Fake News e Regulação - Ed. 2020

Capítulo 7. A Mudança da Esfera Pública Pela Inteligência Artificial

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Thomas Vesting 1

Estudou direito e ciência política na Universität Tübingen, Alemanha. Doutorado pela Universidade de Bremen sob a tutela de Ulrich Preuss e livre-docente pela Universität Hamburg sob a tutela de Wolfgang Hoffmann-Riem. Professor catedrático de teoria do direito, direito público e teoria dos meios de comunicação, sendo atualmente, ao lado de Gunther Teubner e Karl-Heinz Ladeur, um dos principais autores na área de teoria do direito com livros publicados em diversas línguas.

A.We have got social media

Um exemplo marcante e conciso de mudança da esfera pública por meio da inteligência artificial pode ser encontrado em um comentário que o candidato republicano à presidência, Ted Cruz, expressou alguns meses antes da definição de sua candidatura republicana para a eleição presidencial dos EUA. “Os repórteres”, disse ele em janeiro de 2016, “querem que Hillary ganhe. A resposta para isso é fazer aquilo que Reagan fez: passar por cima dos meios de comunicação”. 2 Contudo, como Cruz esclareceu logo após, isso seria mais fácil agora, no ano de 2016, do que o foi naquele tempo em que Reagan se candidatou para a presidência. Os Estados Unidos da América não viveriam mais, no presente, em um mundo de três emissoras de televisão que dirigiam a informação com uma espécie de mão de ferro asfixiadora. “Nós temos a Internet […]. Temos o rádio. Temos os meios sociais. Temos a possibilidade de contornar – e de chegar diretamente às pessoas”. 3

Para chegar diretamente às pessoas, Ted Cruz se apoiou nos meios sociais e foi o primeiro político norte-americano que contratou a Cambridge Analytica encomendando uma análise de dados psicométrica: com o auxílio de aplicação de algoritmos de aprendizado automático para a agregação de dados que os eleitores potenciais deixam nas redes sociais, 4 Ted Cruz pôde localizar os eleitores, abordá-los de forma precisa e orientada, e, então – como se presume que tenha ocorrido – pode influenciar as prévias do estado de Iowa para seu benefício de forma surpreendente. A estratégia da abordagem direta foi posteriormente adotada por Trump e sua equipe de campanha. Ainda que, na campanha de Trump, um projeto comum vago de todos os americanos (America first) tenha tomado um lugar importante desde o começo, Trump e sua equipe se apoiaram, no âmbito operativo, muito mais em um tipo de eleitor que poderíamos vincular associativamente a uma terminologia do filósofo francês Jean-Luc Nancy do eleitor singular, aqui entendido como um eleitor individual/único/particular. Nancy fala de singulares no sentido de uma daquelas unidades que se encontra com e sob todos os outros, 5 mas que, precisamente como sujeito individual não é mais parte de uma comunidade ou, como o era o sujeito transcendental em Kant, não se configura mais como um sujeito que busca uma relação cognitiva com a generalidade para alocar as condições de possibilidade da experiência para criaturas como nós em uma situação 6 na qual apenas restou o habitual do cotidiano de um cosmos que já foi uma vez marcado religiosamente. O eleitor singular deixa esse envolvimento com um mundo válido de forma geral para trás de si. Para ele é decisivo somente que ele, desde o início, surja como indivíduo (Einzelner) no plural e conheça apenas formas provisórias de coexistência e copresença com outros; formas de, em um dado momento, ser-juntamente-com-outros-eleitores. 7 O eleitor singular busca vinculações sem caráter vinculatório (Verbindungen ohne Verbindlichkeit) e, por exemplo – normalmente – não cultiva nenhuma relação estável no tempo em relação a um partido político, como se ele fosse dar sempre e reiteradamente seu voto para ele ou fosse até se engajar pessoalmente.

Com o auxílio de procedimentos psicométricos baseados em curtidas de Facebook, juntamente com outros dados que se encontram nas redes, Trump e sua equipe eleitoral conseguiram montar perfis de personalidade de eleitores potenciais de forma mais eficiente que seus concorrentes. Os métodos de criação de perfis de personalidade desenvolvidos pela Cambridge Analytica provavelmente contribuíram para que Trump, ao fim, ganhasse a eleição presidencial norte-americana. Enquanto, por um lado, a discussão política e jurídica tenha se concentrado, desde então, ao redor da problemática de proteção de dados com a criação de perfis de personalidade...

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30 de Novembro de 2021
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1197132533/capitulo-7-a-mudanca-da-esfera-publica-pela-inteligencia-artificial-fake-news-e-regulacao-ed-2020