Fake News e Regulação - Ed. 2020

Capítulo 9. Fake News: Uma Visão Político-Jornalística

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William Waack

Jornalista.

Não vejo o fenômeno chamado de fake news como algo excepcionalmente moderno, embora esteja na moda nesta segunda metade de 2018. Tão na moda a ponto de instituições acadêmicas, empresas e, principalmente, empresas jornalísticas se empenharem em criar verdadeiros “departamentos” para combater notícias falsas. A palavra, importada do inglês, tomou conta do vocabulário político brasileiro e virou até termo corriqueiro, que as pessoas usam entre si não necessariamente como referência a processos políticos. A grande responsabilidade pela maneira como o “fenômeno” tomou conta da discussão política, sobretudo no Brasil, deve­se exatamente ao papel dessas empresas jornalísticas, especialmente as maiores delas e dominantes no mercado de informação, entretenimento e publicitário.

Há um problema inicial em definir exatamente o que significa a expressão fake, originalmente entendida como falsificação, manipulação, informação mentirosa. Nesse sentido, para ficar apenas nos processos político-eleitorais, fake news é uma ocorrência tão antiga como a própria existência de eleições ou disputas políticas nas quais a disseminação de conteúdo a favor ou contra sempre fez parte das ferramentas para vencer o confronto. Nesse contexto estamos apenas designando pelo nome da moda fake o que sempre se conheceu como difamação, calúnia, injúria ou, simplesmente, como desinformação – espalhar boato, rumores, cuja capacidade de se alastrar (coisa que hoje se conhece pela expressão “viralizar”) dependia dos mesmos fatores que se registram na virulência ou não com que se propagam fakes hoje: na aparência de verdade, na semelhança com algo que não se sabe, mas, superficialmente, bem que poderia ser verdadeiro.

Há um outro sentido de fake sobre o qual vou discorrer aqui de maneira muito breve: a publicação ou disseminação de narrativas consideradas opostas. Exemplos históricos são muitos. O Vaticano, por exemplo, teria chamado de fake o que um monge alemão pregou na porta da Catedral de Worms no século XVI, denunciando práticas da Igreja e pedindo uma reforma. As teses de Lutero coincidem – e muitos historiadores dizem que jamais teriam se espalhado tão rapidamente – com a invenção da imprensa de Gutemberg (um pouquinho abaixo do Reno, na mesma região) e daí para cá vivemos permanentemente num ambiente no qual o embate político (como já foi na democracia grega ou na república romana) sempre teve como um de seus fundamentos e a denúncia do que o outro diz como falso, errado, mentiroso, distante da realidade.

Além desses dois planos aos quais me referi brevemente supra, há duas outras instâncias de fake quando se aborda esse fenômeno. E aqui começamos a examinar o que me parece essencial visualizar no contexto brasileiro atual. Um desses planos, uma dessas instâncias está ligada à verdade objetiva dos fatos. Vamos a um exemplo absolutamente banal: quem disser que Lula tem dez dedos está produzindo um fake. É algo facilmente verificável e cai na categoria também menos complicada de se analisar que é o “factualmente falso”. Não há margem para interpretação ou narração política, por exemplo. Falso é falso. A informação é facilmente verificável e procede ou não procede.

Vamos agora ao que torna mais difícil estabelecer o que é fake. Seguindo com esse mesmo personagem:...

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25 de Janeiro de 2022
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1197132536/capitulo-9-fake-news-uma-visao-politico-jornalistica-fake-news-e-regulacao-ed-2020