a manusear um iPad. Usam celulares melhor do que adultos. Não há como coibir essa tendência generalizada, nem valeria a pena criar ilhas de isolamento numa sociedade que escolheu a virtualização como seu habitat natural. O importante é não perder a noção de que tudo o que se faz acarreta consequências. Vantagens e ônus se intercalam e o equilíbrio continua a ser o melhor remédio.

A obsessão pela tecnologia é objeto de reflexão de muitos pensadores. Charlie Brooker, jornalista inglês considerado uma das melhores cabeças do Reino Unido no século 21, 32 produziu Black Mirror (Espelho Preto), comparando a dependência aos equipamentos digitais à submissão causada pela droga. Black Mirror é o espelho negro que nos observa e que observamos toda vez que é desligada uma tela. Ao desligar TV, celular, computador, vê-se o próprio rosto em diferentes dimensões, emoldurado em tela escura que parece espelho em negativo do eu de cada um. “Desligamos aparelhos e nos vemos mirando para um vazio emocional que parece um abismo, anseios e esperanças refletidos do avesso, mas, ao contrário, não é o monstro nietzscheano nos olhando de volta, o desconhecido consciente. É apenas um vazio, como se estivéssemos nos tornando robôs, fazendo o caminho inverso de Roy Batty em Blade Runner”. 33

Todos conhecemos alguém permanentemente plugado. Aquele com quem se pode brincar, quando fisicamente ao seu lado: “Vou mandar um torpedo para que você preste atenção em mim!”. O tema sugere maiores reflexões. O escritor gaúcho André Cardoso Czarnobai foi convidado a passar uma semana sem entrar na internet, o que era inédito em sua vida. Narrou suas impressões para a Folha de S. Paulo e é interessante ler seu relato, do qual se extrai: “Quando caminhava pra casa, bateu uma fissura. Senti muita vontade de conferir meus e-mails. Fiquei me perguntando o que eu já teria perdido nas primeiras 24 horas de exílio digital”. 34

A utilização obsessiva dos celulares causa um escancarado isolacionismo. Todas as reuniões dão exemplos de um individualismo autista. Os presentes fingem presença, mas se refugiam na palma da mão, disfarçando ou não responder um SMS, mas ansiosos para verificar se houve reação ao que se fez nas redes sociais.

Algo que pode ser nefasto na internet é o acesso fácil e imediato à pornografia. Para Luli Radfahrer, “é uma indústria pioneira e obscura, uma das primeiras a testar comércio eletrônico, streaming de vídeo, webcams, geolocalização e tantas outras novidades. Hoje atende a cerca de 30 mil pessoas por segundo e compõe mais de 12% do conteúdo da rede, acessado com a mesma facilidade com que se pirateiam filmes e músicas.” 35 O risco é propiciar uma fantasia tão real e sedutora, que as relações com as pessoas físicas parecerão sensaboronas e monótonas se comparadas às ferramentas disponíveis ao sexo individual.

Também os games, cada vez mais sofisticados, são nocivos se usados imoderadamente. Sem falar que eles trivializam a vida e que recompensam o extermínio dos adversários. As recompensas psicológicas invertidas podem comprometer o mínimo que resta de bom senso inculcado pela educação no lar. Se é que esta ainda existe.

O debate sobre o impacto das redes sociais na vida das pessoas está longe de terminar. Mal começou. Indaga-se: elas aproximam ou afastam os indivíduos? Já existem livros para quem se interessar pelo aprofundamento do tema. O sociólogo Barry Wellman, da Universidade de Toronto e Lee Rainie, diretor do Instituto Pew, escreveram Networked: The New Social Operating System (Em Rede: o Novo Sistema Social), ainda sem edição em português. Defendem a valia desses instrumentos de saudável agregação entre os homens. Já Andrew Kewen, historiador e empreendedor pioneiro do Vale do Silício escreveu Vertigem Digital, 36 livro em que sustenta que as redes sociais estão dividindo, diminuindo e desorientando seus usuários.

Para os defensores das redes, houve uma revolução tríplice. Em primeiro lugar, os grupos sociais coesos foram substituídos, com o advento da web, por redes interligadas entre si por vários indivíduos. Alargou-se o círculo de relações, quebrando o acanhamento dos grupelhos familiares ou de vizinhança. Em segundo lugar, a dimensão dos relacionamentos foi alavancada com o acesso à banda larga e, em terceiro plano, consolidou-se com a disseminação de smartphones e tablets.

Ao contrário, Andrew Keen se serve de uma alegoria: uma prisão do castelo de Oxford foi transformada em hotel cinco estrelas. Era uma espécie de panóptico, átrio central que permitia o controle visual de todos os prisioneiros. Hoje, as celas viraram quartos luxuosos. Isso lembra as redes sociais, pensa Keen. Parecem hotéis cinco estrelas, mas não passam de prisões em que um encarcerado pode vigiar o outro durante vinte e quatro horas. A prisão à identidade virtual faz deixar de lado a identidade real. Acabamos passando mais tempo com a tecnologia e menos uns com os outros. 37

Outra crítica é a de que o excesso de informações faz com que muita inverdade seja veiculada nas mídias digitais. Em lugar de propiciar a reflexão e o aumento do intelecto, as redes e seu repositório infindável de dados produziram uma geração sinopse. 38 Ela fica preguiçosa, refém de uma cadeia de falsas informações, citações e referências que não levam a lugar nenhum.

Mais sério ainda, a facilidade e rapidez com que se acha qualquer informação na rede, sobre todo assunto e a qualquer hora, pode estar alterando os processos de cognição do cérebro. A primeira constatação é que as redes vieram a suprimir a necessidade da memória. Para que decorar, se o dado necessário pode ser encontrado a um simples toque de mouse? A psicóloga Betsy Sparrow, 39 da Universidade Columbia, fez um estudo para comprovar que a memória processada pelos 100 bilhões de neurônios do cérebro se adapta muito rapidamente à era da informação imediata. O computador é a memória externa, onipresente e indolor. Com isso, a memória relaxa, não treina e o resultado é que nos tornamos terminais de informações e não em agentes capazes de processar conhecimento por meio da memória e do raciocínio.

A informação instantânea trará consequências ainda não adequadamente avaliadas. Para a neurocientista Maryanne Wolf, diretora do Centro de Pesquisas de leitura e Linguagem da Universidade Tufts, de Boston, o cérebro é treinado a se adaptar e formar sinapses entre os neurônios de acordo com a leitura feita. Em seu livro Proust and the Squid: The Story and Science of the Reading Brain (Proust e a Lula: a História e Ciência do Cérebro que Lê), enfatiza o valor da leitura: “Livros sempre foram uma forma de se aventurar além das palavras, trabalhar a imaginação e crescer intelectualmente. Porém, na era da internet, passou-se a ler rapidamente, sem análise nem crítica. Como consequência, o cérebro começou a ter dificuldades na hora de ler com concentração”. 40 Inevitável que os jovens desenvolvam menos as conexões de seus neurônios.

Não é só nos Estados Unidos que isso gera preocupação. A University College London apurou que mesmo no ambiente acadêmico o estilo Google de assimilar conhecimento é a regra. Dois sites muito consultados pelos universitários – o da British Library e o de uma associação de instituições de ensino inglesas – são acessados, mas pouco lidos. Os alunos se satisfazem com resenhas, sínteses, geralmente não passam da primeira página. Tudo superficial e sem profundidade.

Ao pular de um artigo para outro, de um livro para outro, sem concentração alguma, o alunado faz o que se chama power browsing – navegação mecânica. Quem defende a intensificação do uso das redes diz que não é novidade a resistência ao progresso. Sócrates lamentou a popularização da escrita, pois entendia que a substituição do conhecimento acumulado no cérebro pela facilidade da leitura tornaria a mente preguiçosa e mataria a memória. Também o advento da Imprensa de Gutemberg, no século XV, foi anunciada como causa de folga intelectual. O mesmo teria acontecido com o surgimento da TV, que mataria o cinema e ambos acabariam com o livro. As publicações digitais constituem golpe de morte no livro de papel. E assim por diante.

Todavia, não é demasia verificar o que os pensadores falam a respeito da dependência às redes. Nicholas Carr, escritor americano respeitado em tecnologia, publicou um artigo na revista The Atlantic em que afirmou que a internet nos idiotiza a todos. Ler um livro é um sacrifício. Na sua obra The Shallows, 41 que trata dos efeitos da internet sobre o cérebro humano, sustenta que o cérebro hoje descarta um oceano de informações, pois sabe que elas estão armazenadas nos equipamentos móveis. Para ele, “a memória fora do cérebro não é igual à memória dentro do cérebro. O que guardamos na cabeça nos permite fazer associações, conexões, aprofundar o conhecimento, elaborar, reelaborar. É isso que nos torna únicos”. 42

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Ilustração de computador e livro
jusbrasil.com.br
8 de Dezembro de 2021
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1197015331/5-etica-e-cibercultura-etica-geral-e-profissional-ed-2020