Fashion Law - Ed. 2020

9. O Alto Custo do Preço Baixo: O Real Valor da Cadeia Produtiva da Moda - Parte II - Responsabilidade Socioambiental na Indústria da Moda

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Parte II

Responsabilidade socioambiental na indústria da moda

Camile Serraggio Girelli 1

1.A relação entre ser humano e moda

Todos os dias, ao acordarmos, tomamos decisões, sejam elas conscientes ou não. Ao ouvirmos o despertador, decidimos levantar ou permanecer na cama por mais alguns minutos; perpassada essa decisão, levantamos, escovamos os dentes, tomamos banho, tomamos café e então nos deparamos com a decisão que atormenta tanto (ou mais) as mulheres quanto os homens todas as manhãs: o que vestir? Geralmente essa decisão é baseada na temperatura, combinada com os compromissos que o dia apresenta, somados ao nosso humor e à nossa disposição. Pois bem, analisadas as opções, provadas algumas (ou muitas) peças e feita a escolha, só então podemos sair porta afora e encarar o mundo.

Eu mesma fiz essa escolha hoje cedo e encontro-me, enquanto escrevo, com o combo fashion mais banal de todos: uma camiseta branca de algodão e uma calça jeans. E por que confesso isso? Porque, além de ressaltar que essa escolha diária é uma questão inafastável e muitas vezes inconsciente, hoje posso afirmar que sei a procedência da maior parte das peças do meu armário, sendo claros para mim os critérios para aquisição de cada uma delas, quais sejam: primeiramente, são escolhidas com base na procedência e reputação 2 da marca, na qualidade do produto, na potencialidade de perpetuidade deste e, só então, no preço. E tu, já identificou quais são os seus critérios de escolha? Já parou para pensar sobre que tipo de consumidor és? Com qual frequência e intensidade consomes moda 3 ? Quanto estás disposto a pagar pelos bens que consomes? E mais, o que o preço que tu pagas representa e o que esse preço realmente paga?

A moda sempre dividiu opiniões. Há os apaixonados por ela, aqueles que acompanham as tendências, ornam as cores e estampas, prestam atenção na modelagem e nos acabamentos, valorizam o caimento e a qualidade dos tecidos, são fiéis a determinadas marcas, há quem viva pelo “look do dia”, há produtores, costureiros, pesquisadores, designers, estilistas, modelos, diretores, fotógrafos, empresários, empresas e tantas outras pessoas que fazem sua vida criando, expondo, divulgando novas coleções a cada ano, a cada estação, a cada mês, a cada semana, a cada novo dia, e todos esses entendem, valorizam e exploram a importância da moda.

Contudo, também há aqueles indiferentes à moda, que creem que moda é sinônimo de futilidade, frivolidade, que é direcionada aos narcisistas, aos “líquidos” 4 , aos vaidosos. Pois os contradigo: a moda é para todos. Hoje, mais do que nunca, a moda é para absolutamente todos. Desde o traje mais simples – usado para ficar jogado no sofá de casa, passear com o cachorro ou regar o gramado –, até o terno mais fino costurado a mão, todos passaram por um longo processo de produção (alguns mais custosos e detalhados), mas fato é que todos se encaixam dentro da cadeia produtiva da moda.

Além disso, a moda é para todos porque nunca antes ela foi tão barata, acessível, inclusiva e democrática. Muitas peças, tecidos, cores e modelagens que antigamente eram usufruídos por poucas pessoas, com determinado poder aquisitivo, residentes em certas cidades, hoje estão acessíveis a todos, uma vez que saem da passarela e vão diretamente para as lojas em questão de poucas semanas (prêt-à-porter), com os mais diversos preços e procedências, podendo ser adquiridos até mesmo com um simples click com um dispositivo eletrônico na palma da mão.

Nas sociedades redesenhadas pelo capitalismo artista, a moda deixou de ser vinculada a uma esfera privilegiada – o vestuário –, como foi o caso séculos a fio. Ela se apresenta como um processo generalizado, uma forma transfronteira que, apoderando-se de cada vez mais domínios na vida coletiva, reestrutura os objetos e os lugares, a cultura e as imagens. 5

Além do mais, contra dados não há argumentos. E os dados da indústria da moda são pujantes demais para serem ignorados. Só no Brasil, a indústria do setor têxtil e vestuário emprega 1,5 milhões de pessoas de forma direta, podendo chegar a 8 milhões se for considerados os empregos informais. Dentre as 33 mil empresas formais no mesmo setor, 75% delas são do segmento de confecção. De toda a produção têxtil nacional, uma médica de 60 a 65% é destinado à confecção de roupas, o restante são para a fabricação de itens de cama, mesa, banho, calçados, e aplicados em indústrias como a moveleira, agrária, entre outras. Se somadas, em termos econômicos, a indústria da moda, da construção civil e do ramo de alimentos (que comporta alimentos e bebidas), resultam no triunvirato que preponderam as indústrias mundiais.

De acordo com a Fashion United 6 , o valor da indústria da moda global é de 3 trilhões de dólares por ano (o que corresponde a mais de 17 trilhões de reais), representando 2% do Produto Interno Bruto Mundial; além disso, estima-se que 1 a cada 6 pessoas no mundo trabalhe para alguma das etapas da cadeia produtiva da moda 7 (seja na etapa de produção e extração da matéria-prima, seja na etapa de produção das peças, na venda, no consumo ou no descarte), fazendo dela a cadeia que mais demanda trabalho humano no mundo.

As roupas, tecidos e indústrias de apoio associadas empregam um sexto da população mundial, desde o cultivo de algodão até a peça finalizada. Por isso, se você pensou que a moda não estava salvando bebês, pense novamente: ela tem o poder de mudar o mundo. 8

Já a indústria da moda brasileira, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção 9 , só no ano de 2017 teve faturamento de 51,58 bilhões de reais. A cadeia têxtil e de confecções brasileira é a segunda maior geradora de emprego no país, representa 16,7% dos empregos nacionais e 5,7 do faturamento da Indústria de Transformação.

Assim, a não ser que sejas adepto da nudez e/ou vivas em uma ilha deserta ou praia privada onde possa gozar da liberdade de andar nu, a moda também é para ti! E essa é uma triste e cruel realidade. Mas, por que triste? Por que cruel? Pois estamos todos – toda a humanidade, homens, mulheres, bebês, crianças, jovens, adultos e idosos, ricos ou pobres, religiosos ou não, independentemente de raça, orientação sexual ou qualquer outra classificação – aprisionados, condicionados a essa inafastável e inevitável realidade: todos precisamos consumir moda. Afinal, como afirma o cientista Paul Hawken, “somos o único animal que troca de pele todos os dias” 10 .

A indústria da moda é tão vital para o ser humano que só perde para a indústria da alimentação e das bebidas, se consideradas juntas 11 . Ou seja, para o ser humano do século XXI, só há duas necessidades mais vitais que se vestir: beber e comer.

Vale ressaltar que a indústria da moda abrange muito mais do que o vestuário, abarcando a indústria calçadista, os produtos de casa/mesa/banho, a joalheria, os cosméticos, toda a cadeia de tecidos, sejam eles naturais 12 ou não 13 , entre muitas outras. Além disso, ressaltam Madeleine Müller e Francisco Mesquita:

Embora o vestuário e a moda tenham uma ligação próxima, existe uma clara diferença entre estes dois conceitos. Enquanto que o vestuário é entendido no seu aspecto de produção material – o produto roupa – a moda está associada ao simbólico, sendo a propulsora da indústria, dentro do conceito de tendências. 14

Assim, desde os primórdios a vestimenta e a moda têm funções distintas, “o vestuário contribui para o bem-estar humano no seu aspecto funcional, enquanto a moda o faz no campo emocional” 15 . É justamente esse poder simbólico que a moda representa que exerce tanta força na maior parte dos consumidores contemporâneos. De acordo com a Organização das Nações Unidas, a população mundial é atualmente estimada em 7 bilhões de pessoas 16 , e, conforme Dana Thomas, 80 bilhões 17 de itens de moda são produzidos, vendidos e consumidos por ano em âmbito global.

Esse simbolismo da moda é “oferecido” ao consumidor milhares de vezes todos os dias, seja mediante propagandas na televisão, no rádio, nos outdoors, seja nos meios de comunicação da era digital, como Instagram, Twitter, Facebook, sem contar os milhares de aplicativos que vendem, trocam e alugam roupas. Annie Leonard revela um dado alarmante: “uma criança americana assiste a 110 comerciais de TV por dia. Quando chega aos 20 anos, esse indivíduo foi exposto a quase 1 milhão de mensagens publicitárias” 18 . Além de oferecer novos produtos, criar novas “necessidades”, essa imensa quantidade de publicidade afirma, a todo o momento, que tudo aquilo que já adquirimos já não serve mais.

De acordo com o economista Victor Lebow:

A nossa enorme economia produtiva exige que façamos do consumo nossa forma de vida, que tornemos a compra e uso de bens em rituais, que procuremos a nossa satisfação espiritual, a satisfação de nosso ego, no consumo. Precisamos que as coisas sejam consumidas, destruídas, substituídas e descartadas a um ritmo cada vez maior. 19

A frase, embora tenha sido escrita no ano de 1955, é assustadoramente contemporânea e define muito bem um estilo de vida que foi prontamente adotado e raramente é percebido. Toda a sociedade contemporânea está vivendo sob essas leis, e a adoção da obsolescência programada e da obsolescência percebida potencializa ainda mais essa alta rotatividade do mercado.

Mas e quando foi que nós, seres humanos, “inventamos” a moda, percebemos ela como um fenômeno social? Foi na pré-história, com o uso das peles dos animais que eram caçados? Foi a partir da Primeira Revolução Industrial, no século XVIII, quando a produção deixou de ser estritamente manual e passou a ser desenvolvida a produção mecânica a vapor? Foi com a Revolução Francesa, que ruiu o sistema absolutista após a queda da Bastilha, instituindo uma monarquia constitucional, o que trouxe ideias liberais e iluministas provocando a própria população não somente à ojeriza às formas das vestimentas tradicionais mas também à busca por “novos modelos” 20 ? Foi a partir da Segunda Revolução Industrial, em 1850, quando iniciou a produção em massa, as linhas de montagem e o uso da energia elétrica? Foi a partir da Terceira Revolução Industrial, em 1950, quando foi desenvolvida a produção automatizada utilizando eletrônica e tecnologia da informação? Foi a partir da Quarta Revolução Industrial 21 , que estamos vivendo hoje, com a produção inteligente e temos a incorporação do bigdata?

Respondo-lhe, caro (a) leitor (a): nenhuma das respostas anteriores está correta. Decidimos que a vestimenta seria importante ainda no paraíso. Sim, no paraíso, antes mesmo de constituirmos grupos, sociedades e civilizações, antes de instituirmos a governança, a moeda, as classes sociais, a soberania dos estados, os conceitos morais, ou qualquer outra construção social. Claro que aqui me permito uma licença poética para adentrar no lírico, uma vez que estamos falando de um mercado tão criativo. Mas fato é que a moda faz parte do imaginário da humanidade desde que Adão e Eva fizeram uso das folhas de figueira, após o pecado do homem no Éden, com a intenção de “cobrir-se da nudez que os deixava vulneráveis” 22 . Logo em seguida Deus providenciaria vestimentas “ideais” feitas com o couro da pele dos animais, as quais seriam capazes de protegê-los das intempéries.

Assim, seja por folhas e couro, como Adão e Eva, seja por tecidos naturais e não naturais, como os que temos hoje em dia, é preciso cruzar um longo caminho para constituir o mercado da moda. Além da criatividade, das tendências, da inspiração, da imaginação, “a moda também tem uma relação complexa com sistemas mais abrangentes como economia, ecologia e sociedade” 23 . É justamente pela complexidade dessa relação que foi utilizado o método sistêmico 24 para a produção deste capítulo, pois seria imprudente fazer a análise dessa temática sem perpassar pela tríade – economia, ecologia e sociedade – que será abordada nas próximas páginas.

2.O ciclo de vida de uma peça

Ao iniciar este capítulo, confessei estar vestindo uma camiseta branca de algodão, tu te lembras? Mas tu alguma vez já paraste para pensar como uma simples camiseta é produzida? De onde vem a matéria-prima? Por quantos processos ela passa? Quais são os componentes utilizados, se há processos mecânicos ou de manufatura? Quantos quilômetros são feitos entre a semente e a peça final?

Ao comprar uma peça de roupa, muitas vezes, o que o consumidor leva em consideração é o preço, a marca, a utilidade da peça, o aspecto estético e/ou alguma outra característica que lhe chame a atenção, deixando de perceber que, para que chegasse até suas mãos, essa peça fora objeto de um ciclo de produção longo, impessoal, mecanizado, complexo e que contém uma...

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3 de Dezembro de 2021
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1201075564/9-o-alto-custo-do-preco-baixo-o-real-valor-da-cadeia-produtiva-da-moda-parte-ii-responsabilidade-socioambiental-na-industria-da-moda-fashion-law-ed-2020