Ética Geral e Profissional - Ed. 2020

11. Ética para Todos

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Várias situações sob a vertente ética foram apreciadas nesta obra. A partir do conceito de ética, dedicou-se uma reflexão específica para a ética ambiental e para a postura dos estudantes, sobretudo os que aprendem Ciência Jurídica na Faculdade de Direito. As profissões forenses foram contempladas: advogado, promotor, policial e juiz. O propósito foi a objetividade e a concisão. Para fazer pensar e, se possível, acionar o mecanismo de consciência que impõe a todo ser humano portar-se eticamente.

Haveria condição de se chegar a uma síntese? Algum recado que servisse para todos os interessados em ascender eticamente em sua vida? Uma ética para todas as pessoas e para todos os dias? Independentemente da profissão, da idade, do lugar em que moram? Existe algo comum e rotineiro, incidente sobre toda e qualquer pessoa, que possa estimular a adoção de um pensamento ético para um agir também ético na rotina de nossas vidas?

Esse remate para uma obra que chega à 14ª edição (o que significa a persistência e a determinação de pessoas atentas ao estado atual de coisas, no mundo e no Brasil), tenta oferecer a singeleza de uma receita ética factível. Sem aprofundamento teórico, sem mistérios e sem segredos. Algo essencialmente prático. Para tentar convencer o cético, ou o desalentado, de que não é impossível ser ético em pleno século 21, por mais desanimador que se vislumbre o cenário pátrio.

11.1. Ética para consigo mesmo

O próximo de mim mais próximo, sou eu mesmo. Sou um indivíduo e mereço consideração e respeito. A começar pela minha autoestima. Nas várias esferas de relacionamento humano, preciso ter uma relação franca, honesta e amistosa com o meu self. Preciso me conhecer melhor. Aprendizado que, muita vez, leva inúmeros anos, ao fim dos quais não se recebe diploma.

Preciso me tratar bem. Cuidar de minha saúde física e mental. Explorar as minhas potencialidades. Saber o que me agrada e o que me irrita. Lapidar os meus talentos, podar as minhas falhas. Assumir um contrato consigo mesmo: ser, o quão possível, feliz. Ao menos sereno, tranquilo, aceitando as vicissitudes, pois elas são inevitáveis.

O compromisso humano consigo mesmo é tornar-se a cada dia um pouco melhor. Acreditar na rota da perfectibilidade, que nos faz aprender com os erros, perseverar no propósito de não os cometer mais. Levar a sério a intenção de se atingir a plenitude possível, mediante meticuloso trabalho de revolver o que é inservível, lançá-lo fora e amealhar somente o que nos faz crescer.

Respeitar os limites, mas tentar superá-los, quando depender de nós. Alegrar-se, porque a tristeza chegará, queiramos ou não. Aceitar-se, com fragilidades e fissuras, corrigir o que é suscetível de correção.

Propiciar-se pequenos prazeres, que são esses os mais fundamentais para o nosso bem-estar. Atentar para os detalhes. Às vezes, neles está a beleza. Cultivar aquilo que nos agrada. Evitar tudo o que nos perturba. Com paciência e predisposição, chega-se a distinguir uma coisa da outra. Isso é o que se chama sapiência. Administrar as circunstâncias e balizar sua compatibilidade com a retidão.

Procurar a coerência possível na difícil caminhada por uma existência que surpreende e desencanta. Chorar quando tiver vontade. Não esconder o sentimento e mostrar aos seres amados que eles são importantes e essenciais para nós.

Aprender a conviver, que isso é um desafio de monta. Aprender a morrer, que é o final inevitável de todos nós. A única verdadeira certeza, no mundo das incertezas. Aceitar a morte, derradeira lição.

Guardar as boas recordações. Aprender com aquelas que nos feriram. Não reter incompreensões. Desabafar. Perdoar. Quem não perdoa está mais sujeito a sofrer AVC e a ter enfartes. Não é folclore: é ciência.

Cada qual tem a sua estratégia de suportar as dificuldades que, indefectivelmente, fazem às vezes pensar que viver não vale a pena. Eleja os seus objetivos. Relacione o que o faz perder a calma e o que traz sensação de conforto. Releia e refaça a lista, quantas vezes for necessário. Não é preciso aguardar a chegada de um novo ano para fazer a relação das promessas que, em regra, sabe-se que nunca serão cumpridas.

Isso acontece com todos, inclusive com os gênios. Leonardo da Vinci fez planos e prometeu muito mais do que chegou a realizar. Seu legado pioneiro ainda assombra a Humanidade. Antecipou-se em vários séculos a descobertas científicas atribuíveis a outras primícias entre os humanos 1 . Legou ensinamentos que, quatrocentos anos depois de sua morte, continuam atuais e valiosos: “Seja curioso, incansavelmente curioso. Busque o conhecimento pelo simples prazer da busca. Conserve a capacidade das crianças de se maravilhar. Observe. Comece pelos detalhes. Veja o que está invisível. Mergulhe no desconhecido. Distraia-se. Respeite os fatos. Procrastine. Faça com que o perfeito seja inimigo do bom. Pense visualmente. Evite fechar horizontes. Faça com que seu alcance seja maior do que sua compreensão. Alimente sua fantasia. Crie para você, não só para os patrões. Trabalhe em conjunto. Faça listas. Faça anotações – no papel. Esteja aberto ao mistério” 2 .

Milhares de invenções a cujo uso nos acostumamos e das quais nos tornamos até dependentes, exigiram estudo, empenho, trabalho contínuo, idas e voltas, recomeços de quem não abandonou a ideia no meio do caminho. O importante é manter acesa e inflamada a chama da inspiração. Chegar ao ponto almejado nem sempre depende de nós. Mas aquilo que depende, que não falte entusiasmo e esforço.

Não se envergonhe de ficar emocionado. De se deleitar com algo que fale ao seu íntimo. São esses raros e fugazes momentos que valorizam o fato de você ter nascido. Revisite amigos que já se foram. Guarde fotografias dos momentos felizes. Percorrer instantes que fizeram bem à alma rejuvenesce. Transporta a mente para aquele exato átimo temporal em que se experimentou o gosto da felicidade. Tenha sempre consigo a chave dos jardins da memória, que só a você pertence, como nos sussurra Cecília Meireles.

O filósofo francês Gilles Lipovetsky 3 , autor da ideia do efêmero, do descartável e da cultura hiper, elencou vinte coisas para fazer e dar sentido à vida. Entre elas: adote o slow food, o slow pensamento, o slow sexo: a pressa é inimiga do bom proveito. Aceite que objetos de qualidade e momentos excepcionais têm seu preço. Não transforme o luxo em vulgaridade: não ostente. Aprenda a esperar. Goste do que você faz no trabalho. Use o humor para conquistar e exercite a arte da sedução sempre, não importa a sua idade, em com quem. Ajude os outros. É o tipo de prazer que não se compra. Desligue a televisão para não desperdiçar sua existência. Permita-se emocionar-se e sentir. Não trave batalhas consigo mesmo. Isso só o afasta do bem-estar. Cuide dos relacionamentos: a felicidade e a tristeza são consequência da maneira como interagimos com os outros. Viva o presente. Conecte-se ao mundo virtual, sem esquecer as experiências reais. Priorize o ser, e não o ter. Só abra um vinho se puder saboreá-lo sem se preocupar com a hora nem com o amanhã. Redija seus textos a mão. Seja preguiçoso de vez em quando. Sem culpa. Evite a orgia consumista do Natal. Aproveite a varanda de casa. Não exagere no uso de cosméticos, nem nas idas aos cirurgiões plásticos.

Você pode multiplicar esse rol ou excluir dele aquilo que não pareça adequado ao seu perfil. O importante é reconhecer-se como ser irrepetível, singular, completamente heterogêneo em relação a qualquer outro. Criatura provida de inteligência, capaz de imprimir um rumo próprio à sua aventura existencial e apta a reformular o trajeto, quando bem o quiser ou a realidade o impuser. Não há regras. O órgão da sensibilidade varia de pessoa a pessoa. Essa a fortuna extraordinária do gênero humano.

Como dizia Ralph Waldo Emerson: “Não seja escravo do seu passado. Mergulhe em mares grandiosos, vá bem fundo e nade até bem longe, e voltarás com respeito por si mesmo, com um novo vigor, com uma experiência a mais que explicará e superará a anterior”.

Esse “mergulho em mares grandiosos” pode ser lido como um convite ao perene aprendizado. Estudar, conhecer, saber mais, desvendar segredos e mistérios é um exercício fascinante. Representa um compromisso ético para consigo mesmo aprender sempre, pois o verdadeiro sábio é aquele que não se considera superior aos demais. Apenas consegue vislumbrar, do alto de sua sapiência, o infinito horizonte do que ainda não sabe.

Enquanto há vida, há não apenas esperança, mas a certeza de que novas coisas virão. E poderão ser boas, a depender de nossa forma de conceber a vida e nosso papel no momento histórico que nos foi dado vivenciar.

11.2. Ética para com o próximo

Somos gregários por natureza. O ser humano tem por vocação viver em sociedade. Nascemos sós e morremos sós. Entre esses dois termos, convivemos. E se não é sempre fácil partilhar, é prazeroso extrair dos relacionamentos um contexto de sensações e sentimentos que podem nos fazer experimentar a mais instigante entre as emoções: o amor.

O ser racional precisa desse combustível como impulsão a todas as suas atitudes. O amor costuma ferir, mas há compensações. Sentir-se parte dessa energia que faz o mundo funcionar. Já não se proclamou que o amor move o sol e as demais estrelas?

A chamada “regra de ouro” do convívio é “não fazer aos outros o que você não quer que os outros lhe façam”. Muito próxima à síntese dos mandamentos cristãos: “amar ao próximo como a si mesmo”.

Nem todo “próximo” será alvo do amor evangélico. Mas todos os seres humanos, pelo mero fato de integrarem a espécie, são merecedores de respeito, porque têm o atributo da dignidade. Esse preceito é obrigatório para todos os brasileiros e residentes no Brasil, porque a dignidade humana foi convertida em um princípio superior, acima de todos os demais e norteador da integralidade de atuação dos homens neste solo 4 .

É muito fácil considerar, sob a ótica da dignidade, o âmbito doméstico. É o nosso ninho natural. Nossa zona de conforto e segurança. Quem é capaz de negar respeito e afeto ao cônjuge, aos pais e aos filhos? A ética em relação aos filhos oscila à medida em que novos hábitos, costumes e valores alteram o padrão anterior. Qual a ética apropriada para educar os filhos? Pais não têm curso de formação. Aprendem quando se tornam genitores. O mundo inteiro enfrenta polêmicas em relação a quase tudo nesse campo. Educar é obrigação dos pais, mas não proliferam os cursos disponíveis para quem queira se especializar.

Agora mesmo, em julho de 2019, a França aprovou a “lei antipalmada”, que veda as violências educativas ordinárias e impõe aos pais uma autoridade a ser exercida sem agressões físicas ou psicológicas. É medida simbólica, pois a Pátria de Rousseau (que, aliás, foi péssimo pai), é conhecida como padrão de severidade e rigor na educação infantil 5 . A França foi o 56º país a proscrever castigos físicos, enquanto o primeiro foi a Suécia em 1979. No Brasil, a mesma norma existe desde 2014.

Quase no mundo inteiro a criança foi “empoderada” e tomou consciência de seus direitos. Não é raro chamem Conselhos Tutelares ou polícia e Ministério Público, relatando maus-tratos ou tratamentos cruéis infligidos por seus pais. Há de se encarar com cautela essa novidade.

Parece prevalecer em nosso País aquela tendência à lassidão, certa leniência quanto ao dever de educar, a abominação da disciplina, sempre sob argumento de que a criança seria “traumatizada” se chamada a se comportar conforme as expectativas de conduta alimentadas por uma elite bem-educada. Na visão de Luiz Felipe Pondé, “os pais mais jovens hoje fazem dos seus filhos pequenos ditadores, perguntando a eles o tempo todo ‘o que desejam’” 6 . Isso faz deles adultos insuportáveis, incapazes de lidar com os desafios presentes em qualquer vida normal. Por isso a adolescência perene, a preocupante ascensão do suicídio infanto-juvenil, a permissividade sem freios, e certo “remorso” dos pais que declinaram de treinar social e emocionalmente sua prole, quando confrontados com o resultado danoso. Compensam a ausência afetiva com excesso de bens materiais. Sem querer, produzem a tirania da infância, a adolescência perene, quando não a maturidade perplexa, incapaz de administrar frustrações ou derrotas.

A escola, em geral, também não costuma ajudar. Para Pondé, “os jovens, hoje em dia, entram na universidade com uma idade mental afetiva de uma criança de dez anos. As escolas são usinas de idiotas da autoestima” 7 .

Mas não é somente a família o grupo com que nos relacionamos. Sem abordar as profundas mutações familiares, o surgimento de tantas novas configurações, continua firme na vontade dos homens, quanto à eleição de pessoas que passam a desempenhar, em nossas vidas, papel análogo ou até mais importante do que aquele confiado aos familiares de sangue.

O parentesco de seleção, espécie de “familiar que se escolhe”, que é o amigo, também merece consideração. Não é raro o indivíduo encontrar-se mais frequentemente com os amigos do que com os consanguíneos. Pode-se ampliar indefinidamente esse grupo, para incluir colegas de trabalho, amigos de clube, irmãos de fé, companheiros de esporte 8 . Não há limite para o crescimento do círculo de relações de convívio.

Amigo, de verdade, é raro. Mais comum a aproximação por interesse, a formação de laços tênues, que afrouxam assim que algo desagrada uma das partes. Oscar Wilde tem um conto magistral sobre a amizade, no relacionamento entre um jardineiro e um moleiro. Um servia àquele que só queria levar vantagem e acreditava, ingenuamente, que isso era amizade. Não nos iludamos: perfeição não existe. Aceitemos as falhas alheias, como o próximo aceita as nossas. Algo como o “perdoai nossas ofensas” da oração do Pai Nosso.

Ocorre que a comunidade humana é imensa. O fenômeno da conurbação fez com que os núcleos citadinos se inflassem. Há exemplos de quase insanidade como a cidade de São Paulo. A “metrópole insensata” é um fértil convite à pesquisa sociológica e antropológica 9 . Espaço de aturdimento inadministrável, cujo controle pela autoridade tradicional é mera ficção. Eliminadas as fronteiras convencionais que separariam a capital bandeirante de outros municípios, a mancha populacional supera vinte milhões de almas.

Entre estas, quantas as que estariam abrigadas sob o guarda-chuva do amor, da afeição, do respeito?

Uma agregação insensata de pessoas (amontoado de viventes que é impensável numa Nação continental, sem problemas de espaço físico para abrigá-los), impõe a você o convívio com seres humanos que não seriam os eleitos para frequentar sua casa. Multidões contínuas e diuturnas, já não se resumem às grandes concentrações dos estádios de futebol ou manifestações. Sua movimentação é hoje corriqueira 10 . Basta lembrar que o tecido social deteriorado em áreas nas quais o verdadeiro desenvolvimento não chegou, produz pessoas periféricas. Atestado contundente de que não eliminamos a miséria, nem reduzimos a pobreza, mas mantemos uma sociedade injusta e iníqua, é a presença desses semelhantes em tudo hipossuficientes 11 . Podem estar habitando o centro da cidade, mas, socialmente, integram a periferia.

Como nos portamos em relação a eles?

Nem todos são aqueles humanos que nos fornecem a imagem assustadora da violência urbana: “Homicídios, tráfico de drogas, assaltos, ocupações de morros, guerras com a polícia e adolescentes armados são tematizados em associação direta com periferias e favelas, figuradas, então, como territórios conflagrados, em que grassa uma violência banal. Seriam espaços apartados do funcionamento normal da sociedade, na qual pais de família tocariam sua vida honesta” 12 .

Por óbvio, periferia não é sinônimo de delinquência. O preconceito generalizado sugere o contrário. Advém dessa pré-compreensão disseminada, muito presente entre aqueles que se consideram diferenciados, superiores aos demais. O certo é que o aumento verificado nas últimas décadas é exatamente o do número dos hipossuficientes, dos excluídos, dos “invisíveis”, que não são enxergados como gente digna pelo sistema e pelo Poder Público.

Em relação a essa vasta e crescente categoria, qual é a nossa postura ética?

Por óbvio, uma situação resultante de múltiplas causas e de efeitos acumulados há séculos – o Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravatura – é insuscetível de mutação por obra de uma pessoa. Várias gerações terão de enfrentar as consequências da exclusão e de uma das mais iníquas repartições de renda que perduram no planeta.

Todavia, ninguém é tão impotente que não possa fazer alguma coisa. Essa “alguma coisa” depende do talento pessoal e da sensibilidade gerada ante o contato com a realidade. Há quem...

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8 de Dezembro de 2021
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1197015337/11-etica-para-todos-etica-geral-e-profissional-ed-2020