Pronto para Partir? Reflexões Jurídico-Filosóficas Sobre a Morte - Ed. 2014

O que é a morte?

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O QUE É A MORTE?

Sumário: 1.1 O sentido da morte – 1.2 A morte e suas abordagens: 1.2.1 A morte na medicina; 1.2.2 A morte na filosofia; 1.2.3 A morte na religião; 1.2.4 A morte na literatura; 1.2.5 A morte na música; 1.2.6 A morte nas artes plásticas; 1.2.7 A morte no cinema; 1.2.8 A morte no direito; 1.2.9 A morte como negócio – 1.2.10 A morte e o humor – 1.3 O mistério da morte: 1.3.1 Vida longa/vida breve; 1.3.2 A morte e a superstição.

Morte é o antônimo de vida. Enquanto há vida, não há morte. Vida é o ciclo vital que tem origem na fecundação e que, se não vier a ser interrompido, desenvolve-se naturalmente até o evento morte. “A essência da vida nos é e será sempre desconhecida. Apenas podemos dizer que ela é esse movimento contínuo, incessante de composição e de decomposição que se passa no interior dos tecidos do ser vivo colocado em um meio conveniente”. 1 Obstado o movimento, sobrevém a morte. Fenômeno que já foi descrito em medicina legal como parada irreversível da circulação e da respiração. 2

Outro conceito singelo poderia ser: morte é ausência de vida. Note-se que toda concepção de morte pressupõe a vida: só morre quem viveu. Inviável conceber-se a morte sem antagonizá-la com a vida.

Os dicionários definem a morte como a cessação definitiva da vida, especialmente a humana, fim da existência de qualquer ser ou ente da natureza. 3 Mera e inevitável interrupção do ciclo vital.

Embora a morte, por sua definitividade, tenha um componente de absoluto, ela costuma ser qualificada. É comum, assim, falar-se em morte aparente, morte legal, morte clínica, morte cerebral, morte natural, morte agônica, morte civil, morte presumida. 4

Os dois enfoques básicos sobre a morte repousam sobre a ciência e sobre a religião. Foi o contato dos primeiros homens com a morte física o seu impulso para investir na ciência e para envolver-se na religião. O ser humano tem a capacidade de se horrorizar com a morte de outra pessoa. Nisso difere dos demais animais. E é um medo distinto daquele temor específico da própria morte. Aqui surge o instinto de autoconservação.

O primeiro sentimento do homem primitivo – e quantos ainda trazemos o primitivismo atávico em pleno terceiro milênio! – é fugir da vista de um cadáver. Os animais irracionais não têm essa reação. Esse componente de horror ainda está na justificativa que muitos oferecem para escapar às cerimônias fúnebres, não entrar em velórios nem em cemitérios.

Edgar Herzog 5 distingue o “horror do incompreensível” do “medo do específico”, salientando que o primeiro é a pioneira experiência humana do “totalmente inacessível”. Os homens nunca decifrarão a incógnita da morte.

Essa descoberta tremenda será administrada mediante o desenvolvimento de uma imagem do mundo com expansão da consciência humana em duas direções: a da religião, que o auxiliará a aceitar a morte e o destino. E a da ciência, que enfrenta os fatos da morte e do destino e tenta controlá-los.

Não há garantia alguma de que essas duas direções se equilibrem. O mais comum é o predomínio de uma tendência em detrimento da outra. Mas ambas estão presentes na consciência humana. Constatação que levou Herzog a afirmar:

Fora ocioso dizer que ambas as tendências operam simultaneamente na psique e exercem influência sobre o comportamento humano: entretanto, o comportamento humano parece sempre levar a um ponto em que uma se diferencia mais claramente e obtém predominância sobre a outra. A segunda tendência (para a defesa contra a morte) sugere uma afirmação do ego em sua adaptação à realidade externa; a primeira (aceitação do destino) sugere uma autossubordinação à realidade interna. Uma conduz, através da magia, à dominação da ordem física por meio da ciência natural, a outra conduz à religião e à percepção do ser”. 6

Ciência e religião devem se completar para que o ser humano, atormentado com a ideia da morte, possa conferir ao período que lhe é reservado viver o máximo de qualidade que sua vontade e suas circunstâncias permitirem.

A única certeza que a ninguém é dado negar, é a de que a morte virá. Pallida mors aequo pulsar pede pauperum tabernas/Regium turres, proclamava Horácio: A pálida morte tanto bate à porta da choupana dos pobres quanto à porta dos palácios dos reis.

É a expressão elucidativa da velha fábula Encontro em Samarra. Um criado defrontou-se com a morte, velha encarquilhada com vestes negras, na praça do mercado e achou que ela o ameaçara. Apavorado, empresta o melhor cavalo de seu amo e foge para Samarra. Curioso, o patrão vai à procura da morte e indaga: “Por que ameaçou o meu criado esta manhã?”. E a morte replica: “Não foi um gesto de ameaça: foi apenas um movimento de surpresa. Fiquei espantada ao ver o seu criado ainda em Bagdá, visto que eu tinha um encontro com ele hoje à noite em Samarra”.

Sobre essa lenda, observa Baudrillard: “Naturalmente, é tentando escapar ao nosso destino que para ele corremos com mais certeza. Naturalmente cada um busca sua própria morte, e os atos falhos são os mais bem sucedidos”. 7 Quer dizer: “A morte não é um destino objetivo mas um encontro marcado. Ela mesma não pode deixar de comparecer, visto que ela é esse encontro marcado, ou seja, a conjunção alusiva de signos e de regras que atuam. A própria morte é apenas um elemento inocente, e isso faz a secreta ironia da narrativa, pela qual se distingue de um apólogo moral ou de uma história vulgar de pulsão de morte, resolvendo-se em nós como uma tirada de espírito, na sublimidade do prazer”. 8

Encontro de convite irrecusável, a morte continua a ser um problema. Considerado o maior da metafísica existencial. Problema ainda irresolúvel. À indagação: Como resolver o problema da morte?, o filósofo Manuel García Morente é honesto ao responder: “Eu não posso, nem de longe, dar aqui uma solução a esse problema da morte. Somente poderia, talvez, indicar alguma vaga consideração acerca do lugar topográfico através do qual teria que ir procurar a solução desse problema, e é a consideração seguinte, feita com a terminologia que já nos é familiar: é que a morte ‘está em’ a vida; é algo que acontece à vida. Por conseguinte, a morte e a vida não constituem dois termos homogêneos, num mesmo plano ontológico, antes a vida está no plano ontológico mais profundo, o primordial, o plano do ente autêntico e primário, enquanto a morte, que é algo que acontece à vida, ‘em’ a vida, está no plano derivado dos entes particulares, das coisas reais, dos objetos ideais e dos valores. Talvez por este lado, por este caminho, refletindo sobre isto, poderiam encontrar-se algumas considerações ontológicas interessantes sobre o problema da morte”. 9

A todo vivente não é estranho o pensar na morte. Ela perpassa a existência inteira de qualquer ser pensante. Fala-se todo o tempo em “na hora da morte”, em “quando eu morrer” e até em “morrer de amor”. Pois “amor e morte, princípio e fim, berço e túmulo, são raiz e origem de todas as ideias humanas”. 10

1.1 O sentido da morte

Para muita gente, a morte não faz nenhum sentido. Mas o pior mesmo é não encontrar sentido para a vida. Aquilo que pode caracterizar o declínio da civilização é a desvinculação entre o domínio humano sobre o conjunto de meios e a absurdidade no plano dos fins. Por isso, “a questão que se propõe a todo homem é a questão do sentido da existência. Paul Ricoeur escreveu: ‘É verdade que aos homens faltam justiça e amor, mas talvez lhes falte, ainda mais, significação’“. 11 É óbvio que para muitos a amizade faz sentido, o amor faz sentido, a luta pela ética e pela justiça faz sentido. Faz sentido batalhar para que o ambiente seja respeitado, a fim de que a vida permaneça por mais algum tempo no planeta. Mas, para tantos, para uma verdadeira legião, a vida parece não fazer sentido algum.

Essa a angústia permanente dos seres pensantes. Quem vai ganhar, a final? O sentido ou o não sentido? “Será o não sentido o vencedor? Será a morte o fim de tudo? E a morte? Será esse o batente contra o qual se choca tudo o que já tem sentido, ou seremos constrangidos a dizer, como Paul Valéry: ‘Tudo vai para baixo da terra e retorna ao jogo’? O jogo da natureza: nossos cadáveres servirão de esterco para os legumes de nossos netos!”. 12

O filósofo Gilberto de Mello Kujawski escreveu o livro O sentido da vida. Transforma-te em quem és, calcado no pensamento de Ortega Y Gasset. O asserto orteguiano “eu sou eu e minha circunstância” levou Kujawski a propor que a busca da felicidade seja encontrar para a “minha circunstância”, para o entorno que envolve o ser humano, a resposta adequada para a realização em plenitude.

Eu sou meu projeto vital, em última análise, minha vocação”, afirma Kujawski, 13 para quem “o problema maior da vida humana é que ela não nos é dada feita. Tenho que fazê-la pelo meu próprio esforço, e tendo sempre em vista minha circunstância”. 14 O projeto que vale a pena para todos os humanos é edificar o conteúdo de sua existência.

Em busca de um sentido para a vida, quantos não levam uma vida completamente sem sentido? Ao defender que a aventura humana tenha de ser programada pelo próprio interessado, num projeto que envolva direção e nexo, vocação e coerência, Kujawski não escapa de enfrentar o tema morte. Observa que “o maior desmentido ao pretenso sentido da vida como direção e nexo, ou vocação e coerência, seria a fatalidade da morte. Se estou destinado a morrer um dia, e a vida termina pela negação de si mesma, que sentido pode ter o esforço de realizar meu projeto, minha vocação, imprimindo nexo a tudo o que eu faço? Se caminho a passos largos para o nada, se o abismo me espera no fim do itinerário, todo meu esforço e tudo o que resulta dele não fica invalidado? A vida não faz sentido, não passa de um frágil castelo de areia a espera de desfazer-se a qualquer hora”. 15

O filósofo invoca a seguir Tolstoi, que em Anna Karienina falou: “Quando você percebe que vai morrer qualquer dia desses e não vai restar nada, tudo se torna insignificante”. Na mesma direção, Shakespeare faz Macbeth clamar: “A vida é um conto narrado por um louco, é uma sombra, algo sem sentido, cheio de som e de fúria”.

Em Heidegger, a morte é um caráter essencial do existir. “A possibilidade iminente da morte é inerente ao existir”. 16 E isso não concerne apenas ao idoso e ao enfermo. “De um moribundo terminal dizemos que ‘está à morte’. Mas de todos nós, em plena saúde, cabe dizer a mesma coisa: se existimos, estamos à morte ao longo de toda nossa existência. A morte, segundo Heidegger, é a possibilidade mais autêntica da existência, da qual ninguém pode fugir. A morte representa a possibilidade da minha impossibilidade, e a impossibilidade das minhas possibilidades... À sombra da morte como possibilidade constitutiva do existir, inscrita no seu próprio âmago, o existir só se compreende como nada”. 17

A partir dessa concepção de morte como ideia que a tudo impregna, poder-se-ia estimular a inércia ou o mergulho na insensatez. Nada faz sentido se a única realidade é a morte. Por que sofrer, por que lutar, se tudo acabará no sepulcro ou na cremação? Não é assim. “As razões da vida são mais fortes do que as razões da morte e prevalecem sobre estas porque a realidade radical é a minha vida. A morte sobrevém no plano da minha vida, e o alcance da minha vida é maior do que a presença da morte. É vivendo que eu encontro a morte como poderia encontrar uma floresta sombria no meio do caminho. Por que a morte seria o fim? Eu não poderia ultrapassá-la e chegar ao outro lado, como atravesso a floresta? A morte é uma lenda construída pela vida, no cenário interno da vida. Mas a vida, que a construiu, é maior do que a lenda”. 18

A morte faz com que a vida possa vir a ser melhor. O sentido da morte é dar sentido à vida. É com a qualidade de vida, e, não, com sua duração, que a humanidade precisa se preocupar. Evidente que o moralmente bom é preferível ao moralmente mau. Só que isso não se altera “se a vida cessar completamente: quando não há vida, é evidente que não há nenhum bem moral como nenhum mal”. 19 A ideia de imortalidade alavanca um avanço moral da personalidade individual. Mas ela não é essencial para uma atitude moral para com a vida, que vale por si mesma. Ela deve ser vivida de forma intensa e com excelência de qualidade.

Mais importante do que viver é conviver. O ser humano nasceu para o convívio. “Uma vez que a pluralidade é uma das condições existenciais básicas da vida humana na Terra - de modo que inter homines esse, estar entre os homens, era, para os romanos, o sinal de estar vivo, ciente da realidade do mundo e do Eu, e inter homines esse desinere, deixar de estar entre os homens, um sinônimo para morrer -, estar sozinho e estabelecer um relacionamento consigo mesmo é a característica mais marcante da vida do espírito”. 20 O primeiro passo para encarar com a naturalidade possível o encontro do qual não se escapará, por mais que se tente, é aceitar-se e estabelecer um bom convívio consigo mesmo. Em seguida, abrir-se para o próximo, para a natureza e para a transcendência ou para aquilo que possa substituí-la. Sem esse caminhar, a morte continuará a ser inaceitável e a vida poderá perder a plenitude de seu significado.

1.2 A morte e suas abordagens

Morte é tema de múltiplas dimensões. Face inversa – ou adversa? – da vida, tudo o que guarda pertinência com a vida também concerne à morte. Mas há campos em que ela está mais presente. Ou mereceu atenção mais detida dos estudiosos. Tais concepções reclamam ao menos uma referência para quem se propõe a responder à indagação inicial. Quem está realmente pronto para partir?

É evidente que a morte interessa a todas as esferas do pensamento. Ao cientista social, por exemplo, incumbirá “abordar a morte enquanto fenômeno ritualizado e interpretado no contexto de determinada mentalidade histórica, descrever as práticas funerárias de uma sociedade numa certa época, explicar o mecanismo segundo o qual a morte organiza a vida dos vivos, sua conexão com a memória coletiva e o senso de passado ancestral etc.”. 21 Sociologia, antropologia e história estudam a morte. “Caberá ao psicólogo, por outro lado, seja qual for sua escola teórica, estudar o luto, a sensação de perda, a depressão e a melancolia, o amadurecimento ou regressão da identidade, o desempenho de novos papéis etc., em decorrência da morte de um ente querido”. 22

Inviável seria, num contexto hábil a propiciar apenas uma reflexão, exaurir todas as áreas suscetíveis de relacionamento com a morte. Algumas delas, contudo, não podem passar imunes a uma análise, ainda que superficial, diante da intimidade que guardam com o tema.

1.2.1 A morte na medicina

A morte é a inimiga. A Medicina, ars curandi, existe para assegurar a vida. E para garantir qualidade de vida.

Uma das sensações que o enfermo tem é a de que o médico não está preocupado com a morte do paciente. Não é raro ele exteriorize constrangimento se o paciente indagar: – “Estou morrendo?”. Esse estranhamento perante a morte é compreensível. No fundo, todo médico sabe que ela vai vencer no final.

Raul Cutait, um dos maiores médicos do Brasil, dá um depoimento franco: “Como cirurgião, luto pela vida desde os tempos de estudante de medicina e confesso que nunca consegui encarar a morte com a frieza que dizem que os médicos têm que ter. Ao contrário, ela sempre me fez refletir sobre o sentido da vida. No meu íntimo, é como se eu quisesse entendê-la, decifrá-la, até mesmo domá-la, talvez num vão exercício de me preparar para a viagem final”. 23

Vive-se um tempo “em que se contempla cada vez mais a morte como uma doença que é preciso curar. As terapias hormonais, a possibilidade de clonar ‘peças de reposição’, as pesquisas sobre a base genética de envelhecimento, tudo isso aponta para a possibilidade de que a duração da vida humana possa ser prolongada por muito tempo, talvez indefinidamente”. 24

Todavia, a morte é inevitável. Por isso a medicina é uma atividade de meio, não de resultado. O profissional da saúde se propõe a oferecer o máximo de seu conhecimento, de seu desempenho, esforço e talento para curar o enfermo. Não pode prometer êxito ao final do trabalho. A única exceção ainda considerada é a cirurgia plástica, uma atividade que promete um resultado e que pode responsabilizar o facultativo se o contratante não ficar satisfeito com o resultado. O conceito de morte se modifica ao longo dos tempos. O morrer era simplesmente deixar de respirar e o coração de bater. Isso ficou muito trivial e insuficiente. A ciência resolveu encarar a complexidade do tema. E tem motivos para isso. A primeira ideia é a de que o conceito âncora não é mais a imobilidade, mas é a chamada morte encefálica. Esta não é comprovada apenas pelo médico que acompanha o paciente, mas por uma junta. Exames médicos são exigidos, como o eletroencefalograma, que não mais registrará atividades cerebrais, além de exames neurológicos. A morte encefálica passa a ser considerada o parâmetro confiável, a partir do protocolo de Harvard e tem uma utilidade. Propicia a eficiência do transplante de órgãos. A pessoa ainda tem atividade biológica, mas não encefálica. Por conta disso, mantidas artificialmente estas atividades, permite-se a realização do transplante.

Na chamada pré-modernidade, havia certa consciência dos limites da medicina ante a morte. A modernidade trouxe novos estilos de praticar a ciência médica e outra atitude para a medicina perante a morte. “O sofrimento no fim da vida é um dos grandes desafios, que assume novos contornos (...) diante da medicalização da morte e do poder que as novas tecnologias dão à profissão médica para abreviar ou prolongar o processo de morrer”. 25 Algo muito questionado em nossos dias é a carga terapêutica jogada sobre o paciente com vistas a prolongar sua vida. Ainda que seja uma vida em contínuo sofrimento. Mas tudo condicionado à consistência pecuniária da família ou da magnanimidade dos seus planos de saúde.

Prolongar a vida não significa permitir que o enfermo chegue à morte mais tranquilo. Recente estatística francesa apurou que mais de 75% das mortes ocorre em ambiente hospitalar. No Brasil, mesmo com a carência hospitalar e a fragilidade do sistema de saúde, a morte também é propriedade da medicina. Passa a ser um ato solitário: o paciente e as máquinas. Ninguém mais. Longe do calor humano e familiar. Sozinho e isolado.

Em que momento o médico fala: vamos parar de fazer pressão em favor da vida inviável? Deixemos que a morte atue. 26 O assunto é cada vez mais frequente em todo o mundo e no Brasil ganhou intensidade quando o Conselho Federal de Medicina acena com a implementação do testamento vital. É o documento que registra a vontade do paciente em relação à assistência médica em caso de doença incurável. Na verdade, a denominação é incorreta. Testamento se reserva para disposição de última vontade, a ser observada após a morte. De qualquer forma, há quem afirme que não é necessário normatizar essa possibilidade, extraível do sistema constitucional à luz do princípio da dignidade da pessoa humana.

Portugal entende que é preciso legislar a respeito do testamento vital 27 e acredita-se que ele precisa abranger os casos terminais, inclusive as demências. Laura Ferreira dos Santos, doutora pela Universidade do Minho e membro da Comissão de Ética para a Saúde lançou o livro Testamento vital – O que é? Como elaborá-lo? e sustenta que a legislação deva inclusive abranger as situações de demência. É a orientação da Declaração Antecipada de Vontade, emitida pelo Consellho Nacional de Ética para Ciências da Vida em 17.12.2010. 28 O parecer reconhece a conveniência em regular a forma como os cidadãos, maiores de idade e na plena capacidade de seus direitos, podem declarar a sua vontade no que se refere a tratamentos e outros procedimentos relacionados com a sua saúde. Dessa forma, se perderem a capacidade para exprimir sua vontade, esta pode ser reconhecida tal como anteriormente a expressaram. As demências são doenças irreversíveis e, em fase avançada, exigem critérios de cuidado paliativo. Na prática, o Conselho de Ética Português defende a existência de um registro nacional das declarações antecipadas de vontade, no qual a pessoa indique um representante que seja seu Procurador de Cuidados de Saúde. O documento deve ser atualizado de cinco em cinco anos e pode ser sempre revogado. Por objeção de consciência, técnicos de saúde podem se recusar a cumpri-lo.

Deixar morrer é matar?”, indaga o juiz paulista José Henrique Rodrigues Torres, 29 que abordou a Res. 1.805/2006 do Conselho Federal de Medicina, a dispor que “é permitido ao médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente, em fase terminal, de enfermidade grave e incurável, respeitada a vontade da pessoa ou de seu representante legal”. Considera inexistir o dever absoluto de os médicos lutarem contra a morte, de forma obstinada e sem limites, em quaisquer circunstâncias. “A morte não é o resultado do fracasso da medicina e da ciência. A obstinação terapêutica não pode ser justificada pela onipotência daqueles que acreditam ser possível vencer a morte ou que praticam uma medicina defensiva, adotando recursos inúteis com o objetivo de fazer prova de uma boa atuação profissional, diante do infundado temor da responsabilização civil ou criminal”. 30 Para o magistrado, esse o grande desafio para os médicos: “admitir a impotência da medicina diante da inexorabilidade da morte e, assim, saber conduzir os doentes terminais, como Caronte, até o mundo dos mortos, cuidando deles, com resignação e com respeito à sua dignidade humana, certos de que não estarão praticando nenhuma conduta ilícita, e muito menos criminosa, ao suspender tratamentos inúteis e gravosos, nos exatos termos da Res. 1.805/2006 do CFM”. 31

Sob essa rubrica acolhem-se também os temas da eutanásia, da distanásia, da ortotanásia e da mistanásia. 32

A eutanásia pretende ser a morte boa, suave, indolor. Por eutanásia se entende “a ação médica intencional de apressar ou provocar a morte – com exclusiva finalidade benevolente – de pessoa que se encontre em situação considerada irreversível e incurável, consoante os padrões médicos vigentes, e que padeça de intensos sofrimentos físicos e psíquicos”. 33 Distingue-se a eutanásia conforme a voluntariedade do enfermo. Ela pode ser voluntária, se há expresso e informado consentimento, não voluntária, se realizada sem o conhecimento ou a vontade do paciente e involuntária, se praticada contra a vontade do paciente.

A distanásia é o emprego da tecnologia médica para prolongar o processo agônico. Cuida-se da “tentativa de retardar a morte o máximo possível, empregando, para isso, todos os meios médicos ordinários e extraordinários ao alcance, proporcionais ou não, mesmo que isso signifique causar dores e padecimentos a uma pessoa cuja morte é iminente e inevitável”. 34 Na concepção de Leo Passini, é a estratégia pela qual “não se prolonga a vida propriamente dita, mas o processo de morrer”. 35 Há quem considere distanásia verbete sinônimo de obstinação terapêutica e tratamento fútil. A obstinação terapêutica é o combate renhido e predestinado à derrota contra a morte. O tratamento fútil é assim considerado o incapaz de reverter o quadro terminal, propiciado pelo emprego de técnicas e métodos extraordinários e desproporcionais, insuficientes para produzir a cura. Muitas vezes essa alternativa é ditada pela família, que insiste em prolongar o sofrimento do ser querido e não se conforma com a sua inevitável partida.

A ortotanásia, hoje admitida pelo atual Código de Ética da Medicina, permite ao doente que já se encontra na fase final de sua enfermidade e àqueles que o cercam, enfrentar seu destino com tranquilidade. Para Letícia Martel, é a “morte em seu tempo adequado, não combatida com os métodos extraordinários e desproporcionais utilizados na distanásia, nem apressada por ação intencional externa, como na eutanásia. Liga-se a uma aceitação da morte, pois se permite que ela siga seu curso”. 36 Ortotanásia 37 permite ao terminal morrer em paz, cercado de amor e carinho, enquanto se prepara rumo ao mergulho final. Significa não prolongar, quando a cura é inviável, o sofrimento do enfermo, desde que ele possa manifestar a sua vontade ou alguém o faça em seu nome. Nem sempre o prolongamento forçado de uma situação vital distante da dignidade é a melhor solução. “A sobrevida permanente em um hospital não pode ser confundida com o uso de recursos médicos para a recuperação da saúde. A sentença de confinamento hospitalar não é uma opção de tratamento, mas um estado permanente de isolamento que impede a morte. Cada pessoa, na intimidade de suas escolhas e convicções, passa a reclamar o direito de morrer como uma extensão de sua forma de estar no mundo. A morte torna-se um processo pensado e planejado, por isso crescem iniciativas de formalização de testamentos vitais”. 38

Menos conhecida é a mistanásia, ou eutanásia social. É a morte miserável fora e antes do seu tempo. Leonard M. Martin prefere usar o verbete mistanásia, por acreditar inadequada a expressão eutanásia social. “A eutanásia, tanto em sua origem etimológica (boa morte) como em sua intenção, quer ser um ato de misericórdia, quer propiciar ao doente que está sofrendo uma morte boa, suave e indolor. As situações a que se referem os termos eutanásia social e mistanásia, porém, não têm nada de boas, suaves nem indolores”. 39 A mistanásia ocorre em relação a doentes e deficientes que não chegam a ser pacientes. Reveste a forma de omissão de socorro estrutural que atinge milhões de doentes durante sua vida toda e não apenas nas fases terminais da enfermidade. “Mistanásia por omissão é, sem dúvida, a forma de mistanásia mais espalhada no chamado Terceiro Mundo”. 40 Há mistanásia em pacientes vítimas de erro médico, em pacientes vítimas de má prática, tal a perpetrada contra idosos internados em hospitais ou hospícios em que não se oferecem alimentação ou tratamento adequado. Isso ocasiona morte precoce, miserável e sem dignidade. Também ocorre quando profissionais da saúde se propõem assumir o papel de “anjos da morte” e apressam o óbito dos pacientes. E também pode revestir a forma cruel de se retirar órgão vital para transplante antes do doador haver morrido.

Embora o tema guarde pertinência maior com os seus aspectos jurídicos, o aborto é também uma forma de se condenar à morte aquele que ainda não nasceu. Tema emocional e sempre invocado como problema de saúde pública, abordá-lo “implica, principalmente, encadear o dilema da morte e, principalmente, da morte de um indefeso; poder-se-ia dizer que é com essa crença que todas as religiões fundamentam sua luta em favor da vida. Mas não se pode deixar de considerar que esta também é a postura dos verdadeiros profissionais da saúde que ainda não jogaram fora seus respectivos códigos de ética ou seus próprios princípios morais; (...) ou é permitido ao médico matar?”. 41 Mesmo a anencefalia, 42 falha no processo de formação do embrião, justificaria a prática do abortamento. Embora admitindo a dificuldade de se abordar a questão, quase sempre exposta com elevada coloração emotiva, é de se concluir que “eliminar intencionalmente o feto, porque uma dada afecção implica, inexoravelmente, em brevidade de vida extrauterina, não se coaduna com os princípios mais elementares da Medicina, entrando no escopo do chamado aborto eugênico, que não encontra respaldo legal em nosso meio”. 43

A proteção à vida, o inverso da morte, impõe também a tutela do embrião, que não pode ser morto ou descartado, o que equivale a condená-lo à morte. A embriologia não difere da ciência jurídica, a proteger a vida como pressuposto à fruição de qualquer direito. Tanto que a expressão direito fundamental pode ser utilizada de maneira intercambiável com bem da vida.

A psiquiatria é outra alternativa médica para se trabalhar com a morte. De certa forma, ela e a psicanálise 44 substituíram a Igreja e sua simbologia para atuar na mediação em face da experiência personalíssima da morte. Para muitos, “a morte se tornou, cada vez mais, um fenômeno puramente físico, que se verifica num hospital e é tratado antisseticamente por estranhos de uniformes engomados”. 45 Já se recorre com frequência à psicanálise ou psiquiatria para confortar o enfermo e sua família. A tanto contribuiu o pensamento de Carl Jung, para quem a maneira natural de abordar a morte é viver a vida plenamente.

Na visão junguiana a melhor maneira de se preparar para uma longa jornada, de duração infindável e rumo a uma terra desconhecida seria, provavelmente, livrar-se de toda bagagem desnecessária. Seria essencial examinar os pertences e escolher apenas os essenciais ao bem-estar espiritual e físico, abandonando o resto.

Todos, de certa forma, sabem estar diante de múltiplas oportunidades de fazer essa escolha. Quem se apega em demasia a bens materiais ou não sabe o que é essencial em sua vida pode até acabar com esta e se defrontar, mais cedo do que o esperado, com a morte física. É a advertência de Jung: “Se a demanda do autoconhecimento for desejada pelo destino e recusada, essa atitude negativa pode acabar em morte verdadeira. A demanda não teria chegado à pessoa se esta ainda fosse capaz de guiar para algum atalho promissor. Mas ela está presa num beco sem saída, do qual somente o autoconhecimento poderá arrancá-la”. 46

Questão ainda em aberto e que incumbe à medicina definir é o do momento exato da morte. Ela ocorre quando a pessoa para de respirar, o coração para de bater ou o eletrocardiograma já não mostra ondas cerebrais? A medicina fala em morte cerebral e em morte cortical. A primeira consiste em ausência de atividade elétrica cerebral, ausência de atividade metabólica e ausência de perfusão, ou circulação sanguínea cerebral. A fixação desse momento é convencional, senão arbitrária. Dela provirão consequências muito graves: o momento em que os órgãos podem ser extraídos para transplante ou a economia nas UTIs se houver liberação antecipada dos doentes terminais.

A morte cortical é a perda irreversível da consciência. Esta conceituação permite se considerem mortos os sujeitos em estado de coma vegetativo persistente. Os principais critérios para esse diagnóstico são: “1. Nenhuma evidência de consciência de si mesmo ou do ambiente; 2. nenhuma comunicação, verbal, escrita ou gestual, que seja significativa e consistente entre examinador e paciente. Estímulos, em geral, não acompanhados visualmente. Nenhuma resposta emocional aos estímulos verbais; 3. ausência de fala compreensível ou vocalização de palavras; 4. sorriso, franzido do cenho ou choro relacionados, de modo inconsistente, com qualquer estímulo aparente; 5. ciclo sono – vigília presente; 6. reflexos do tronco cerebral presentes como sucção, mastigação, deglutição, reatividade das pupilas à luz; 7. ausência de movimento ou comportamento voluntário, nenhuma atividade motora sugestiva de um comportamento aprendido, ausência de mímica; 8. integridade no controle da pressão arterial e função cardiorrespiratória. Incontinência urinária e fecal”. 47

No centro do debate o velho duelo entre a ética e a economia tangida pelo pragmatismo. Há de se conferir extrema cautela a tal assunto, sabendo-se que a lex mercatoria é a que preside as relações de consumo. E no mundo massificado da matéria, tudo é consumo: vida e morte. A falta de órgãos no mercado não pode estimular a flexibilização do conceito de morte. “No estágio atual do conhecimento, mesmo entendendo os princípios utilitaristas e altruístas (dar a vida ao outro através do transplante de órgãos), não é possível termos a certeza absoluta de morte no estado vegetativo persistente”. 48

A ética precisa estar no centro do discurso sobre a morte e suas inúmeras repercussões. Não se pode enfrentar a maior parte de tais temas, dissociando-os “do quadro da ‘cultura da morte’ que nos rodeia, em que o pragmatismo produtivista e o hedonismo dos que estão no auge da força se combinam tacitamente na eliminação dos elementos que não servem já para fazer funcionar o ciclo de produção e consumo”. 49

Inegável, apenas, é que o índice de qualidade de morte, que avalia o conforto que as nações oferecem a doentes terminais, não honra o Brasil. Nosso país é o terceiro pior lugar para se morrer, de acordo com a pesquisa feita pela unidade de inteligência da Revista The Economist. Quatro categorias de indicadores são utilizados para elaborar o ranking: ambiente básico de cuidados paliativos, acesso a cuidados paliativos, custo e qualidade desses cuidados. Por cuidados paliativos se entendem as medidas tomadas quando já não é possível curar ou estender a vida do paciente. Entre os 40 países analisados, o Brasil só está à frente de Uganda e Índia. Os cinco primeiros são o Reino Unido, a Austrália, Nova Zelândia, Irlanda e Bélgica.

Controlar a dor e conferir conforto físico e psicológico são as preocupações da medicina paliativa, para a qual o médico brasileiro – em regra – não está preparado. 50 O combate à dor deve ser pertinaz e eficiente. 51 Regra humanitária e em adequada consonância com a opção do constituinte de 1988: erigir a dignidade da pessoa humana em supraprincípio norteador de todas as condutas individuais e coletivas na República do Brasil.

Não que a mera invocação à dignidade da pessoa humana possua o dom de eliminar todos os dilemas desse tão complexo assunto. Embora seja conceito aberto e não se pretenda fechá-lo, é mister prudência ao se servir dele para legitimar atitudes dramáticas em relação ao término da vida. Na visão de Suzan Mills, “parece que a elasticidade do discurso da dignidade, com a sua capacidade de conduzir a diversas direções, significa que ele pode ser invocado por todos os protagonistas (os idosos e dependentes, suas famílias, a equipe médica, o Estado) para justificar todos os resultados (preservar a vida ou buscar a morte). Sua natureza dúplice, por consequência, quando combinada com os argumentos e contra-argumentos que impregnam o discurso dos direitos, parece, em última análise, minar a causa daqueles que tentam usá-la para assegurar seu direito de morrer com dignidade”. 52

Ocorre com a dignidade da pessoa humana aquilo que já acontece com inúmeros outros conceitos. A frequência com que utilizado, suas múltiplas dimensões, seus vários componentes e elementos, tudo pode servir para acarretar mais dúvidas do que certezas. Seria suficiente lembrar as vertentes de autonomia e heteronomia que o conceito pode revestir. E se verá que é insuficiente mencionar o princípio para solucionar as dúvidas postas pelo desafio de se prolongar a vida de alguém que sofre ou permitir que a morte sobrevenha.

1.2.1.1 A morte na psicanálise

A psicanálise foi uma religião para Freud. Nem por isso ela administrou bem o problema da morte até por volta de 1930. “O homem moderno está condenado a procurar o significado de sua vida na introspecção psicológica, e por isso o seu novo confessor tem de ser a autoridade suprema em introspecção – o psicanalista. Como é isso o que acontece, o ‘além’ do paciente fica limitado ao divã analítico e à visão do mundo ali transmitida”. 53 Por isso é que a psicanálise pode empobrecer a vida emocional do paciente. Nem tudo é clinicamente explicável. Se a criatura fica privada do “absoluto mistério de que precisa, e a única coisa onipotente que então resta é o homem que explica tudo, (...) o paciente se apega ao analista com toda a sua força e tem pavor de dar a análise por encerrada”. 54 Mas não é disso que se trata aqui. Como é que a psicanálise pode auxiliar a encarar a morte?

Na verdade, a psicanálise é atividade confiada tanto a médicos – psiquiatras – como a psicólogos. Existe a psicologia médica, o conjunto de conhecimentos na relação médico-paciente, que pode ser útil quando o ser humano estiver próximo à despedida. A morte é considerada uma das cinco catástrofes do eu, juntamente com a solidão, a doença, o fechamento e a loucura. Procura-se não pensar na morte porque esta representa “a ameaça real de desaparecimento”. 55 Um diagnóstico de câncer, por exemplo, “conecta a pessoa com o término de sua vida. O núcleo do eu (o si mesmo, o self) sente-se ameaçado de dissolução. Nesse momento, a pessoa perde seu futuro”. 56

A medicina da mente se propõe a auxiliar o trato com a morte. Pessoas que se desarvoram ante a partida de alguém querido dela se servem para reencontrar o prumo. Existe ainda a psicanálise como auxílio ao enfermo terminal e aos que trabalham com ele. Não é missão facilitada servir àquele a quem a vida já fez chegar o aviso prévio.

A sociedade contemporânea, ao menos para certos extratos, já tem consciência de sua vida inconsciente. As explicações psicanalísticas integram a nossa cultura. Pode-se mesmo afirmar que a sacralização de textos freudianos, lidos como verdadeiro Evangelho, tenderiam a impedir o avanço científico. Atitude que se distancia do que o próprio Freud propunha, ou seja, considerar sua obra como ponto de partida para continuar a investigar o inconsciente. Seja como for, é impensável falar-se em psicanálise sem invocar o nome de Freud.

Freud se preocupou com a morte e com a atitude dos homens em relação a ela. Constata uma perturbação na atitude adotada pelo ser humano quando se trata de meditar sobre ou de enfrentar a morte.

Aqui também, como ocorre em tantos outros campos, o discurso é um, a realidade é outra. Pois “a qualquer um que nos desse ouvidos nos mostrávamos, naturalmente, preparados para sustentar que a morte era o resultado necessário da vida, que cada um deve à natureza uma morte e deve esperar pagar a dívida – em suma, que a morte era natural, inegável e inevitável. Na realidade, contudo, estávamos habituados a nos comportar como se fosse diferente. Revelávamos uma tendência inegável para por a morte de lado, para eliminá-la da vida.Tentávamos silenciá-la”. 57

E por que isso acontece? Por ser impossível imaginar a própria morte. Ainda que se tente visualizar, a postura é sempre de um espectador. “Por isso, a escola psicanalítica pode aventurar-se a afirmar que no fundo ninguém crê em sua própria morte, ou, dizendo a mesma coisa de outra maneira, que no inconsciente cada um de nós está convencido de sua própria imortalidade”. 58

Se a própria morte é insuscetível de cogitação, a morte das pessoas amadas também se procura banir da consciência. O que não impede que ela venha a ocorrer. Quando isso acontece, verifica-se um completo colapso. “Nossas esperanças, nossos desejos e nossos prazeres jazem no túmulo com essa pessoa, nada nos consola, nada preenche o vazio deixado pelo ente perdido”. 59 Não é falaciosa a afirmação do sobrevivente nesse momento: Eu queria estar junto! Eu preferia ter morrido em lugar do ser que partiu. E essa atitude para com a morte de quem, a nossos olhos, não podia morrer, vai exercer um poderoso efeito sobre nossas vidas. “A vida empobrece, perde em interesse, quando a mais alta aposta no jogo da vida, a própria vida, não pode ser arriscada”. 60 É frequente a preocupação do pai que perdeu um filho, apavorar-se diante de uma situação de perigo que ponha em risco a vida do descendente que sobreviveu. A tendência de excluir a morte dos nossos projetos de vida implica renúncias e exclusões.

Nem sempre foi assim. No discurso, costuma-se “afirmar que a morte era o desenlace necessário de toda a vida, que cada um de nós estava em dívida de morte para com a Natureza e deveria estar preparado para pagar tal dívida, em suma, que a morte era natural, indiscutível e inevitável”. 61 Na prática, há uma tendência a prescindir da morte, para eliminá-la das cogitações. “Esta atitude convencional da nossa civilização perante a morte é complementada pelo nosso total colapso quando a morte feriu uma pessoa que nos é muito chegada, o pai ou a mãe, o esposo ou a esposa, um filho, um irmão ou um amigo querido. Enterramos com ele as nossas esperanças, as nossas aspirações e os nossos gozos, não queremos consolar-nos e recusamo-nos a toda a substituição do ente perdido”. 62 Freud cita os “Asras”, que morrem quando morrem os que eles amam. 63

A única hipótese de consolo, diz Freud, é procurar compensação no mundo ficcional da literatura, do teatro, do cinema ou da televisão, para o que se perdeu na vida. É na ficção que ocorre a reconciliação com a morte. Pois nela e em seu domínio “encontramos a pluralidade de vidas de que necessitamos. Morremos com o herói com o qual nos identificamos; contudo, sobrevivemos a ele, e estamos prontos a morrer novamente, desde que com a mesma segurança, com outro herói”. 64 Estes seres da mente não morrem e, portanto, as personagens literárias são superiores aos mortais de carne e osso. Vivem mais intensamente, não mudam e não morrem.

Essa conotação está, por exemplo, na obra de Byron, que chamou seu alter ego, Childe Harold, de “um ser mais intenso”, algo para contrastar com sua própria nulidade. A personagem literária é destinada a durar mais do que as obras temporais e do que todo e qualquer humano. “Seres de barro, essencialmente não livres, têm corações que murcham e morrem; seres da mente nos reconciliam com as nossas limitações mantendo em vista nossos ideais de mais vida e de uma vida mais intensa. Por um paradoxo intrigante, os seres da mente têm sua imortalidade sublinhada pela morte, preferivelmente de uma maneira espetacular. Morrer em canção ou em narrativa não deixa ninguém morto, e personagens que cortejam a morte representam uma inversão irônica da situação que pertence à realidade cotidiana, em que a mutabilidade e a morte nos cortejam”. 65

Quem já prestou atenção na catarse coletiva que a morte “de mentira” de um personagem de novela pode causar? A indagação “Quem matou Odete Roitman?” ainda ecoa na cultura popular. 66 Verdade que algumas vezes a realidade da morte pode também emocionar multidões. Morte real de mitos podem ocasionar verdadeiro cataclismo. Um dos últimos exemplos que o Brasil vivenciou foi a morte de Ayrton Senna, em maio de 1994. Nove anos antes, o País sepultava Tancredo Neves e milhões de brasileiros foram às ruas num forte espetáculo de emoção coletiva. A diferença entre os episódios é que a primeira morte é logo suplantada pela substituição do modelo. Nas duas últimas, não houve refil. Não se verificou a sucessão do paradigma e a dor é mais intensa e duradoura. As sepulturas de Ayrton Senna, de Elis Regina e de Tancredo Neves ainda recebem milhares de visitantes a cada ano. O espetáculo do enterro de Getúlio Vargas e de Carmem Miranda, em meados do século passado, também pode ser citado como espontânea manifestação de comoção popular. 67 Não se consegue motivar milhares de pessoas para outras causas como o espontâneo comparecimento à última viagem de alguém que já em vida alcançara fama e representava um arquétipo.

Com a finalidade de melhor compreender o fenômeno da morte, Freud propõe uma reflexão sobre a relação humana com ela estabelecida em dois momentos. Aquele vivenciado pelos homens primevos, pré-históricos e a relação que ainda mantém com a morte cada homem contemporâneo. Relação intensa, “mas que se oculta, invisível à consciência, nas camadas mais profundas de nossa vida mental”. 68

Para a criatura humana pré-histórica, a morte era fato grave, sério e, ao mesmo tempo, ignorado. Muito distinta a consideração devotada à morte alheia e à própria. À primeira, não opunha objeção alguma. Tanto que aniquilava o inimigo. Era um ser impulsivo, mais cruel e maligno do que outros animais. Tinha prazer em matar e isso era coisa natural. O homem nunca evidenciou o instinto constatável em outros animais, que os impede de matar e devorar a própria espécie.

Freud vê na história da humanidade uma sequência de assassinatos. Mas a própria morte era tão irreal e inimaginável como continua a ser para cada um de nós. Ela só se apresentava mais íntima no momento em que o primitivo perdia filho ou cônjuge. Aí ele sentia que a morte poderia também atingi-lo. “Os filósofos declararam que o enigma intelectual apresentado ao homem primevo pelo quadro da morte forçou-o à reflexão, tornando-se assim o ponto de partida de toda especulação”. 69

É deste ponto que parte a explicação freudiana para o fenômeno religioso. O homem primitivo exultou diante do corpo do inimigo morto, sem cogitar sobre o enigma da vida e da morte. Mas sofreu diante do corpo do ser amado colhido pela morte. “A psicologia foi o primeiro rebento desse conflito de sentimento”. 70 Ele já não podia simplesmente ignorar a morte, porque ela chegara muito próxima, ao vitimar o ser amado. Mas ainda estava suficientemente longe para não senti-la como fenômeno pessoal. Foi ao lado do cadáver do ser querido que ele inventou os espíritos. “As modificações (físicas) acarretadas pela morte lhe sugeriram a divisão do indivíduo em corpo e alma – originalmente várias almas. Dessa maneira, seu encadeamento de pensamento corria paralelo ao processo de desintegração que sobrevém com a morte. Sua persistente lembrança dos mortos tornou-se a base para a suposição de outras formas de existência, fornecendo-lhe a concepção de uma vida que continua após a morte aparente”. 71

Com o tempo, a vida futura foi representada como a mais desejável, a única verdadeiramente válida. A vida que termina com a morte foi considerada mera preparação. Com isso, passou-se a retirar da morte o significado de término da vida.

Só a partir da contemplação do corpo amado inerte foi que surgiu o mandamento ético Não matarás! E Freud arremata a dizer que as almas piedosas, à luz do pensamento idílico de Rousseau, gostariam de continuar a acreditar que a natureza humana é boa e generosa. Estaria distanciada de qualquer contato com o mau e degradante. Por isso é que o Não matarás significa, para os otimistas, a preponderância desses bons sentimentos.

Não é essa a realidade. Ao contrário, Hobbes é que estava provido de boas razões ao afirmar que o homem é o lobo do homem. Por que foi necessário dizer Não matarás? “Uma proibição tão poderosa só pode ser dirigida contra um impulso igualmente poderoso. O que nenhuma alma humana deseja não precisa de proibição, é excluído automaticamente”. 72

O Não matarás é emitido com muita ênfase. O que sinaliza que a humanidade é uma série interminável de gerações de homicidas, movidas com sede de matar. Sede que ainda não conseguiu aplacar. “Os esforços éticos da humanidade, cuja força e significância não precisamos absolutamente depreciar, foram adquiridos no curso da história do homem; desde então se tornaram, embora infelizmente apenas em grau variável, o patrimônio herdado pelos homens contemporâneos”. 73

Mas cumpre voltar ao exercício proposto por Freud. Examinada a postura do homem primitivo, qual a atitude do homem contemporâneo em relação à morte?

Na visão de Freud, “a resposta dever ser: quase exatamente a mesma que a do homem primevo. Nesse ponto, como em muitos outros, o homem das épocas pré-históricas sobrevive inalterado em nosso inconsciente. Nosso inconsciente, portanto, não crê em sua própria morte; comporta-se como se fosse imortal”. 74

Fenômeno perfeitamente explicável à luz da ciência. O que se denomina inconsciente e que está nas camadas mais profundas de nossas mentes, compostas de impulsos instintivos, desconhece aquilo que é negativo. Não poderia ser diferente em relação à morte, que não é senão a negação da vida.

Essa negação torna mais compreensível o heroísmo e os riscos a que as pessoas se submetem. Na verdade, estão a afirmar: Nada me acontecerá! Isso não pode ocorrer comigo! Eu não vou morrer!

A blindagem com que o ser humano recobre o eu não protege a vida alheia. A morte de estranhos e de inimigos é aceita com naturalidade. Inconscientemente, o ser humano está sempre a desejar a morte do outro. Se o “inconsciente não executa o ato de matar, ele simplesmente o pensa e o deseja... Em nossos impulsos inconscientes, diariamente e a todas as horas, nos livramos de alguém que nos atrapalha, de alguém que nos ofendeu ou nos prejudicou”. 75

Na corrida competitiva em que as pessoas estão mergulhadas, é normal querer que alguém saia da frente e torne o caminho mais fácil até à consecução dos objetivos propostos. Se a execução do assassinato não é a regra, a não ser para alguns primatas que se consideram acima do bem e do mal, o desejo inconsciente equivale ao móvel homicida. Os pensamentos não expressos indicam a viabilidade de plena aceitação do desaparecimento de alguém cuja presença nos molesta. Freud escolheu um exemplo de literato que não foi influenciado pela psicanálise, mas que detectou, com sensibilidade e intuição, o que se passa na mente humana:

Em Le Père Goriot, Balzac faz alusão a um trecho das obras de J. J. Rousseau, onde o escritor pergunta ao leitor o que ele faria se – sem deixar Paris e, obviamente, sem ser descoberto – pudesse matar, com grande lucro para si, um velho mandarim em Pequim por um mero ato de vontade. Rousseau dá a entender que não daria grande coisa pela vida daquele dignitário – Tuer son mandarin – tornou-se uma frase proverbial para essa disposição secreta, presente inclusive no homem moderno”. 76

Muitas tiradas de humor também confirmam essa tendência. Como aquela, lembrada por Freud, que atribui a um marido a frase: “– Se um de nós dois morrer, eu me mudarei para Paris. Ou a ironia de Ferreira Gullar: “Cedo ou tarde, tanto os mais velhos quanto os mais jovens, irão todos dormir para sempre. Não há exceção, nem mesmo para os políticos, habituados a privilégios: terão de deixar a cena também, o que é certamente auspicioso para o futuro do país”. 77 É o que diziam os romanos, ridendo castigat mores. Até mesmo na brincadeira se diz a verdade.

O desejo de morte inconsciente é uma realidade na mente de muitas pessoas. A entrega dos jovens à droga faz com que alguns pais profiram, repetidamente, que preferiam ver os filhos mortos. O mesmo acontece com a rebeldia a que as gerações antecedentes resistem e que tanto transtorno causam aos ascendentes. Quando ocorre a morte desses filhos ou netos, a psicanálise vai enfrentar autorrecriminações patológicas de parte dos familiares sobreviventes.

A psicanálise já chocou ao asseverar a paradoxal posição do inconsciente em relação à morte. Ignorar e banir a própria morte, aceitar sem estranhamento a morte alheia e a ambiguidade que impregna a morte das pessoas queridas. A um tempo sente-se a morte próxima, por outro, esse desaparecimento pode ter sido até inconscientemente desejado. Se há um lampejo de consciência, o remorso mortifica o sobrevivente.

Nem por isso se deve desacreditar da psicanálise. “O leigo sente um horror extraordinário diante da possibilidade de tais sentimentos e toma essa aversão como legítimo fundamento para descrer das asserções da psicanálise. Erroneamente, penso eu. Não se pretende aqui uma depreciação dos sentimentos de amor, depreciação que de fato não existe. Realmente, é estranho tanto à nossa inteligência quanto a nossos sentimentos aliar assim o amor ao ódio; mas a Natureza, fazendo uso desse par de opostos, consegue manter o amor sempre vigilante e renovado, a fim de protegê-lo contra o ódio que jaz, à espreita, por detrás dele. Poder-se-ia dizer que devemos as mais belas florações de nosso amor à reação contra o impulso hostil que sentimos dentro de nós”. 78

Lição de humildade a se extrair dessa constatação. Não evoluímos tanto desde a pré-história. Nosso inconsciente, tão impermeável à ideia de nossa própria morte, tão predisposto a assassinar estranhos e tão ambivalente em relação aos que amamos, é o mesmo que sempre habitou o ser humano. Somos os mesmos animais primitivos, atormentados pelas mesmas angústias e premidos pelos medos idênticos. Dos quais o medo da morte não é o menor, nem o menos relevante.

São inúmeras as orientações para o trato das questões humanas à luz da psicologia e da psicanálise. O psicólogo americano Steven Hayes, que lançou o livro Saia de sua mente e entre em sua vida, propõe o abandono da psicologia cognitiva, baseada em afastar da consciência os pensamentos negativos. Para ele, é bom aceitar a dor e o sofrimento como parte essencial da vida. De pouco adianta rechear a existência com episódios efêmeros de bem-estar: sair com os amigos, beber, flertar, assistir a um show, a um jogo, a um espetáculo qualquer. A satisfação momentânea não eliminará o dia seguinte. Os problemas continuarão lá.

Sofrer é inevitável: “Todos sabemos que um dia vamos morrer, todos nos lembramos da perda de um amigo querido, de algum erro que cometemos, de dramas, traições ou doenças. A diferença entre o homem e outras criaturas está na capacidade que ele tem de usar suas habilidades cognitivas para remoer os erros e infortúnios do passado e temer as incertezas do futuro. Por isso o normal é sentir dor e sofrer”. 79 Não é o discurso predominante na sociedade contemporânea, cada vez mais submetida ao princípio do gozar infinitamente, sem interrupção e com intensidade crescente. Sociedade que é capaz de fazer da própria morte um espetáculo.

Paulo Bomfim reproduziu em sua linguagem poética, embora em prosa, a cena em que Galalau, famoso outsider da São Paulo da primeira metade do século passado, fez da sua morte um evento: “Uma noite, correu de bar em bar, de prostíbulo a prostíbulo, que ‘Galalau’ estava convidando a todos para vê-lo morrer. Não tinha mais nada a oferecer, apenas o espetáculo de sua morte num banco da Praça da República”. 80 Não é tão frequente esse convite do próprio intérprete. Mas o espetáculo continua, nas chacinas e morticínios patrocinados pela criminalidade – sempre organizada – e divulgado on line com a bombástica morbidez da mídia.

1.2.2 A morte na filosofia

Já se afirmou que a filosofia serve para ensinar a morrer. 81 Ou, em outras palavras, filosofar é aprender a morrer. “No interior do discurso da felicidade, a morte existe apenas em referência à vida; ela é simplesmente o período que põe fim à vida de virtude ou, no caso do epicurismo, de prazer. A morte completa a história de uma vida: se bem realizada ou suportada, ela dá à vida feliz uma conclusão apropriada e uma agradável completude. A morte em si, exatamente porque ela é o não eu, é estranha e sem sentido”. 82

Para Pitágoras, a alma não morria com o corpo, “mas migrava para algum outro lugar, talvez para um animal de outra espécie. Alguns pitagóricos desenvolveram essa regra transformando-a na crença em um ciclo cósmico de três mil anos: uma alma humana, após a morte [do corpo] entraria, morte após morte, em todo tipo de criatura da terra, do mar ou do ar, para finalmente retornar a um corpo humano a fim de que o ciclo tornasse a se repetir”. 83 Em Heráclito encontra-se a ideia de que a alma é fogo. E se a água extingue o fogo, a melhor alma é uma alma seca. Igual à dos homens de bravura e força que morrem na batalha: suas almas secas não sofrem a morte aguada, mas vão juntar-se ao fogo cósmico. 84

Agostinho se apaixona pelo pensamento de Platão e explica a morte como sendo o mal infligido ao homem presunçoso. “Os seres humanos situam-se no meio entre os anjos e os animais estúpidos: partilham o intelecto com os anjos, mas possuem corpos como os animais. Todavia, conforme o plano original divino, deveriam ter tido um parentesco maior com os anjos, porque teriam sido imortais. Após uma vida de obediência a Deus, teriam passado à comunhão com os anjos, sem a intervenção da morte”. 85

O pecado de Adão converteu o ser humano em animal mortal. A morte é a sorte comum de todos os humanos. Mas alguns, pela graça de Deus, serão compensados com sua admissão à sociedade dos homens bons, enquanto os outros serão punidos pela condenação ao lado dos anjos maus. Segunda morte, muito mais terrível do que a primeira.

A diferença entre a concepção bíblica e a platônica da criatura humana fica mais clara ao se indagar: – A morte é coisa boa ou má? Segundo o livro do Gênesis, a morte é um mal: é castigo pelo pecado. Para Platão, a alma somente é feliz quando despida do corpo e diante de Deus. Agostinho vê a história da raça humana dividida em duas cidades. Aquela que observa as leis de Deus e aquela que vive de acordo com a carne.

Em sua Utopia, Thomas More proclama que a relutância em morrer é tomada como sinal de consciência culpada. Enquanto os que morrem alegremente são cremados entre cânticos de alegria. “Quando um homem bom morre, nenhuma parte de sua vida é mais frequentemente ou alegremente relatada que a história de sua morte gloriosa”. 86 Teme a morte aquele que tem contas a acertar consigo mesmo e não chegou a bom termo em sua contabilidade afetiva ou moral.

Quem abordou de maneira profunda o aspecto angustiante da morte foi Heidegger. “A angústia revela o nada da existência. (...) O que ameaça, na verdade, é a experiência do vazio radical da existência, é a possibilidade do nada como horizonte de todo ente. O nada é, em última análise, a morte como dissolução do ser-aí e é por isso a sua possibilidade mais certa. A morte, na medida em que conduz o ser-aí a seu acabamento, leva também a seu desaparecimento”. 87

A morte é a possibilidade própria a cada um, a possibilidade radical que transforma o mundo num lugar inóspito. “O problema da morte está relacionado com o cuidado e a angústia. ‘Ser para a morte’ faz parte do conjunto da existência. A morte se nos apresenta primeiro por meio da experiência dos outros. É uma realidade fundamental e cada um deve morrer com sua própria morte. A totalidade de nossa existência, com a morte chega a seu fim. A morte para nós não é como a perfeição de um fruto maduro, mas a cessação, quando chega o fim. ‘Desde que o homem nasce, é suficientemente velho para morrer’ (Böhme). O Dasein é um perder-se, uma possibilidade que se antecipa, ainda que exista em sua facticidade como caído e lançado no mundo. A possibilidade mais eminente e enraizada em nosso ser é a de morrer”. 88

A humanidade está envolva numa existência inautêntica, porque ela nega a sua verdade mais profunda: a morte. Já a existência autêntica é aquela que não se recusa a encarar a morte. “A compreensão da morte como a possibilidade radical do ser-aí, descoberta no confronto com ela na experiência da angústia, constitui o modo autêntico de existir-no-mundo. Existir autenticamente consiste em assumir a si mesmo diante da morte”. 89

A morte é assunto perene e inesgotável entre os filósofos. Filosofia ensina a encarar a finitude. E o que isto significa? “Finitude é o traço daquilo que se encontra limitado a uma determinada situação ou condição. O homem é um ser finito, pois não consegue superar certos limites físicos, psicológicos, históricos etc. Por isso, está sujeito ao erro, à doença, à loucura, à morte, ao mal. Finito opõe-se a absoluto, perfeito, infinito”. 90

Na antiguidade, a morte era muito cultuada. Não só a morte, como os restos corporais dos falecidos. Os egípcios mumificavam seus mortos. Os romanos construíam suas casas ao lado das tumbas. Pagão vem de pagus, campo onde estavam os mortos. Dentro das casas havia o culto aos ancestrais: os deuses lares.

Era permitido morrer. Havia o direito a morrer. Foi o cristianismo que baniu essa ideia, ao sacralizar a vida. A “indesejada das gentes”, como diz Manuel Bandeira, veio a ser banida. 91 A religião da ressurreição priorizou a vida. E a vida autêntica era aquela após à morte. A vida eterna.

Todos os filósofos pensaram a morte e falaram sobre a morte. Filosofar é aprender a morrer, dizia Platão. A mesma ideia é reafirmada por Montaigne. Descartes e Bacon se detiveram sobre ela. Este propunha que pensar a morte implicaria em exercício de criatividade. Afinal, valorizar a vida seria torná-la individualizada e inconfundível com qualquer outra experiência vital. Pascal propõe o divertissement: não com o óbvio significado de diversão, mas no sentido de fugir da morte. É para escapar à morte que as pessoas se entregam às suas manias, aos seus hobbies, ao seu lazer. Mencionava o exemplo da caça, tão rotineira entre os nobres em toda a Europa. O que justificaria um bando de homens, a cavalo, a perseguir uma lebre que não se compraria no açougue, senão a tentativa de se distrair ante a certeza da morte?

Philippe Ariès, que escreveu sobre a morte no ocidente, observa que o homem ocidental expulsou a morte da vida cotidiana. Foi muito influente a sua tese, de acordo com a qual a cultura ocidental do final do século XVIII se caracterizaria por uma antipatia sem precedentes com relação à morte em todos os seus aspectos. De espetáculo familiar na Idade Média, o agonizante cercado de filhos, netos, amigos, todos a anotar suas últimas palavras, passa-se para a morte reprimida e proibida de nossos dias. Se possível esconde-se a morte. É a vergonha e a perplexidade diante do inexplicável. A morte é fato extraordinário. Ao acordar para isso, o ser humano caiu na tentação de procurar fugir da morte.

E hoje? Como vemos a morte?

Na verdade, vivemos um paradoxo: de um lado, a banalização da morte. Ela está em todos os lugares e a instantaneidade das comunicações a torna fato presente. O fato da morte parece corriqueiro. É um fenômeno biológico, assim como o são o nascimento, a puberdade, o envelhecimento. Sequência natural na aventura humana. É também um fenômeno social. Por isso a preocupação com a taxa de mortalidade, sua ocorrência entre os vários segmentos econômicos, étnicos, sua vinculação com a pobreza. É fenômeno demográfico. O mundo, que já se preocupou com as profecias malthusianas, também assiste ao declínio de algumas nacionalidades, como França, Alemanha e Itália. Mas também é vista como fenômeno letal para a medicina. A despeito dos avanços científicos, a morte sobrevém. É fato continuamente investigável, embora filosoficamente inexplicável.

Fenômeno natural para o direito, gera consequências que a seguir serão examinadas. Assim como se lavram registros de nascimento, precisam ser lavrados os assentos de óbito. Cada fato a gerar suas certidões. Há, portanto, uma banalização da maldita entre os vivos, ouvimos falar da morte permanentemente. O avanço da civilização não poupou a humanidade da guerra, dos atentados, das chacinas e dos acidentes. A morte de personalidades, sejam elas figuras proeminentes na política, na sociedade, nas artes e na economia, sempre merecem intensa divulgação. Mortes precoces de famosos sustentam uma verdadeira indústria na mídia. Assim como a ocorrência dos cataclismas, dos tsunamis, furacões, terremotos, inundações. O que dizer então da contínua queda de aviões? Além da certeza de que todos seremos colhidos por ela, vivemos a situação de permanência da morte.

Por que a morte é sempre vista como escândalo? Por que esse acontecimento banal provoca horror e curiosidade?

Aqui reside o paradoxo. É que de um lado temos a banalização, mas de outro, temos de enfrentar o caráter desconcertante, aterrador e vertiginoso da morte. La Rochefoucauld o definiu com precisão: o homem não pode encarar o sol nem a morte. O sol é capaz de cegar os olhos humanos. A morte paralisa o ser a ela condenado.

De um lado está o fato que o médico atesta, o biólogo investiga, o registrador encara naturalmente ao lavrar o assento, o coveiro enterra, o funcionário do crematório submete à combustão. De outro, o fato que não se assemelha a nenhum outro. Desmedido, incomensurável. É um mistério. Por isso costuma-se comparar a morte ao amor. Eros e Tânatos. Morte e amor. A sempre nova banalidade de cada morte e a antiga novidade do amor. Não por acaso, o Deus grego do amor é representado por criança. Amor é sempre sentimento novo para quem o vive. Cada morte é sempre um fato novo e irrepetível. Não aprendemos com a morte. Não nos sentimos próximos dela, mas também não nos vacinamos contra a morte. É irremediável. Novidade para quem vive, nada obstante ninguém escape dela.

Há um poema de Natal de Vinicius de Moraes em que ela está presente: para isso fomos feitos. Braços longos, para o abraço. Dedos para cavar a terra. Abertos para a esperança do milagre. Para ver a face da morte. Da morte apenas é que nascemos imensamente.

Como enfrentar filosoficamente a morte?

Se não há receitas, valeria a pena tentar um convívio amistoso com a ideia da inevitabilidade e da irreversibilidade da morte. Resgatar do paganismo a ideia de que a morte é natural. Procurar nos desvencilhar da ideia de que é indecifrável. Não é porque ela se avizinha, mas porque ela é real, veraz, constatável. Neste momento, em nossa estrutura corporal, células mortas estão desaparecendo. Mas outras nascem. Estão entrelaçadas. Para viver plenamente, é preciso aceitar a morte. A morte faz aceitar a vida. O homem sabe ou intui que a morte é o nada e por isso foge dela. É o que ocorre para quem não foi agraciado com o conforto da crença.

A perspectiva filosófica vai condicionar a escolha de vida. Há uma diferença entre dizer: para se viver plenamente e com alegria é preciso ter consciência de que somos destinados a morrer e é a morte que nos faz questionar o sentido da vida. A morte valoriza a vida. Isso é uma coisa. Mas é diferente apenas dizer isso e não se conseguir modificar o pensamento e a forma de viver. Há pessoas que, num raciocínio mórbido, só conseguem pensar na morte e adiantar o seu encontro com ela. Examinar a morte sob todas as suas facetas, não significa ter de deixar de viver em plenitude. Esta postura é uma espécie de lento suicídio. Por que ruminar sobre a morte? Os traços mórbidos de quem teme exageradamente a morte não representam somente paranoia. Equivalem a um suicídio lento e gradual.

Cabe lembrar Spinoza: queremos perseverar no certo. O certo é viver e aceitar as vicissitudes desta aventura pelo planeta. O homem quer manter-se na duração que lhe cabe. Nascimento, crescimento, amor, maturidade, velhice, enfermidade e morte. A morte como instante da vida. Mário Quintana: a vida nutre-se da morte, não a morte nutre-se da vida. É preciso olhar nos olhos da morte para enxergar melhor a vida. Uma lúcida lâmina de vidro separa o aquém do além. Estamos na plenitude do ser e a morte é o vazio. Está fora da ordem. Numa outra ordem. Por isso extraordinária. Inatingível. Morte como instante mortal. O instante mortal é acontecimento incomparável. Não permite conceitualização. Está fora de qualquer categoria. Qual seria a filosofia do instante mortal, como se fosse possível entrar no coração desse mistério. Por mais que se tente, não há respostas definitivas. Pois não é possível filosofar sobre o instante em que a morte ocorre. Quando se filosofa, é-se desprovido da consistência do vivido. Enquanto filosofamos estamos vivos. Quando morremos, não temos condições e filosofar. Retornar a Epicuro: enquanto estamos, ela não se apresenta. Quando ela se apresenta, não estamos mais. Por isso, habitua-te a pensar que a morte para nós é nada. É o que ele diz na carta a Meneceu. É temível esperá-la. Ela não nos causa dano algum. Enquanto vivemos a morte não está presente. Quando está presente, nós é que não estamos. O homem vivo nunca se defrontará com a morte. Quanto aos mortos, estes já não são.

Se a morte é o nada, a vida é incapaz de nos falar do nada. Ela só pode nos falar dela. A vida é tudo.

Como pensar em morte como instante de vida? É um ponto de vista cultural, que depende apenas de cada um. É lembrar que a morte é o nosso destino inexorável. Não temos poder algum sobre ele. Minha morte começou quando nasci, diz em uma de suas poesias Mário Quintana. Por outro enfoque, é nossa origem real. Destino como seres finitos. Mas origem, como seres humanos.

Há quem diga, como o filósofo Michel Serres, que o homem, desde que surgiu, lutou contra a morte. É vítima atormentada pelo desejo de imortalidade. Mas quando se tornou cada vez mais homem, com a descoberta progressiva da morte, cuidou de ser mais humano. Diferenciamo-nos das demais espécies exatamente por isso. Passamos a ter consciência de nossa própria condição de seres finitos. Freud também pensava nisso, como já se viu há pouco. O ser humano não acredita na própria morte. Estamos convencidos, no inconsciente, de que somos imortais. Tanto é assim, que não aceitamos a morte como algo necessário. Associamos a partida a um fato alheio a ela. Procuramos explicações: acidente, fatalidade, velhice, doença, infecção súbita etc. Mas a morte é revestida de um caráter necessário. Ou seja, não se a pode evitar.

Nietzsche via nela duas faces da mesma moeda. Dizia que a vida vive sempre às expensas de outra vida. Para nos mantermos vivos, dependemos de outras vidas: vida vegetal e vida dos animais de que nos alimentamos. Vidas dos que nos legaram suas descobertas para que hoje possamos viver mais. Os que descobriram vacinas, os que experimentaram danos para se imolar em prol de vida alheia etc. A vida é morte perpétua. Nossas células desaparecem e novas células surgem sem cessar. O corpo que tínhamos ontem não é a que temos hoje. O número de células vivas de hoje não coincide com aquele que tínhamos ontem. Se pensarmos nisso, faremos com que a morte naturalmente se introduza em nossa vida.

Há uma terceira linha de raciocínio: distanciamo-nos dos antigos para os quais a morte tinha um lugar privilegiado na existência. Mas também nos afastamos dos modernos, para os quais a vida reinava. Mas agora a morte é um instante de vida. Não mais relacionando o seu conceito com a cultura, mas com o seu sentido concreto em minha existência. Toda vez que pensamos sobre a morte, mediamos sobre a contingência do meu ser. Nem sempre existi e poderia mesmo não ter existido. Uma vida plena vê sentido até na doença. Emil Cioran é quem afirma que a enfermidade tem missão filosófica. A existência não teria sentido se não ficássemos doentes. O ser humano fragilizado faz o homem saudável refletir sobre a morte e atribuir sentido à vida. É preciso olhar para outra imagem. Imagine-se o quadro Falling stars, de Anselm Kiefer (1995). São estrelas cadentes na parte superior, sobre um cadáver na parte inferior. Embaixo, um corpo seminu deitado sobre a Terra. O que é a morte individual, perante a vida presente no universo em movimento? Vida plena em conjunto com a morte. Morte, fato bruto, este não sei o que, nos deixa entrever a passagem do ser ao nada. Mas mais do que isso, põe em causa o sentido de nossa existência. Qual o sentido de estarmos vivos? Esta reflexão vem convidar a cada um a se autoindagar qual o sentido de sua própria vida. Ela propõe, num instante, o desafio de pensar nossa própria condição. Morte se revela m instante de vida. Soneto de Shakespeare. Que mão pode deter seu pé veloz? 92

1.2.2.1 O que alguns filósofos disseram sobre a morte

Os grandes filósofos se preocupam sempre com o tema da boa morte. Simon Critchley, professor de filosofia da New School for Social Research, em Nova Iorque, arrolou 190 exemplos, sob a forma de verbetes e publicou o livro O Livro dos Filósofos Mortos, 93 para mostrar que – em termos demasiadamente humanos, ou seja – paz, tranquilidade, ausência de dor – na maior parte os pensadores tiveram de sofrer bastante para deixar a vida.

Apenas para mencionar o que se encontra nessa obra curiosa, lembre-se que Tales de Mileto morreu de desidratação enquanto assistia a uma prova de atletismo e Guy Debord praticou suicídio, assim como Lucrécio e Walter Benjamin. Este já dissera: “Do ponto de vista da morte, a vida nada mais é que a produção de um cadáver”. Sócrates bebeu cicuta, Aristóteles ingeriu uma ranunculácea venenosa, Heráclito sufocou-se em estrume de vaca, Empédocles atirou-se no Vesúvio. Diógenes prendeu o fôlego além da conta ou intoxicou-se com polvo cru, Diderot engastou-se com um damasco. Roland Barthes foi atropelado por uma ambulância, Hannah Arendt caiu num bueiro ao sair de um táxi em frente ao prédio onde morava, em Manhattan. Francis Bacon pôs-se a refrigerar um franco com um punhado de neve no inverno londrino, apanhou pneumonia e morreu. Sêneca, o Conselheiro de Nero e por este condenado ao suicídio, em 65 da era cristã, cortou os pulsos, perdeu muito sangue, mas continuou vivo. Tomou veneno, acônito, o mesmo que matara Aristóteles, mas não morreu. Finalmente foi colocado por seus serviçais num tacho com água fervente. Camus foi atropelado por um táxi, enquanto Jean-Paul Sartre vangloriava-se: “Morte? Não penso nisso”. Mas todos morreram e todos pensaram ou falaram na morte.

Alguns pensadores se detiveram mais sobre a morte do que outros. Mencioná-los todos faria deste ensaio uma enciclopédia sobre a morte, que não é o seu propósito. Em seleção aleatória, sugerida por sua familiaridade com a obra e até mesmo em razão de empatia pessoal com o autor, brevíssima incursão a respeito da morte na palavra legada pelos filósofos que seguem.

Heráclito (535- 470 a.C.)

Os homens não esperam nem sequer imaginam o que os espera na morte.”

Os cadáveres deviam ser jogados fora mais rápido que o esterco.”

A Morte é todas as coisas que vemos quando acordados; tudo o que vemos dormindo é sono.”

Os imortais são mortais, e os mortais, imortais, vivendo a morte uns dos outros, mortos na vida uns dos outros.” 94

Sófocles (497 ou 496 a.C. – 406 ou 405 a.C.)

Numerosas são as maravilhas da natureza, mas de todas a maior é o homem!... Fecundo em recursos, previne-se sempre contra os imprevistos. Só contra a morte ele é impotente, embora já tenha sido capaz de descobrir remédio para muitas doenças, contra as quais nada se podia fazer outrora.” 95

Pois obedece então a teus senhores e glória a ti, irmã. Eu vou enterrar o nosso irmão. E me parece bela a possibilidade de morrer por isso. Serei amada para sempre pelos que sempre amei e junto deles dormirei em paz. Devo respeitar mais os mortos do que os vivos, pois é com eles que vou morar mais tempo. Mas tu és livre para ficar com os vivos e desonrar os mortos.” 96

Sócrates (469-399 a.C.)

Morrer é uma destas duas coisas: ou o morto é igual a nada, e não sente nenhuma sensação de coisa nenhuma; ou, então, como se costuma dizer, trata-se duma mudança, uma emigração da alma, do lugar deste mundo para outro lugar. Se não há nenhuma sensação, se é como um sonho em que o adormecido nada vê nem sonha, que maravilhosa vantagem seria a morte!... Se, do outro lado, a morte é como a mudança daqui para outro lugar e está certa a tradição de que lá estão todos os mortos, que maior bem haveria que esse, senhores juízes?” 97

Platão (427-347 a.C.)

Receio, porém, que quando uma pessoa se dedica à filosofia no sentido correto do termo, os demais ignoram que sua única ocupação consiste em preparar-se para morrer e em estar morto! Se isso é verdadeiro, bem estranho seria que, assim pensando, durante toda sua vida, que não tendo presente ao espírito senão aquela preocupação, quando a morte vem, venha a irritar-se com a presença daquilo que até então tivera presente no pensamento e de que fizera sua ocupação!

(...)

Estar morto consiste nisto: apartado da alma e separado dela, o corpo isolado em si mesmo; a alma, por sua vez, apartada do corpo e separada dele, isolada em si mesma. A morte é apenas isso?” 98

Aristóteles (384-322 a.C.)

Então ninguém deverá ser considerado feliz enquanto viver, e será preciso ver o fim, como diz Sólon? Mesmo que esposemos essa doutrina, dar-se-á o caso de que um homem seja feliz depois de morto? Ou não será perfeitamente absurda tal ideia, sobretudo para nós, que dizemos ser a felicidade uma espécie de atividade? Mas, se não consideramos felizes os mortos e se Sólon não se refere a isso, mas quer apenas dizer que só então se pode com segurança chamar um homem de venturoso porque finalmente não mais o podem atingir males nem infortúnios, isso também fornece matéria para discussão. Efetivamente, acredita-se que para um morto existem males e bens, tanto quanto para os vivos que não têm consciência deles: por exemplo, as honras e desonras, as boas e más fortunas dos filhos e dos descendentes em geral.” 99

Ora, a morte é a mais terrível de todas as coisas, pois ela é o fim, e acredita-se que para os mortos já não há nada de bom ou mau.” 100

Procurar a morte para fugir à miséria, ou ao mal de amor, ou a uma qualquer tristeza, não é próprio do corajoso, mas antes do covarde. Fugir das dificuldades é fraqueza e ninguém se suicida por nobreza, mas para fugir a um mal.” 101

Epicuro (341-270 a.C.)

Habitua-te a pensar que a morte nada é para nós, visto que todo o mal e todo o bem se encontram na sensibilidade: e a morte é a privação da sensibilidade.

É insensato aquele que diz temer a morte, não porque ela o aflija quando sobrevier, mas porque o aflige o prevê-la: o que não nos perturba quando está presente inutilmente nos perturba também enquanto o esperamos.

Recorda-te de que, ainda que sejas de natureza mortal e com um limite finito de vida, te debruçaste, mediante a investigação da natureza, no que é infinito e eterno, e contemplaste o que é agora, será e sempre foi no tempo transcorrido”. 102

Lucrécio (96 a.C. – 55 a.C.)

A morte, portanto, nada é para nós e em nada nos toca, visto ser mortal a substância do espírito... É preciso, de fato, se por acaso tem de haver alguma coisa de mísero e de triste, que haja nesse mesmo tempo aquele a quem tem de acontecer: como, porém, a morte o suprime, como impede de existir aquele a quem poderia ter armado tal conjunto de males, ficamos a saber que nada há de temível na morte, que não pode ser infeliz quem não existe, e que não interessa nada que já tenha nascido nalguma época, visto que a morte imortal lhe roubou a vida mortal”. 103

Cicero (103-43 a.C.)

Resta a quarta razão de temer a velhice, a que desola e acabrunha particularmente as pessoas de minha idade: a aproximação da morte. Ela é incontestável. Mas como é lastimável o velho que, após ter vivido tanto tempo, não aprendeu a olhar a morte de cima! Cumpre ou desprezá-la completamente, se pensamos que ela ocasiona o desaparecimento da alma, ou desejá-la, se ela confere a essa alma sua imortalidade. Não há outra alternativa.

Por que eu temeria a morte se, depois dela, não sou mais infeliz, quem sabe até mais feliz? Aliás, quem pode estar seguro, mesmo jovem, de estar ainda vivo até o anoitecer? Mais ainda: os jovens correm mais o risco de morrer que nós. Adoecem mais facilmente, e mais gravemente; são mais difíceis de tratar. Assim, não são muitos a chegar à velhice.

(...)

Para ser aplaudido, o ator não tem necessidade de desempenhar a peça inteira. Basta que seja bom nas cenas em que aparece. Do mesmo modo, o sábio não é obrigado a ir até o aplauso final. Uma existência, mesmo curta, é sempre suficientemente longa para que se possa viver na sabedoria e na honra.” 104

Sêneca (1 a.C.- 65 d.c)

Quase todos hesitam entre o temor da morte e os tormentos da vida, miseráveis que não sabem viver e não sabem morrer. Entregai-vos, pois, à vida agradável e cessai de vos inquietar.” 105

Morremos porque somos mortais; vivemos porque somos imortais.” 106

Enquanto que o futuro é sempre incerto e comporta mais má sorte do que boa, o caminho do céu é infinitamente mais fácil às almas que abandonam o comércio dos humanos: elas estão menos carregadas de lama. Libertadas antes de estarem misturadas com muita matéria e impregnadas com muitos elementos terrestres, elas alçam um voo mais leve em direção à sua pátria primitiva e se desprendem mais facilmente de tudo aquilo que as macula e altera.” 107

Marco Aurélio (121-180)

Pouco falta para seres cinza, ou esqueleto, talvez um nome, ou sequer um nome; e o nome, um som vago, um eco.

O que tanto se estima na vida: vazios, podridões, ninharias, cães que se mordem, crianças briguentas, que riem e logo estão chorando. A lealdade, o pudor, a justiça, a verdade, emigrados desta terra de largos caminhos para o Olimpo.

Que há que ainda te retenha por aqui, se as coisas sensíveis são mutáveis, inconstantes, os sentidos embotados, sujeitos a falsas impressões, a alma mesma uma evaporação do sangue, e a boa reputação entre tal gente um vácuo? E daí? Aguardarás de bom grado quer a extinção, quer a transmutação. Até que venha a ocasião dela, que nos basta? Que mais, senão venerar e louvar os deuses, fazer bem aos homens, suportá-los, não os tocar?

Tudo que há para dentro dos limites da carne e do espírito, lembra-te, nem te pertence nem depende de ti.” 108

Agostinho (354-430)

Desgostava-me, profundamente, ser tão sensível a estas vicissitudes humanas que irremediavelmente acontecem conforme a ordem natural e a sorte de nossa condição. Por isso, a minha dor suscitava-me uma nova dor, e afligia-me com uma dupla tristeza.

Foi conduzido o cadáver à sepultura. Fui e voltei, sem derramar lágrimas. Nem mesmo chorei durante as orações que Vos dirigimos, ao ser oferecido o Sacrifício da nossa redenção pela defunta, cujo cadáver já estava depositado junto do sepulcro, antes de o enterrarem, como ali é costume. Nem sequer chorei durante as orações! Mas todo o dia senti, no meu íntimo, uma tristeza oprimente.

Com o espírito agitado Vos suplicava, com todas as forças, que sarásseis a minha dor. Creio que, se mo não concedíeis, era para gravardes na minha memória, ao menos por esta única experiência, quanto são poderosos os laços do hábito até na alma que já se não alimenta com palavras enganadoras. Lembrei-me de ir ao banho; ouvira dizer que este nome lhe fora dado por causa dos gregos lhe chamarem balanêion, por aliviar o espírito de angústias. Confesso também isso à vossa misericórdia, ó Pai dos órfãos, confesso que depois do banho fiquei como estava, sem conseguir expulsar do coração esta amarga tristeza. Depois adormeci.” 109

Dante Alighieri (1265-1321)

Morte vilã, da piedade inimiga

E da dor mãe antiga,

Juízo incontrastável e gravoso;” 110

Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592)

As mortes mais mortas são as mais saudáveis.” 111

Nunca se deve perder de vista o último dia do homem, nem declarar que alguém é feliz antes de vê-lo morto e reduzido a cinzas. (...) Quanto a tudo mais podemos dissimular; fazer como filósofos belos discursos de forma excelente; conservar a nossa serenidade em face de acidentes que nos atinjam superficialmente. Mas na última cena, a que se representa entre nós e a morte, não há como fingir, é preciso explicar-lhe com precisão em linguagem clara e mostrar o que há de autêntico e bom no fundo de nós mesmos: ‘então a necessidade arranca-nos palavras sinceras, então cai a máscara e fica o homem’.” 112

De como filosofar é aprender a morrer

Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Isso, talvez, porque o estudo e a contemplação tiram a alma para fora de nós, separam-na do corpo, o que, em suma, se assemelha à morte e constitui como que um aprendizado em vista dela. Ou então é porque de toda sabedoria e inteligência resulta finalmente que aprendemos a não ter receio de morrer.” 113

Não sabemos onde a morte nos aguarda, esperemo-la em toda parte. Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer, desaprendeu de servir; nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e constrangimento.” 114

Nossa religião não teve fundamento humano mais seguro que o desprezo pela vida. Não só o argumento da razão nos convida a isso, pois por que temeríamos perder uma coisa que, perdida, não pode ser lamentada? Mas, ademais, já que estamos ameaçados por tantas maneiras de morte, não é melhor enfrentar uma do que temê-las todas? Que importa quando será, já que é inevitável? Àquele que dizia a Sócrates: ‘Os trinta tiranos te condenaram à morte’, ele respondeu: ‘E a natureza a eles’ Que tolice nos atormentarmos no momento em que se dá a passagem à isenção de todo tormento! Assim como nosso nascimento nos trouxe o nascimento de todas as coisas, assim nossa morte trará a morte de todas as coisas.” 115

Deus concede uma graça àqueles a quem subtrai a vida pouco a pouco. É o único benefício da velhice. A derradeira morte será menos completa e menos nociva, não matará mais que a metade ou um quarto de homem. Eis um dente que acaba de me cair, sem dor, sem esforço: era o término natural de sua duração. E essa parte de meu ser e várias outras já estão mortas, outras, semimortas, das mais ativas e que ocupavam o primeiro lugar no vigor de minha juventude. É assim que me dissolvo e escapo a mim mesmo.” 116

Descartes (1596-1650)

Nenhum homem é atingido pela morte, salvo o que,

Por muito bem conhecido do mundo.

Não aprendeu ainda a conhecer a si próprio.”

Antonio Vieira, Padre (1608-1697)

Cuidamos que só imos para a sepultura quando em ombros alheios somos levados a ela; e não acabamos de entender que desde a hora em que nascemos começamos este mesmo caminho. Se a um recém-nascido quando sai do ventre da mãe lhe perguntássemos: Quo vadis? menino, que agora entrastes no mundo, para onde ides? É sem dúvida que, se ele tivesse uso já da razão e fala para responder, responderia com as palavras de Jó: De utero ad tumulum; desde a hora do meu nascimento vou caminhando para a sepultura; e estas faixas são a minha primeira mortalha. Desenganemo-nos os mortais que todo este que chamamos curso da vida não é outra coisa senão o enterro de cada um, por sinal que quanto mais pompa, mais cruzes... Gloriam-se tanto das galas os perdidos por esta vaidade; e esta glória há de descer com eles à sepultura? Não. Pois por que nos há de levar tanto após si o que cá há de ficar; e não nos acomodaremos desde logo ao que só havemos de levar conosco?.” 117

François de La Rochefoucauld (1613-1680)

Rara gente conhece a morte; ninguém a sofre, de ordinário, resolutamente, mas por estupor e costume; e os mais dos homens morrem porque ninguém pode evitar a morte”.

Ninguém pode encarar fixamente o sol e a morte.” 118

Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704)

Nos funerais, só se ouvem palavras de surpresa por aquele morto estar morto.” 119

Só me mandaram para fazer número, porém não tinham o que fazer comigo, e a peça não deixaria de ser representada se eu ficasse nos bastidores. 120

Blaise Pascal (1632-1662)

Morremos em solidão.

O homem é apenas um junco, a mais frágil coisa da natureza; mas é um junco pensante. Para esmagá-lo não é necessário que todo o universo se ponha em armas: um supro de vento, uma gota de água é bastante para o matar. Mas movesse-se o universo para o esmagar, ainda assim o homem seria mais nobre que seu assassino. Pois ele sabe que está morrendo e que o universo teve o melhor de si. O universo, por sua vez, não tem disso a mínima ciência.” 121

Baruch Spinoza (1632-1677)

Um homem livre é o que menos pensa na morte, e sua sabedoria é uma meditação não sobre a morte, mas sobre a vida.” 122

Sentimos e sabemos por experiência que somos eternos.” 123

Voltaire (François-Marie Arouet) (1694-1778)

Respeitamos mais os mortos que os vivos. Seria necessário respeitar a ambos.” 124

O Padre Malebranche prova a ressurreição por meio das lagartas que se tornam borboletas. Essa prova, como se vê, é tão leviana como as asas desses insetos são leves. Pensadores que se dão a cálculos colocam objeções aritméticas contra essa verdade tão bem provada. Dizem que os homens e os outros animais são realmente nutridos e recebem seu crescimento da substância de seus predecessores. O corpo de um homem reduzido a pó, espalhado no ar e recaindo na superfície da terra, se torna hortaliça ou cereal. Desse modo, Caim se alimentou de uma parte de Adão, Enoc se alimentou de uma parte de Caim, Irad de Enoc, Maviael de Irad, Matusalém de Maviael, e não há ninguém dentre nós que não tenha engolido uma pequena porção de nosso primeiro pai. É por isso que já foi dito que todos nós éramos antropófagos. Nada mais tangível após uma batalha; não somente matamos nossos irmãos, mas ao final de dois ou três anos, nós os teremos devorado todos ao fazer a colheita no campo de batalha; seremos também devorados, por nossa vez, sem dificuldade. Ora, ao ter de ressuscitar, como restituiríamos a cada um o corpo que lhe pertencia sem perder nada do nosso?.” 125

Georges-Louis Leclerc, Conde de Buffon (1707-1788)

Quando se reflete que o europeu, o negro, o chinês, o americano, o homem policiado, o homem selvagem, o rico, o pobre, o habitante da cidade, o do campo, tão diferentes entre si por todo o resto, assemelham-se a esse respeito e têm todos o mesmo limite, o mesmo intervalo de tempo a percorrer desde o nascimento até à morte; que a diferença das raças, dos climas, dos alimentos, das comodidades não faz qualquer diferença para a duração da vida; que os homens que se alimentam de carne crua ou de peixe seco, de sagu ou de arroz, de caça ou de raízes, vivem tanto tempo quanto os que se alimentam de pão ou de iguarias preparadas, reconhecer-se-á com ainda mais clareza que a duração da vida não depende nem dos costumes, nem da qualidade dos alimentos; que nada pode mudar as leis da mecânica que regulam o número de nossos anos, que só é possível alterar por excesso de alimentos ou por dietas demasiado rigorosas.” 126

Luc de Clapiers, Marquês de Vauvenargues (1715-1747)

A consciência dos moribundos lhes calunia a vida.”

A firmeza ou a fraqueza da morte depende da última doença.”

Esgotada pela dor a natureza adormece às vezes o sentimento nos doentes e suspende-lhes a volubilidade do espírito, e os que temiam a morte sem perigo, sem receio a sofrem.”

Não se pode julgar a vida por mais falsa regra do que a morte.”

Para executares grandes coisas deves viver como se não tivesses de morrer.”

O pensamento da morte nos ilude; porque nos faz esquecer de viver.” 127

Arthur Schopenhauer (1788-1860)

Por que te queixas da caducidade dos vivos? Como existiria eu, se todos os da minha espécie que me precederam não estivessem mortos?” 128

Assim, o pensamento da cessação da nossa existência, o pensamento de um tempo em que não mais seremos, não deve razoavelmente também nos entristecer tão pouco como o pensamento que poderíamos jamais ter existido?”. 129

Théodore Jouffroy (1796-1842)

É impossível que algum homem, por irrefletido se possa supô-lo e em qualquer condição que se imagine, consiga escapar, durante o curso de uma longa vida, à concepção do problema de seu destino. (...) Ele tem seus ancestrais, descidos à tumba uns após outros, e ele se questiona também porque eles nasceram e porque, após haver rastejado sua vida sobre esta terra durante alguns anos, morreram para ceder lugar a outros que desapareceram também por sua vez e isso continue para sempre, sem fim nem razão. Ele sonha com essa infinita criação da qual ele não é senão um fragmento; ele se sente perdido nesta cadeia de seres das quais as extremidades lhe escapam; entre ele e os animais que ele olha, procura extrair relações e se pergunta se ele é mesmo superior a eles e se não haverá seres superiores a ele; e quando ele sente sua miséria, ele concebe, facilmente, a existência de criaturas mais perfeitas, mais capazes de obter felicidade, impregnadas de uma natureza mais própria a alcançá-la; e de seu próprio direito, da autoridade de sua inteligência que ele qualifica de ínfima e de limitada, ele tem a audácia de submeter ao Criador, esta alga e melancólica questão: “Por que Tu me fizeste e o que significa o jogo que eu jogo aqui embaixo?” 130

Auguste Comte (Isidore Auguste Marie François Xavier Comte) (1798-1857)

Aprofundando a noção de morte, é reconhecido que ela concerne diretamente apenas à existência corporal, ou até somente à vida vegetativa. Ela só se estende às fronteiras cerebrais devido à fatal dependência das últimas relativamente à economia nutritiva. Por isso, esses atributos eminentes perpetuam-se pela existência subjetiva, quando seu órgão pessoal obtém uma sucessão objetiva que, multiplicando-se cada vez mais, o incorpora definitivamente à Humanidade.” 131

A partir do momento em que acreditarem que cessei de viver, deverão deixar-me na cama como um simples doente até que meu corpo esteja em um estado pronunciado de putrefação, único sinal de morte realmente certo, na ausência do qual acontecem com frequência inumações deploráveis. Ninguém devendo ser submetido à exploração anatômica sem sua própria autorização, proíbo com relação a mim essa curiosidade vã que sempre julguei tão estéril para a inteligência quanto funesta ao sentimento. Esse respeito deve ser levado até o ponto de me preservar de qualquer operação de embalsamamento 132 .”

Sören Aabye Kierkegaard (1813-1855)

Num belo dia a morte chega – e, de repente, o homem torna-se imortal.” 133

Assim, para o cristão, nem sequer a morte é ‘doença mortal’, e muito menos todos os sofrimentos temporais: desgostos, doenças, miséria, aflição, adversidades, torturas do corpo ou da alma, mágoas e luto. E de tudo isso que coube em sorte aos homens, por muito pesado, por muito duro que lhes seja, pelo menos àqueles que sofrem, a tal ponto que os faça dizer que ‘a morte não é o pior’, de tudo isso, que se assemelha à doença, mesmo quando não o seja, nada é aos olhos do cristão doença mortal.” 134

Porque morrer significa que tudo está acabado, mas morrer a morte significa viver a morte; e vivê-la um só instante, é vivê-la eternamente.” 135

Charles Pierre Baudelaire (1821-1867)

A morte, que não consultamos a respeito de nossos projetos e a quem não podemos pedir a aquiescência, a Morte, que nos deixa sonhar com felicidade e fama e que não diz nem sim, nem não, sai bruscamente de sua emboscada e varre num bater de asas nossos planos, nossos sonhos e as arquiteturas ideais em que abrigávamos em pensamento a glória de nossos últimos dias!” 136

Alain (Émile-Auguste Chartier) (1868-1951)

A morte não se imagina. Pode-se somente na inação, no cansaço, na tristeza, aguardar algo de desconhecido, de inusitado, de único, contra o que não se encontra arma nem defesa.” 137

A morte é uma doença da imaginação.” 138

Giovanni Papini (1881-1956)

Uma terça parte da vida é anulada numa semimorte, outra gasta em fazer mal a nós mesmos e aos outros e a última esboroa-se na expectativa. Esperamos sempre alguma coisa ou alguém – que vem ou não, que passa ou desilude, que satisfaz ou mata.

Dia de finados. Não sinto e não pratico o culto totalmente materialista e exterior, que consiste em chegar junto a um pedaço de mármore onde só há poucas palavras e algumas relíquias invisíveis do corpo não mais vivo. Os mortos estão ainda vivos, mas apenas de dois modos: na segunda vida, para aqueles que têm fé, e no espírito dos sobreviventes, na nossa lembrança quente e presente. Morremos uma segunda vez, na terra, quando morrem todos os que nos amaram.” 139

Gaston Bachelard (1884-1962)

A morte é, em primeiro lugar, uma imagem, permanece uma imagem. Só pode ser consciente em nós caso se exprima, e só pode se exprimir por metáforas.” 140

Manuel Garcia Morente (1886-1942)

Desde que começamos a falar da vida como objeto metafísico, no fundo de todos nós deve ter soado um guizinho: Mas, e a morte? Este é o grande problema da metafísica existencial. Como vamos solucionar o problema da morte? Eu não posso, nem de longe, dar aqui uma solução a esse problema da morte. Somente poderia, talvez, indicar alguma vaga consideração acerca do lugar topográfico através do qual teria que ir procurar a solução desse problema, e é a consideração seguinte, feita com a terminologia que já nos é familiar: é que a morte ‘está em’ a vida; é algo que acontece à vida. Por conseguinte, a morte e a vida não constituem dois termos homogêneos, num mesmo plano ontológico, antes a vida está no plano ontológico mais profundo, o primordial, o plano do ente autêntico e primário, enquanto a morte, que é algo que acontece à vida, ‘em’ a vida, está no plano derivado dos entes particulares, das coisas reais, dos objetos ideais e dos valores. Talvez por este lado, por este caminho, refletindo sobre isto, poderiam encontrar-se algumas considerações ontológicas interessantes sobre o problema da morte.” 141

Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955)

A Vida é menos certa que a Morte.” 142

A Morte nos abandona totalmente a Deus; nos transfere Nele; é preciso, em compensação, entregar-nos a ela com grande amor e grande abandono – pois outra coisa não nos resta a fazer, na Sua presença, do que deixar-nos inteiramente dominar e conduzir por Deus. O meu pensamento tateia enquanto te escrevo isso; aí está o porque da sua expressão embaraçada e do seu aspecto banal e caótico. De toda maneira, sinto que haveria alguma coisa a dizer sobre a sã alegria da morte, sobre a sua harmonia na Vida, sobre o ligamen íntimo (e ao mesmo tempo a separação) do Mundo dos Mortos e do Mundo dos Vivos, sobre a unidade de um e de outro num mesmo Cosmo.” 143

Na morte, como num oceano, confluem os nossos bruscos e graduais enfraquecimentos. A morte é o resumo e a consumação de todas as nossas diminuições: ela é o mal – o mal simplesmente físico, na medida em que ela resulta organicamente da pluralidade material em que estamos imersos – mas também mal moral, porquanto essa pluralidade desordenada, fonte de todo o impacto e de toda a corrupção, é engendrada, na sociedade, ou em nós mesmos, pelo mau uso da nossa liberdade.” 144

Karl Jaspers (1883-1969)

Ao morrer, reencontramos nossos mortos queridos. Eles nos acolhem em seu meio. Não nos vemos mergulhados no vazio do nada, mas na plenitude de uma vida verdadeiramente vivida. Adentraremos um sítio penetrado pelo amor, iluminado pela verdade.”

Ludwig Wittgenstein (1889-1951)

Como na morte, o mundo não muda, mas cessa.”

A morte não é um acontecimento da vida. Não se vive a morte. Se entendemos a eternidade não como uma duração temporal infinita, mas como intemporalidade, então vive eternamente aquele que vive no presente.”

A imortalidade temporal da alma humana, isto é, a sua eterna sobrevivência após a morte, não só não está garantida como também a sua suposição não realiza de todo o que com ela se queria alcançar. Resolve-se um enigma pelo fato de eu sobreviver eternamente? Não é esta vida eterna, então, tão enigmática quanto a presente? A solução do enigma da vida no espaço e no tempo encontra-se fora do espaço e do tempo.” 145

Vladimir Jankélévitch (1903-1985)

Quando se pensa até que ponto a morte é familiar e quão total é nossa ignorância e que jamais houve nenhum vazamento de informação, deve-se confessar que o segredo é bem guardado.” 146

O moribundo está na situação do homem que sai de casa sem sua chave e não pode mais tornar a entrar porque a porta fechada só pode ser aberta por dentro.” 147

A luz reflete-se no aquém no último instante; esse último instante não é, portanto, o vidro transparente através do qual veríamos a paisagem do além-mundo e a face oculta de nosso destino, mas antes o espelho que devolve a nosso mundo terreno sua própria imagem.” 148

Hannah Arendt (1906-1974)

A morte é o preço que pagamos pela vida, pelo fato de termos vivido.” 149

Se os morais conseguissem dotar de alguma permanência suas obras, ações e palavras, e lhes retirar o caráter perecível, então essas coisas poderiam, supostamente, pelo menos até certo ponto, penetrar e encontrar morada no mundo do que dura sempre, e os próprios mortais encontrariam lugar no cosmos onde tudo é imortal, exceto os homens.” 150

Emil Cioran (1911-1995)

É porque ela não repousa sobre nada, porque carece até mesmo da sombra de um argumento que perseveramos na vida. A morte é demasiado exata; todas as razões encontram-se de seu lado. Misteriosa para nossos instintos, delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os falsos atrativos do desconhecido.” 151

De tanto acumular mistérios nulos e monopolizar o sem-sentido, a vida inspira mais pavor do que a morte: é ela a grande Desconhecida.” 152

Dê um objetivo preciso à vida: ela perde instantaneamente seu atrativo. A inexatidão de seus fins a torna superior à morte - uma gota de precisão a rebaixaria à trivialidade dos túmulos. Pois uma ciência positiva do sentido da vida despovoaria a terra em um dia; e nenhum frenético conseguiria reanimar a improbabilidade fecunda do Desejo.” 153

Podem-se classificar os homens segundo os critérios mais caprichosos: segundo seus humores, suas inclinações, seus sonhos ou suas glândulas. Troca-se de ideias como de gravatas; pois toda ideia, todo critério vem do exterior, das configurações e dos acidentes do tempo. Mas há algo que vem de nós mesmos, que é nós mesmos, uma realidade invisível, mas interiormente verificável, uma presença insólita e imutável, que se pode conceber a todo instante e que nunca nos atrevemos a admitir, e que só tem atualidade antes de sua consumação: é a morte, o verdadeiro critério... E é ela, a dimensão mais íntima de todos os seres vivos, que separa a humanidade em duas ordens tão irredutíveis, tão afastadas uma da outra, que há mais distância entre elas que entre um abutre e uma toupeira, uma estrela e um cuspe.” 154

Julián Marías (1914-2005)

A morte se nos apresenta de maneira muito semelhante à do horizonte visual. Contamos com a morte, desde muito cedo a vida humana se faz contando com ela, embora em formas muito diversas. A morte é possível a cada instante, e o homem o sabe; em algumas situações é provável; o grave é que, salvo a incerteza do quando, é certa, sabemos com plena segurança que um dia chegará. Essa combinação de segurança e incerteza é essencial para compreender como funciona em nossa vida a expectativa da morte. É algo futuro, inevitável, mas afetado pelo ‘ainda não’, ou ‘não por ora’.

Se considerarmos a estrutura empírica da vida humana - isso é o que entendemos precisamente por ‘o homem’ - percebemos que é uma estrutura fechada que desemboca inexoravelmente na morte. O homem é mortal, porém não só no sentido de que pode morrer, mas no de que tem que morrer: é moriturus. Há uma idade, a velhice, da qual o mais interessante é que é a última: ninguém passa de velho, e não se pode permanecer nessa idade indefinidamente. Porém, por velho que se seja, se pode viver um pouco mais; a morte, segura e inevitável, aparece como algo que se pode retardar. Há uma frase coloquial espanhola, popular e indecorosa, muito expressiva, que diz de alguém muito velho ou muito enfermo: “Esse vive com licença do coveiro”. Parece que essa pessoa já devia estar morta, mas teve uma prorrogação, licença ou permissão, sempre pendente de que acabe.” 155

Thomas Merton (1915-1968)

Uma silenciosa morte pode testemunhar uma paz mais eloquente do que a morte marcada por vivazes expressões. Uma morte solitária, uma morte trágica, podem ter mais a dizer da paz e da misericórdia de Cristo, do que muitas mortes tranquilas. Pois a eloquência da morte é a eloquência da pobreza humana, face a face com as riquezas da divina misericórdia. Quanto mais percebemos a suprema extensão da nossa penúria, tanto maior será o sentido da nossa morte; e maior a sua pobreza. Pois os santos são aqueles que preferiram ser mais pobres em vida, e que, acima de tudo, exultam a suprema pobreza da morte.” 156

Zygmunt Bauman (1925)

Os mortos não têm poder algum para guiar - muito menos monitorar e corrigir - a conduta dos vivos.” 157

Na vida humana tudo conta, porque os seres humanos são mortais e sabem disso. Tudo o que os mortais humanos fazem tem sentido devido a esse conhecimento. Se a morte algum dia fosse derrotada, não haveria mais sentido em todas aquelas coisas que eles laboriosamente juntam, a fim de injetar algum propósito em sua vida absurdamente breve.” 158

É a implacável realidade da morte que torna a imortalidade uma proposta atraente, mas é a mesma realidade que torna o sonho da eternidade uma força ativa, um motivo para ação.” 159

Jean Baudrillard (1929-2007)

A menos que se a tenha desejado e premeditado, não se pode imaginar a morte de alguém próximo. Não há imaginação da morte. Ela é de uma evidência absoluta, e não podemos representar essa evidência absoluta.” 160

O desaparecimento não é a morte, e a tristeza do desaparecimento não é a do luto. Assim, a “saudade” exprime não o luto pelo que morreu, mas a nostalgia do que desapareceu, com um lume de ressurreição.” 161

Estar vivo é conservar a possibilidade de morrer. O que não é válido no sentido oposto. Por isso é melhor estar vivo do que morto.” 162

Um amigo morreu. A morte de um amigo se justifica por ela mesma a posteriori: ela torna o mundo menos vivível e, logo, sua ausência neste mundo menos dolorosa. Ela altera o mundo de tal forma que a própria pessoa não mais teria lugar nele. Outros sobrevivem num mundo que não é mais o seu – alguns sabem se apagar em tempo hábil. Sua morte é um traço do espírito, ela torna o mundo mais enigmático, mais difícil de ser compreendido do que durante sua vida – o que é a verdadeira tarefa do pensamento.” 163

Chego sempre na hora. Uma pontualidade assim é semelhante à imagem do encontro com a morte, quando, é claro, só podemos chegar exatamente na hora. Ou melhor, é ela que de qualquer forma será exatamente pontual nesse encontro. Não que ela nos espere, mas acontece que quando tiver chegado, nós também estaremos ali. E é assim mesmo. O que é inquietante (mortificante?), é antecipar essa coincidência inexorável chegando na hora precisamente quando isso não tem nenhuma importância. De qualquer modo, os que nunca chegam na hora certa, apenas brincam de adiar o encontro com a morte. Toda a nossa cultura nos formou há séculos para essa pontualidade obsessiva, logo, formou-nos para esse encontro com a morte. A única maneira que encontramos para escapar disso foi o tempo real, a dispersão do tempo na interface eterna, de tal forma que não há mais um ponto preciso onde a morte esteja à espera.” 164

Não seria uma pulsão de morte que leva os seres sexuados para uma forma de reprodução anterior à sexuação (aliás, não é essa forma cissípara, a reprodução e a proliferação por pura contiguidade, que é para nós, no fundo de nosso imaginário, a morte e a pulsão de morte?) e que os leva ao mesmo tempo metafisicamente a negar toda a alteridade, toda a alteração do Mesmo para só visar à perpetuação de uma identidade, a uma transparência da própria inscrição genética mais fadada às peripécias da concepção?” 165

Luc Ferry (1951)

Se a filosofia, assim como as religiões, encontra sua fonte mais profunda numa reflexão sobre a ‘finitude’ humana, no fato de que para nós, mortais, o tempo é realmente contado, e de que somos os únicos seres neste mundo a ter disso plena consciência, então, é evidente que a questão de saber o que vamos fazer da duração limitada não pode ser escamoteada. Diferentemente das árvores, das ostras e dos coelhos, não deixamos de nos interrogar a respeito de nossa relação com o tempo, sobre como vamos ocupá-lo ou empregá-lo, seja por breve período, hora ou tarde que se aproxima, ou longo, o mês ou o ano em curso. Inevitavelmente, chegamos, por vezes, num momento de ruptura, de um acontecimento brutal, a nos interrogar sobre o que fazemos, poderíamos ou deveríamos ter feito de nossa vida toda.” 166

Se é preciso exercitar-se para pensar incessantemente na morte, na separação, na impermanência de todas as coisas, não é por gosto pelo mórbido, mas, ao contrário, por preocupação com a felicidade: se a separação é a lei deste mundo, é preciso antecipá-la e preparar-se para ela, a fim de que, chegado o dia, não sejamos pegos de surpresa e, assim, mergulhemos na infelicidade. A verdadeira liberdade e a alegria mais autêntica dependem desse exercício”. 167

1.2.3 A morte na religião

O fenômeno religioso é uma constante na história humana. Não há convívio gregário que não tenha evidenciado preocupação com o paradoxo da vida. Encontrar resposta para a perplexidade que acomete o ser pensante – nasce sem pedir, morre sem querer – só a religião consegue satisfazer a mente inquieta.

A religião, intento de religação da criatura com o Criador, confere especialíssima relevância à morte. Retira da morte a sua morbidez, para considerá-la ocorrência natural e necessária à assunção de outro estágio existencial. Para quem realmente crê em Deus, inválida a consideração de Jung: “A brutalidade e a arbitrariedade da morte podem provocar no homem tal amargura que ele chega a descrer num Deus misericordioso, na justiça e na bondade”. 168 E o que é ainda melhor: “a religião resolve o problema da morte, que nenhum dos indivíduos vivos pode resolver, não importa como estejam apoiados. (...) Os dois motivos ontológicos da condição humana são atendidos: a necessidade de entregar-se inteiramente ao resto da natureza, tornar-se uma parte dela ao dar a vida inteira a um significado mais alto; e a necessidade de expandir-se como uma personalidade heroica individual. Por fim, só a religião dá esperança, porque mantém aberta a dimensão do desconhecido e do desconhecível, o fantástico mistério da criação que a mente humana nem tem meios de abordar (...)”. 169

À indagação: O que é a morte? A medicina cristã responde: “A definição da morte que nos interessa, enquanto fisiologistas e médicos cristãos, é aquela que nos é dada pela doutrina católica, por nosso catecismo: ‘A morte é a separação da alma e do corpo’. ‘Que o pó, diz o Eclesiastes, volte para a terra, de onde foi tirado, e que o espírito retorne a Deus, que o havia dado” (XII,7)”. 170

Sem a morte – desligamento da alma do corpo em que habita – não haverá ingresso do ser humano ao seu destino transcendental. A verdadeira vida, liberada de dores, sofrimentos, angústias ou incertezas. A vida eterna.

As propriedades da morte são duas: sua unicidade e sua universalidade. Inquestionável, no Cristianismo, a verdade de que a morte é única. Ninguém morre pela segunda vez. Os milagres de ressurreição narrados no Evangelho e na vida dos santos, exatamente porque milagrosos, escapam à natureza das coisas. Se Deus é o Senhor onipotente, ele pode querer essa via excepcional para algum de seus fins providenciais: provar a divina missão de Cristo, a santidade de algum servo seu ou qualquer outro, apenas perscrutável em Seus desígnios.

Quanto à universalidade, basta atentar para as Sagradas Escrituras. Todos os homens, procedentes de Adão por via de geração natural, estão condenados a morrer. Esta fatalidade advém do castigo infligido ao gênero humano em virtude do pecado original.

Assim, pois, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todos os homens, porquanto todos haviam pecado”. 171

Quando a Bíblia fala em todos, isto significa tantos quantos morram até o dia do juízo e ainda os que morrerão nesse dia. São Jerônimo afirma que a Igreja sustenta como sentença certa que todos os homens hão de morrer. 172 Em sentido idêntico se posiciona Santo Agostinho. 173 Sob uma concepção filosófica, Santo Tomás de Aquino explica que a união da alma imortal a um corpo corruptível é naturalmente transitória: “A imortalidade do composto humano resulta de uma graça de Deus e se compreende que a desobediência à lei divina, rompendo a união espiritual do homem com Deus, gerou a submissão humana à morte, como o Criador prevenira nossos primeiros pais. A imortalidade é obra de Deus, a morte é obra do homem”. 174

A morte não é encarada da mesma forma em todas as religiões. Há dois livros que podem exemplificar a distinção. O Livro egípcio dos mortos e O Livro tibetano dos mortos. Para os egípcios, a morte é definitiva, delimita dois mundos. A mesma criatura que já viveu neste mundo, perdura além com idêntica aparência e mesmo nome. Para os tibetanos, a morte é início de uma nova vida. Para os egípcios, era essencial procurar salvar o corpo da corrupção que fatalmente dissolve cada coisa criada: a integridade do corpo é necessária à vida que continua no além-túmulo. Para os tibetanos, o cadáver se queima ou se esquarteja ou se abandona nas montanhas, para que os animais de rapina o devorem.

Lê-se no Livro tibetano dos mortos que, à morte, abrem-se dois caminhos: ou a extinção definitiva, reservada aos eleitos, ou o renascimento, que espera aqueles que não souberam vencer o erro e compreender que tudo é sonho. Por isso seus adeptos preferem que o livro seja chamado o livro que conduz à salvação da existência intermediária apenas por ouvi-lo recitar. 175 O livro contém a descrição dos sinais da morte e também a dos sinais premonitórios da morte. Aborda o método de prognosticar a morte pelos sinais externos, pelos sinais internos, pelos sonhos e pelos sinais secretos. Distingue entre sinais de morte longínqua e sinais de morte próxima. Ensina identificar os sinais da morte detalhadamente explicados e os sinais da morte iminente. Indica, por fim, os sinais do futuro renascimento.

Algumas poucas vozes se fazem ouvir em crítica à Igreja. Ela antes se ocupava dos mortos e hoje parece não querer saber dos mortos. Não é fácil encontrar sacerdote para a cerimônia da “encomendação”, pois há uma nítida preferência pelos vivos. Os mais mordazes afirmam que a Igreja, ao desprezar os mortos, perde também os vivos. Seria preciso fazer a Igreja reassumir a morte. Com isso, ademais de se oferecer maior conforto ao mundo dos vivos, contribuir-se-ia para reverter a propensão de se transformar a morte em propriedade da medicina e depois transferi-la aos exclusivos e temporais interesses dos negócios privados.

Sob outra vertente, a religião também cultivou a morte. Em todas as épocas registram-se rituais macabros com sacrifício da vida humana. A religião cristã é fundada sobre o sacrifício de Jesus Cristo, Deus que se encarnou e ofereceu sua própria vida humana para o resgate da humanidade. Mas a história sacrificial tem relatos que povoam a trajetória dos egípcios, dos fenícios, dos povos da Mesopotâmia, dos árabes, dos armênios, dos mongóis e mesmo dos gregos e romanos. Mesmo depois do Cristianismo, cujos mártires pagaram com a existência a nova confissão, prosseguiu a humanidade a imolar vidas. E a Santa Inquisição também evidenciou que matar como forma de expiação não é privilégio dos pagãos.

Todos os povos registram casos de morte em ritos religiosos e mesmo de antropofagia, como ocorreu com indígenas brasileiros. 176

O cristianismo não nega que a morte seja o fim da vida. Mas tem uma conotação otimista ao assinalá-la como início de nova etapa: “A morte é sim o fim da vida. Mas fim entendido como meta alcançada, plenitude almejada e lugar do verdadeiro nascimento. A união interrompida pelo desenlace não faz mais que preludiar uma comunhão mais íntima e mais total”. Isso porque “o homem é mais do que o Bios, porque é mais que um animal. É mais do que o tempo porque ele suspira pela eternidade do amor e da vida. O homem é pessoa e interioridade. Para esse a morte não é um fim-fim, mas um fim-plenitude e um fim-meta alcançada”. 177

A religião aceita que se lamente a morte, que se entristeça pela partida e separação dos seres queridos. Afinal, Cristo chorou quando soube que Lázaro havia morrido. Mas a plenitude está na vida eterna. Numa crença na atemporalidade da vida. Esperança que alivia as dores experimentadas por todos aqueles sujeitos à inevitabilidade do evento morte.

1.2.3.1 A morte do agnóstico

Vive-se uma só vez, morre-se definitivamente. Nada mais existe. Nisso creem os que não creem. São os agnósticos, os seguidores do agnosticismo. Doutrina da filosofia que reputa inacessível ou incognoscível ao entendimento humano a compreensão dos problemas propostos pela metafísica ou religião. A existência de Deus, o sentido da vida, são inacessíveis pois insuscetíveis de submissão ao método empírico da comprovação científica.

O termo agnosticismo foi usado em 1869 por Thomas H. Huxley (1825-1895), biólogo inglês na sua obra Collected Essays, em oposição ao gnosticismo religioso, 178 que se propõe a explicar tudo à luz da crença. Em 1879 Charles Darwin já se considerava um agnóstico e se serviu do termo, com esse significado, em correspondência pessoal.

Morrer, para quem não crê, é deixar a vida naturalmente. Assim como naturalmente se nasceu, sem interferência divina.

A crença na ausência de Deus nasceu de certa concepção pretensiosa da ciência, capaz de tudo esclarecer e justificar. Embora sobreviva com intensidade – e isso constituiria sintoma o elevado número de obras sobre ateísmo publicadas recentemente – há sinais auspiciosos de que cientistas renitentes se reconciliariam com a transcendência. Quanto à ciência, esta nunca foi incompatível com a religião. Seria suficiente mencionar a gigantesca obra de Pierre Teillard de Chardin 179 para dar testemunho disso.

Assim é que em 2007, Jürgen Habermas recorda a cerimônia fúnebre do dramaturgo suíço Max Frisch, velado em 09.04.1991 na Igreja de São Pedro, em Zurique: “Agnóstico que rejeitava qualquer profissão de fé, Max Frisch se sentia desconfortável frente às cerimônias fúnebres que desconsideram a religião. Pela escolha do local onde seu corpo seria velado, declarava publicamente que a idade moderna iluminista não tinha conseguido encontrar um substituto adequado para o modo religioso de lidar com o rito de passagem que dá por finda a vida”. 180 Esse pequeno ensaio, chamado Um entendimento do que está faltando, é a contribuição de Habermas para o debate levado a efeito em fevereiro de 2007 na Escola Jesuíta de Filosofia de Munique. Ali, com vistas ao que Silviano Santiago chama de “coexistência construtiva”, filósofo e religiosos procuram se acertar.

O que está faltando? A privação é exatamente a carência de religião de que se ressente a razão. “Falta à razão algo que poderia ter, mas não tem e por que anseia dolorosamente”. 181 Falta à razão a fé, faltam-lhe os ritos religiosos, falta-lhe solidariedade. Como estabelecer vínculos entre razão e fé, entre valores e normas? Lembra Silviano Santiago que “na metafísica grega e nos primeiros documentos do cristianismo, filosofia e religião tiveram origem comum. No terceiro milênio, como buscar a coexistência construtiva de razão e fé?”. 182

Essa coexistência está sendo procurada e, de forma enfática, por pensadores como Jürgen Habermas. Além do diálogo com o filósofo Joseph Ratzinger, hoje o Papa Bento XVI, já atraído para o pensamento religioso Habermas formulou o conceito de “pós-secular”. 183 Se por um lado as religiões continuam a existir em toda a sua plenitude, por outro, na contemporaneidade a hipótese de secularização perde terreno. E para Silviano Santiago, “O pós-secularismo se torna mais premente diante das questões colocadas pela bioética, onde se busca um consenso moral. Habermas acredita que os cidadãos religiosos têm acesso a um potencial teórico que pode esclarecer e justificar as questões éticas. A religião provê a base moral para o discurso comunitário sobre o cientista e suas pesquisas nas áreas das ciências da vida e da saúde”. 184

Um outro episódio é eloquente e narrado por Rudiger Safranski: “Max Muller conta como em passeios a pé, quando chegavam a igrejas e capelas, Heidegger sempre pegava água-benta e dobrava o joelho. Uma vez ele lhe perguntou se não era uma incoerência, pois ele se afastara dos dogmas da Igreja. A resposta do filósofo foi inesperada e simplesmente genial: E Heidegger respondera: ‘É preciso pensar historicamente. E onde tanto se rezou, o Divino está próximo de maneira muito especial”. 185

A busca de entendimento entre ateus ou agnósticos, de um lado e religiosos, de outro, deve ser contínua e honesta. Habermas amadureceu desde que passou a sustentar que a razão substituiria a autoridade do sagrado mediante edificação de um consenso. Por isso é que, ao introduzirem seus escritos clássicos, os estudiosos Barbara Freitag e Sérgio Paulo Rouanet afirmam que a situação linguística ideal “supõe que, em princípio, todos os interessados possam participar do discurso e que todos tenham oportunidades idênticas de argumentar dentro dos sistemas conceituais existentes ou transcendendo-os, e chances simétricas de fazer e refutar informações, interpretações e recomendações”. 186

Enquanto não se atinge o consenso entre racionalistas e crentes, a morte do agnóstico prossegue a envolver um vazio inexplicável, razão da angústia existencial caracterizadora dos que não contam com a consolação da fé. Nem por isso eles renegam seu credo. Craig Venter, o cientista que mapeou o genoma humano e chegou próximo a sintetizar uma forma de vida em laboratório, indagado pela jornalista Gabriela Carelli se tinha algo contra Deus, respondeu: “Não acredito em Deus, mas tenho fé em Darwin, que é a inspiração para todo o meu trabalho. Infelizmente, Darwin estava limitado ao que podia ver com os olhos”. Mais adiante, indagou-se-lhe se é possível conciliar religião e ciência, já que o geneticista Francis Collins, também responsável pelo mapeamento do genoma humano, é cristão fervoroso. Retrucou: “É muito difícil ser um cientista de verdade e acreditar em Deus. Se um pesquisador supõe que algo ocorreu por intervenção divina, ele deixa de fazer a pergunta certa. Sem perguntas certas, sem questionamentos, não há ciência. O ser humano sempre tenta achar uma força misteriosa para explicar suas falhas, fraquezas e dúvidas. Mas a vida começa com o nascimento e termina com a morte. Se todas as pessoas aceitassem isso, aproveitariam mais sua vida, exigiriam mais de si mesmas e não desperdiçariam chances”. 187

Uma postura recorrente é a daqueles que não creem na divindade porque só enxergam as misérias do mundo. Daqueles que indagam se Deus “não vê o triunfo do horror, da morte e da fúria? Porque um Deus inerme, se é mesmo Deus, diante das ‘espectrais procissões de braços estendidos’, como escreveu Carlos Drummond de Andrade? Que Deus é este, olímpico também diante dos indivíduos? (...) Até quando haveremos de honrá-Lo com nossa dor, com nossas chagas, com nosso sofrimento? Até quando pessoas miseráveis, anônimas, rejeitadas até pela morte, murcharão aos poucos na sua insignificância, fazendo o inventário de suas pequenas solidões, colecionando tudo o que não têm – e o que é pior: nem se revoltam?”. 188

Crente ou ateu, o homem é o único animal que se preocupa com a própria morte. Embora tente disfarçar, na maioria das vezes, essa ideia o atormenta e o angustia. Não sabe o dia, não sabe a hora. Não pode ter certeza quanto às circunstâncias. Só sabe que morrerá. Por isso é que Calmon de Passos teve a coragem de admitir:

Somos essas pessoas singulares, que pensam primeiramente nelas próprias. Somos os únicos entes que sabem a respeito de sua própria morte e por isso mesmo ferrenhamente apegados a sua própria vida. Por mais generoso que eu seja, não sou muito atingido pelo problema da morte do outro, mas sou profundamente afetado pela minha. Por mais carinho e simpatia que eu tenha pelo próximo, não estou fundamentalmente preocupado com o seu dia de amanhã, mas estou seriamente preocupado com o meu”. 189

1.2.3.2 A morte do crente

Inegável que a fé representa conforto para quem sabe que terá de morrer. Todas as religiões procuram aplainar a rota de angústias daquele que se defrontará com a ceifadeira. No Cristianismo, existe a certeza da vida eterna e o católico possui o dom de um sacramento especialmente destinado àquele que vê a morte se avizinhar. Antigamente chamado de extrema unção, hoje é a unção dos enfermos.

Algumas orações de agonizantes são muito belas, como a Proficiscere anima christiana:

Parte deste mundo, alma cristã, em nome do Deus Pai todo-poderoso, que te criou: em nome de Jesus Cristo, filho de Deus vivo, que sofreu por ti; em nome do Espírito Santo que te foi dado; em nome da gloriosa e santa Mãe de Deus, a Virgem Maria. Em nome do bem-aventurado José, seu esposo; em nome dos anjos e dos arcanjos, dos tronos e dominações, dos principados e potestades, dos querubins e serafins; em nome dos patriarcas e dos profetas; em nome dos apóstolos, dos evangelistas, dos mártires, dos confessores das virgens e de todos os santos e santas de Deus. Que estabeleças hoje morada em paz na Jerusalém celeste, por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém”.

Amparado por essa prece, o agonizante será acalentado com a certeza de que toda a Igreja triunfante, que já está na contemplação do mistério de Deus, o recepcionará ao deixar o seu estágio de peregrino da Igreja militante para receber sua recompensa.

A Igreja é pródiga em destinar conselhos aos que chegam ao final do trajeto temporal. Bossuet escreveu um Opúsculo sobre a preparação para a morte e propõe que os últimos atos sejam os de fé, esperança e caridade, fundidos no único ato de entrega a Deus:

Senhor, entrego-me a vós; nada tenho a recear, a não ser que não me entregue suficientemente a vós, por Jesus Cristo. Interponho a cruz do Vosso filho entre os meus pecados e a Vossa justiça. Alma minha, porque estás triste e te perturbas? Espera nele e diz-lhe com todas as tuas forças: Meu Deus, Vós sois a minha salvação... Aproxima-se o tempo em que a fé se converterá em visão clara. Meu Salvador, eu creio, ajudai a minha incredulidade e sustente a minha fraqueza... Nada tenho a esperar de mim mesmo, mas Vós mandastes esperar em vós... Alegro-me por ouvir dizer que irei habitar na casa do Senhor... Quando é que Vos verei, único bem? Deus meu, minha vida e minha força, eu amo-vos; alegro-me pelo Vosso poder, pela Vossa eternidade, pela Vossa felicidade. Daqui a um momento, estarei em estado de Vos abraçar. Recebei-me na Vossa união”.

Para a pessoa de fé, o que importa é morrer bem. E morrer bem significa estar em paz com sua consciência. Ter praticado o amor. Ter capacidade para assimilar as palavras de São João da Cruz: “Na noite da nossa vida, seremos julgados pelo amor”. Pela honestidade com que se viveu o amor em plenitude.

1.2.4 A morte na literatura

Num texto muito agradável, como de regra são todos os que elabora, Luis Fernando Verissimo faz um instigante exercício sobre a morte na literatura. 190 Lera que Samuel Becket dizia que os mortos passavam para outro tempo. Não era outro mundo. “Referia-se ao tempo do verbo. Entre todas as mudanças provocadas pela morte havia essa: o morto passava irremediavelmente ao pretérito. Era bom pensar assim. A morte acontecia no mundo antisséptico das palavras e das regras gramaticais, nada a ver com a decomposição da carne. O ‘é’ transformava-se em ‘era’ e ‘foi’, e pronto”. 191

Seria bom se a migração do morto, em lugar de sair da vida para entrar no nada, fosse apenas entre categorias verbais. Por isso é que a vida, vista como narrativa literária, protege o medroso ser humano do horror incompreensível da morte. “A literatura tem essa função, a de uma fogueira no meio da escuridão da qual a morte nos espreita. Ou de uma matraca contra o silêncio final... Ninguém morre. Há apenas uma revisão na narrativa da sua vida para atualizar o tempo dos verbos... Diz-se que quem morreu “já era”... Os personagens de narrativas literárias mudam do tempo presente para o tempo passado, mas continuam no mundo, mesmo que no mundo restrito continuam no mundo, mesmo que no mundo restrito dos livros e das estantes. Salvo, talvez, os cupins e as traças, nada ameaça a sua perenidade. “São” eternamente”. 192 Vale a pena ler sobre a morte, verificar o papel que lhe deram os literatos. Até porque a morte é tema recorrente na literatura. Em todas as eras, em todos os gêneros. Não fora a morte e Dante não teria escrito A divina comédia. A viagem que faz ao Inferno, Purgatório e Paraíso pressupõe a passagem pela morte. Shakespeare abordou a experiência do luto e, com Hamlet, presenteou a humanidade com belo solilóquio sobre o sentido da morte, para conferir a ela um lugar dentro do espectro da vida. William Dumbar (1460-1520), poeta escocês, diz que a ideia da morte o deixa morto de medo. Mesmo quando o tema parece focar algo muito distante, de repente a morte está ali à espreita. O escritor húngaro Péter Esterházy, que escreveu Uma mulher, diz: “Quem fala do corpo fala imediatamente da morte”. 193

A morte pode estar no nome do livro, como Recordação da casa dos mortos de Fiódor Dostoiévski, 194 Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel Garcia Marquez, 195 ou subentendida, como Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso. 196 Pode não aparecer no título, mas estar no tema escolhido pelo autor, como A passagem tensa dos corpos, de Carlos de Brito e Mello, livro em que o cadáver de um homem está amarrado à cadeira junto à mesa. Como se estivera vivo, mulher e filha servem a ele alimentos. A vida caminha vivamente em torno do morto, pois “ninguém vive sem um bom morto”, diz o autor. 197 A morte pode figurar como sentido do eros, ou é o enigma, sentido último do erotismo. Para Bataille, a morte está no horizonte de todo jogo erótico. Simbolicamente, no ato sexual morre-se de forma incessante. 198 Um dos livros mais citados e menos lidos é Ulisses, de James Joyce. Na verdade, é o encontro do pai com o filho morto com intercurso no tema reencarnação. 199 Juan Rulfo, em Pedro Páramo, faz com que mortos falem e caminhem, afigurando-se até mais reais e tangíveis do que os próprios vivos. 200 Roland Barthes escreveu um Diário de luto, em que a morte não poderia estar ausente. 201

Leopardi reproduz um provocativo diálogo entre a moda e a morte. Esta é chamada pela moda e responde: “Espera até a hora em que virei sem que me chames”. 202 A moda se considera irmã da morte, pois ambas nasceram da caducidade. Aceitando a irmandade, a morte pede à moda que a ajude a obter mais e mais depressa em sua colheita. A moda afirma que já faz isso e que ainda mais insistirá em ajudar a irmã-morte:

(...) implantei no mundo tais ordens e tais costumes que a própria vida em relação ao corpo, como à alma, está mais morta do que viva; tanto que este, pode dizer-se em verdade, é o século da morte. (...) E mais, antes eras odiada e injuriada; hoje, por obra minha, as coisas são reduzidas a tais termos que qualquer um que tenha cérebro te aprecia e te louva, sobrepondo-te à vida e te quer tão bem que sempre te chama e volta os olhos a ti como à sua maior esperança”. 203

Tão sedutora a morte, que na Idade Moderna seu espectro “vai assombrar a literatura. A morte, até então mais ou menos envolta nos temas mágicos que a exorcizavam, ou contida na participação estética, ou camuflada sob o véu da decência, aparece nua. Como o filósofo, o escritor “de crise” passa às confissões, e diz a seu modo: “Quanto a mim, há muitos anos, a morte vem apodrecendo toda alegria” (Rosny Aîné). Obras inteiras, como as de Barrès, Loti, Maeterlinck, Mallarmé, Rilke, serão marcadas pela obsessão da morte”. 204 E isso no mundo todo. Ela tem o condão de produzir literatos. Entre nós, o maior deles, Machado de Assis, escreveu Memórias póstumas de Braz Cubas.

O médico Dráuzio Varella considera a morte a maior contradição enfrentada pelo homem. Mais do que um conceito, o fim da vida é um dilema real e constante para o oncologista que atuou por duas décadas no Hospital do Câncer de São Paulo. Conviver com doentes terminais não facilita contemplar a morte em seus livros: “Nunca nos acostumamos. Isso é torturante, mas é inerente à profissão. Acho que escrever ajuda a refletir sobre isso, a nos conhecermos e a lidarmos melhor com essas situações”. 205

O escritor, ser humano sensível, se choca diante das providências a serem tomadas quando a morte chega. Não bastasse a dor, quem fica se vê obrigado a contratar funerária, a escolher e a comprar caixão. Enoja-o o Mercado da morte. Chega a indagar: será que não estamos exagerando ao delegar a um esquema impessoal e que atua profissionalmente, o cuidado dos nossos mortos?

Nelson Rodrigues traduziu com fina ironia e certo humor as transformações que o fato da morte veio a sofrer nas últimas décadas. No texto O craque na capelinha, lembra que antigamente armava-se na casa do falecido a “Câmara ardente”. Escancaram-se portas e janelas. Dava ideia de que ali se comemorava aniversário, casamento, ou... velório. Hoje o espaço é alugado. Asséptico e neutral. Nada diz da vida que o morto viveu. Isso não dificulta o luto? O luto é uma fase essencial que não pode ser negligenciada pelos que sobrevivem. Os rituais fúnebres revelam o nosso jeito de lidar com a morte.

Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura em 1981, durante toda a vida refletiu e escreveu sobre a morte. Observa que a partida de uma pessoa querida nos machuca e temos necessidade de que outros se solidarizem conosco. Ainda que estes outros não conhecessem o falecido:

É impossível calar-se sobre uma morte. A gente exige um coro de lamentadores, e como não há nenhum, nós o compomos por meio de cartas escritas para longe.

Mas o peso da dor pelo morto é tão grande que não se escreve apenas para pessoas que o conheciam; a gente exige também de todas as pessoas que conhecemos que honrem a sua memória. A gente lhes apresenta o morto a posteriori; o melhor que se pode dizer dele lhes é narrado. A gente torna bem claro o quanto ele nos significa e faz uma espécie de pressão sobre elas. Ai delas, se o morto não lhes significa muito também. Secretamente, torna-se a continuação da amizade dependente da sua reação a essa notícia de falecimento. A gente as testa, as olha com desconfiança, cada palavra da sua reação é colocada na balança, e quando se a considera leve demais se as bane impiedosamente; elas jamais podem ser parte de nós outra vez”. 206

Aldous Huxley igualmente namorou a morte. Em sua filosofia perene, lembrou que “santo é aquele que sabe que cada momento de nossa vida humana é um momento de crise; pois a todo momento somos chamados para tomar uma decisão muito importante – escolher entre o caminho que leva à morte e à treva espiritual e o caminho que leva à luz e à vida; entre interesses exclusivamente temporais e a ordem eterna; entre nossa vontade pessoal, ou a vontade de algumas projeções da nossa personalidade, e a vontade de Deus”. 207

Pascal Mercier, pseudônimo do suíço Peter Bieri, que vive em Berlim e é professor de Filosofia, faz interessante abordagem sobre a morte em seu romance Trem noturno para Lisboa. 208 Como o enredo envolve recuperar vestígios da passagem terrena de um escritor português já falecido, inúmeras as passagens em que finitude e morte são contempladas. Num dos textos do personagem Amadeu de Prado, que sabe ser portador de um aneurisma, lê-se: “Nada. Aneurisma. Qualquer instante pode ser o último. Sem o mínimo pressentimento, no mais completo desconhecimento, vou transpor uma parede invisível atrás da qual não existe mais nada, nem sequer a escuridão. O meu próximo passo pode muito bem ser o passo através dessa parede. Não seria ilógico sentir medo disso, uma vez que nem vou mais vivenciar esse súbito apagar e sabendo de antemão que tudo é assim mesmo?”. 209 Sentimento que poderia ser vivenciado por qualquer pessoa, independentemente de aneurisma. Reflete algo de Epicuro, para quem o ser vivo não se defronta na verdade com a morte. Se ela vem, já não sou. Enquanto sou, ela não é.

Embora agnóstico, o fictício Amadeu de Amaral é descrito como um “sacerdote ateu” quando fala sobre religião, o grande e insubstituível conforto para os mortais: “Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso da sua beleza e da sua transcendência. Preciso delas contra a vulgaridade do mundo. Quero erguer o meu olhar para seus vitrais brilhantes e me deixar cegar pelas cores etéreas. Preciso do seu esplendor. Preciso dele contra a suja uniformidade das fardas. Quero cobrir-me com o frescor das igrejas. Preciso do seu silêncio imperioso. Preciso dele contra a gritaria no pátio da caserna e a conversa frívola dos oportunistas. Quero escutar o som oceânico do órgão, essa inundação de sons sobrenaturais... Amo as pessoas que rezam. Preciso da sua imagem. Preciso dela contra o veneno traiçoeiro do supérfluo e da negligência. Quero ler as poderosas palavras da Bíblia. Preciso da força irreal de sua poesia. Preciso dela contra o abandono da linguagem e a ditadura das palavras de ordem. Um mundo sem essas coisas seria um mundo no qual eu não gostaria de viver”. 210 No entanto, esse fervor é mais estético do que poderia denunciar transcendência. Pois ele fustiga o anseio à imortalidade: “Quem é que realmente quer ser imortal? Quem quer viver por toda a eternidade? Como deve ser tedioso e vazio saber que não tem a menor importância o que acontece hoje, este mês, este ano, pois ainda sucederão infinitos dias, meses anos. Infinitos no sentido literal da palavra”. 211 Mesmo assim, a juventude se considera imortal. “Na juventude vivemos como se fôssemos imortais. A consciência da mortalidade nos rodeia como uma delicada fita de papel que mal toca a nossa pele. Quando, na vida, isso muda? Quando é que a fita começa a nos apertar, até nos asfixiar, no fim? Em que percebemos a sua pressão suave, porém inflexível, que nos faz saber que nunca mais se suavizará? Como é que reconhecemos isso nos outros? E em nós próprios?”. 212

A morte é um lindo desafio. “É a morte que confere ao instante a sua beleza e o seu pavor. Só através da morte é que o tempo se transforma num tempo vivo”. 213 O que não impede sentir o medo da morte, ante suas sombras desconcertantes, a reforçar a consciência nítida da finitude.

A escritora americana Joan Didion, a partir da morte do marido, escreveu O ano do pensamento mágico e com ele ganhou o prêmio National Book para livros de não ficção. Seu relato comovente sobre essa mudança repentina, quando a vida que se conhecia acaba de repente, vendeu quinhentos mil exemplares assim que lançado em novembro de 2005. Foi encarar a morte de frente e partilhar sua experiência com os leitores que permitiu a ela sobreviver a dias, semanas e meses de dor e desespero. Reagiu de forma automática à morte do marido, que presenciou e que não era esperada. Chamou o pronto-socorro, foi com ele ao hospital, entregou a documentação e esperou que os médicos dissessem o que ocorria. “Ele morreu, não é? – eu me ouvi dizendo ao médico. O médico olhou para o assistente social. – “Tudo bem – disse o assistente social – Ela é uma cliente bastante equilibrada”. 214 O pior viria depois: acostumar-se com a ausência do companheiro. O traumatismo paralisou-a, não era sensatez ou equilíbrio. Não há como enfrentar a morte sem se traumatizar.

O encontro com a morte às vezes favorece a literatura. Como ocorre com aqueles que, originalmente destinados por seus pais ao estudo da medicina, se desiludem com o trato dos restos mortais e preferem escrever. É o que aconteceu com Antonio Lobo Antunes. 215 Nunca apreciou estudar. Estava sempre pensando em escrever. Sua inclinação era cursar letras, mas o pai o queria na medicina. Chocou-se. “Os primeiros tempos eram só cadáveres, cadáveres, cadáveres. Para mim, a morte não existia. Era o filho mais velho dos filhos mais velhos. Quando nasci, minhas avós tinham 40 anos. Então os mortos eram senhores de bigode nos retratos”. 216

O médico e poeta cearense Antonio Mourão de Cavalcante, que participou de um Café filosófico, 217 lembrava que desde os hospitais, em que ela ronda e ainda não chegou, a humanidade procura ocultar a morte. Há uma explicação para isso. O hospital é o lugar em que se procura conservar a vida. E a morte é o contrário disso. Daí a tentativa de se esconder o velório. Distanciado, em níveis inferiores, sob argumento de que o acesso é facilitado e o caixão tem de sair por um espaço não complicado. O local de depósito do corpo, o lugar de acolhimento do defunto é extraordinário. Quase escondido. No nordeste é hábito se enrolar o corpo no último lençol do leito em que o paciente morreu para se fazer um verdadeiro pacote, à espera do transporte ao local do velório e sepultamento. Após passar por uma doença bastante séria, escreveu o poema O velho lençol da enfermaria, em que analisa o rito. Lembra que o velho lençol hoje parece fatigado em manchas. O último serviço fez-se embrulho. Pacote lacrado, envolvendo o corpo. O lençol acha que é destino.

Alguns escritores há que guardam intimidade com a morte em sua obra. O americano Philip Roth, sempre anunciado como futuro ganhador do Nobel em Literatura, encara de frente essa perspectiva cada vez mais próxima. Ele está na faixa dos oitenta, o que significa não dispor de muitos anos pela frente. Já narrara a longa enfermidade do pai e intensificou sua preocupação com a morte, presente ainda que metaforicamente, em suas últimas obras. Morte do desejo, morte da virilidade, morte da autoconfiança, morte de Deus, foram temas de quatro livros recentes: Homem comum, Fantasma sai de cena, Indignação e A humilhação. A última obra publicada, Nemesis, também fala da morte e o faz contemplando-a como ameaça a toda uma coletividade. O livro narra o pânico em Newark, cidade natal de Roth, ao final da Segunda Grande Guerra, ante o surto de poliomielite. Ainda não se vislumbrava a cura e não se conhecia a causa da doença. Como em outros livros, Roth é a voz serena e experiente a desfazer a permanente ilusão infantil de que a morte poderá não chegar.

Em Homem comum, a morte permeia toda a narrativa. O personagem não conseguia entender de onde vinha o medo e precisava de todas as suas forças para ocultá-lo. Por que estaria inseguro sobre sua vida, justamente quando a dominava mais do que em qualquer outro momento dos últimos anos? Por que se imaginava próximo da extinção quando um raciocínio tranquilo e objetivo só poderia sugerir que ainda tinha muita vida sólida pela frente? Era o medo intuitivo da morte. Logo no primeiro capítulo, todos estão em volta à sepultura para um enterro: “(...) é justamente o que há de normal nos funerais o que os torna mais dolorosos, mais um registro da realidade da morte que avassala tudo. Minutos depois, todos já haviam ido embora – cansados, chorosos, deixando para trás a atividade menos atraente a que se entrega a espécie humana (...)”. 218 Enterrar seus mortos. Por sinal que Roth, que acaba de completar oitenta anos, 219 tem pensado nela: reconhece ter de enfrentar duas grandes calamidades enquanto lida com as exigências da velhice. Uma é a sua morte. A outra, a sua biografia. “Vamos esperar que a primeira chegue primeiro.” 220

A morte comparece à obra de quase todos os escritores. Lygia Fagundes Telles, por exemplo, a inclui em inúmeros contos. Em As formigas, fala-se de um esqueleto de anão. 221 Esqueleto: o que sobra após a morte. Em “WM”, novamente a morte: “No fim desse mês mamãe morreu. A amiga atriz foi visitá-la e a encontrou caída no banheiro, segurando o vidro de pílulas... Ficamos no velório de mãos dadas, falando em voz baixa sobre mamãe”. 222 Um sonho com a morte está em A mão no ombro: “Tantas vezes pensara na morte dos outros, entrara mesmo na intimidade de algumas dessas mortes e jamais imaginara que pudesse lhe acontecer o mesmo, jamais. Um dia, quem sabe? Um dia tão longe, mas tão longe que a vista não alcançava essa lonjura, ele próprio se perdendo na poeira de uma velhice remota, diluído no esquecimento”. 223

Um paciente com medo da morte é o personagem de A consulta. 224 E o pretenso médico o empurra para o suicídio. José Castello narra um episódio real, em que Lygia achou que fosse morrer e observa: “É doloroso aceitar o frágil limite que separa o medo da morte e a paixão pela literatura. ‘Vivemos tempos estranhos, em que amor e morte se confundem’, ela me diz, interrompendo seu relato. Tenta aplicar no mundo uma ideia que, na verdade, diz respeito apenas a si. É do medo da morte que nascem os grandes escritores, pensa. É desse fio insignificante que separa o espanto da coragem que a literatura se alimenta”. 225

Sempre a morte, a impregnar suas páginas. No livro Invenção e memória, “mais memória do que invenção”, ela observa, um dos textos é Suicídio na granja: “Suicídio por justa causa e sem causa alguma e aí estaria o que podemos chamar de vocação, a simples vontade de atender ao chamado que vem lá das profundezas e se instala e prevalece. 226 O clássico Antes do baile verde transcorre à espera da morte. Tema que Chico Buarque explorou e transformou em seu festejado Leite derramado: “Agora preciso dos meus anestésicos, minhas dores no peito voltaram a se agravar, sinto que desta noite não passo. Se houver algum padre por perto, mande-o vir me confessar, pois vivo em pecado desde o dia em que conheci minha mulher. Não sei se já lhe contei como pecava em pensamento até dentro da igreja, no tempo em que ainda ia à missa, mas sou batizado e tenho direito à extrema-unção”. 227 Em Natal na barca, da grande Lygia, a morte é o evento central, numa narrativa em que não se sabe se ela é real ou imaginária, se ocorreu ou não o milagre que se intui. 228 O conto Venha ver o por do sol ocorre dentro de um cemitério e a morte é um dos personagens centrais.

Rachel de Queiroz falou muitas vezes de morte. Na crônica Morrer sonhando, ela brinca: “Sempre me sinto entre a vida e a morte, mais para a morte do que para a vida, neste calor medonho do verão do Rio”. E termina, ao afirmar sua preferência pelo frio como forma de o mundo se acabar: “A gente vai se encolhendo, se amontoando uns contra os outros, tiritando, batendo o queixo. E aí, sendo o frio cada vez mais forte, baixa aquela sonolência; e se adormece e se morre sonhando”. 229

Outro grande cronista brasileiro que não se descuida de contemplar a morte é Carlos Heitor Cony. Em Morte no avião, 230 depois de discorrer sobre o conforto e a sofisticação de um avião em voo internacional, não mais do que de inopino, ele escreve: “Aí o troço cai. E de repente o por do sol de nada consola, honra ou eleva. As nuvens não atenuam a sua queda, o seu uísque também de nada lhe adianta, nem os vinhos das generosas vinhas do Reno ou do Ródano. No dia seguinte o seu nome estará entre os das vítimas e os seus parentes receberão um hipotético seguro e um saco de lona contendo os seus restos carbonizados”.

Euclides da Cunha, que viu a morte de perto ao acompanhar a carnificina de Canudos, viria ele mesmo a enfrentar uma tragédia, reiterada em relação ao filho que quis vingá-lo e igualmente acabou assassinado. Temperamento difícil, acabrunhado e deprimido, talvez pressentisse a morte, algo que nunca chegou a compreender: “Não compreendo a morte, palavra. É uma sombra que passa e repassa na outra margem, sombra que a gente avista e não sabe o que é...”. 231 Muito comum que ela esteja no próprio título do livro, como o sugestivo Minha mãe se matou sem dizer adeus, de Evandro Affonso Ferreira, 232 em que o autor narra a experiência de uma separação que não aceita e tem pulsão por presentificar a mãe ausente. O livro Se um de nós dois morrer, de Paulo Roberto Pires, 233 desenvolve uma trama em que a jovem Sofia recebe missiva com instruções póstumas do namorado. Ele foi um autor frustrado, Theo, e espera que ela entregue a Vila-Matas, um escritor que ele odiava admirar, fragmentos da obra que ele em vida não soube traduzir em romance. Em La Tombe du Divin Plongeur (O túmulo do divino mergulhador), Claude Lanzmann escreve sobre Roland Barthes, que faleceu em 1964, num atropelamento que todos consideram suicídio. Barthes foi alguém que acusou profunda emoção ante a morte da mãe. Em “A Câmara Clara”, fala de suas relações com a memória e a morte da mãe, Henriette, com quem morou até à morte dela. Três anos depois, ele pratica o suicídio, sem conseguir administrar a perda materna. 234

Uma abordagem interessante é a de Patrícia Cornwell, no livro Post Mortem. 235 A personagem é a médica legista Kay Scarpetta, que se preocupa em proteger as vítimas cujos cadáveres precisa examinar. Diante do corpo assassinado de Lori Pettersen, a médica sensível mostra seu inconformismo: “Os mortos são impotentes e a violação daquela mulher, como a de qualquer outra, mal começara.” 236

Em A Invenção da Solidão, Paul Auster relata o impacto emocional causado pela morte de seu pai. Morreu subitamente. Era uma pessoa saudável e tais partidas geram angustiante perplexidade. O autor experimentou o quão difícil era falar de uma pessoa ausente e querida. 237

A poesia é pródiga ao contemplar a morte. O triunfo da morte é o tema central dos sonetos de Petrarca para Laura. Nem sempre a morte vem explicitada no poema. Muitas vezes surge sob a forma de metáfora, mas é de imediato identificável, como se verifica nos versos de Gerald Manley Hopkins, no poema Spring and fall: to a young child:

Margaret, você está lamentando

A queda das folhas de Goldengrove?

É a desgraça para a qual o homem nasceu

É por Margaret que você está chorando”. 238

O grande Yeats também sucumbiu a mirar a morte em sua poesia. O título do poema não poderia ser mais objetivo: Morte.

Nem o medo nem a esperança acompanham

Um animal moribundo:

O homem aguarda o fim

Temendo e esperando tudo;

Muitas vezes morreu,

Muitas vezes se levantou de novo.

Um grande homem em seu orgulho

Enfrentando homens sanguinários

Escarnece da suspensão da respiração

Conhece a morte a fundo

O homem criou a morte”. 239

A poesia produz o encantamento de vincular a morte ao renascimento espiritual. Eliot conseguiu demonstrá-lo no poema Journey of the magi, em que um dos três Sábios tem a fala que segue:

Tudo isso foi há muito tempo, eu me lembro

E o faria de novo, mas escreva

Isto escreva

Isto: fomos conduzidos por todo aquele caminho para

O Nascimento ou a Morte?

Houve um nascimento, por certo,

Tivemos a prova e nenhuma dúvida.

Eu vira o nascimento e a morte.

Mas julgara que fossem diferentes;

este Nascimento foi

Uma dura e amarga agonia para nós, como a morte, a nossa morte.

Regressamos aos nossos sítios, esses Reinos

Mas já não à vontade aqui, no velho descarte

Com um povo estranho deitando a mão a seus deuses.

Eu gostaria de outra morte”. 240

O luto já foi objeto poética, assim como se vê no poema de Mary Oliver:

(...) Para viver neste mundo

você precisa ser capaz de fazer três coisas:

amar o que é mortal;

apertá-lo

contra seus ossos sabendo

que a sua vida depende disso;

e quando chegar a hora de deixar ir,

deixar ir”. 241

John Donne (1572-1631), grande bardo inglês, poetou contra a morte. Influência, sem dúvida, de sua tradição católica, onde o sustentáculo da fé reside na ressurreição de Jesus Cristo. Sem ela, vã seria a nossa fé, proclama São Paulo. O soneto de Donne é bastante conhecido:

Oh! Morte, que alguns dizem assombrosa

E forte, não te orgulhes, não és assim;

Mesmo aquele a quem visastes o fim,

Não morre; não te vejo vitoriosa.

Vens em sono e repouso disfarçada,

Prazeres para os que tu surpreendes;

E o bom ao conhecer o que pretendes

Descansa o corpo, a alma libertada.

Serves aos reis, ao azar e às agonias,

A ti, doença e guerra acasalam;

Também os ópios e magias nos embalam,

Como o sono. De que te vanglorias?

Um breve sono que a vida eterna traz,

Golpeia a morte. Morte morrerás!”.

Emily Dickinson (1830-1886), a original poeta norte-americana, compôs instigante metáfora sobre a morte:

Beleza e verdade

Morri pela beleza, mas apenas estava

Acomodada em meu túmulo,

Alguém que morrera pela verdade

Era depositado no carneiro contínuo.

Perguntou-me baixinho o que me matara:

A beleza, respondi

A mim, a verdade – é a mesma coisa,

Somos irmãos

E assim, como parentes que uma noite se encontram,

Conversamos de jazigo a jazigo,

Até que o musgo alcançou os nossos lábios

E cobriu os nossos nomes”. 242

Mas a morte sempre se hospedou na poesia lusitana. Basta ler o:

Autoepitáfio de Gil Vicente

O grão juízo esperando,

Jazo aqui nesta morada,

Também da vida cansada/

Descansando

Pergunta-me quem fui eu:

Atenta bem para mim/

Porque tal fui como a ti/

E hás de ser como eu.

E pois tudo a isto vem/

Oh, leitor de meu conselho,

Toma-me por teu espelho,

Olha-me e olha-te bem. 243

Um dos maiores líricos brasileiros, Gonçalves Dias, o poeta de Ainda uma vez, adeus!, infeliz no amor, chegou a clamar pela morte:

Que faço aqui? Dias cansados, anos

Sem fim – durar!

Depois que te perdi, viver ainda,

Viver! penar!...

Eu, não! Quem for feliz, que preze a vida,

Tema perdê-la!

Por mim, não tenho horror, nem tédio à morte,

Clamo por ela!” 244

Hilda Hilst, de vasta produção poética, em Cantares de perda e predileção produziu:

XV

Para poder morrer

Guardo insultos e agulhas

Entre as sedas do luto.

Para poder morrer

Desarmo as armadilhas

Me estendo entre as paredes

Derruídas.

Para poder morrer

Visto as cambraias

E apascento os olhos

Para novas vidas.

Para poder morrer apetecida

Me cubro de promessas

Da memória.

Porque assim é preciso

Para que tu vivas”. 245

Metaforicamente, creditava à literatura o poder de ressuscitar:

Mortos? O mundo.

Mas podes acordá-lo

Sortilégio de vida

Na palavra escrita.

Lúcidos? São poucos.

Mas se farão milhares

Se à lucidez dos poucos

Te juntares”. 246

A morte em metáfora aparece até em literatura originalmente destinada a um leitor criança ou jovem. Verdade que os livros considerados infantis são às vezes mais adultos do que muita literatura feita por autor maduro. Mas em A ética do rei menino, Gabriel Chalita fala em certo pântano: “o lugar que não existia. O lugar que fazia esconder toda a beleza, a essência da criatura. ...uma interminável escuridão”. 247 Mas não hesita em fitar diretamente a morte do pai: “(...) no dia em que ele morreu, brincamos um pouco antes, no hospital, de ver quem tinha a maior mão. Novamente, encolhi um pouco a minha para que ele ganhasse. Do alto dos seus 84 anos, ele me disse: “Filho querido, eu sei que a sua mão é muito maior do que a minha, mas isso não é um problema para mim, ao contrário”. 248

Para Chalita a vida é dual. Portanto, nela se insere também a morte. Contemplada no ritual do enterro em Estações:

O cortejo, desta vez, é de luto. Em outros tempos, a conversa versava sobre outro mais alegre dizer. Agora, há uma melancolia algo curiosa na comitiva que faz parada final ali, logo ao lado da Igreja Matriz. Soluços, lágrimas, alguns comentários de quase valente contrariedade em relação à decisão superior que comandou a morte. Mas que não chegam a ser reprovação. Até porque nem é momento de confessar estranhamento pela curta passagem – sempre curta.

Lamúrias acentuam que o céu prematuramente arrebatou mais um. E há incerteza. Mas não sobre o que há de superior.

Que existe céu, todos os que se põem na atitude de respeito, perante o viajante, concordam. Não é possível que tudo termine assim.

Encontrará este os outros que já foram? Com este nos encontraremos depois?

Do vale, não se vê o mar. É preciso viajar. Deixar coisas e partir. E aí a surpresa. E o encantamento – a eternidade”. 249

Entre os poetas pátrios, prolífica a produção poética sobre a morte. Para iniciar com os românticos, quem não se recorda do soneto Morrer... dormir de Francisco Otaviano: 250

Morrer...dormir

Morrer... dormir... não mais! Termina a vida,

E com ela terminam nossas dores;

Um punhado de terra, algumas flores,

E, às vezes, uma lágrima fingida!

Sim! minha morte não será sentida;

Não deixo amigos, e nem tive amores!

Ou, se os tive, mostraram-se traidores,

Algozes vis de uma alma consumida.

Tudo é podre no mundo. Que me importa

Que ele amanhã se esbroe e que desabe,

Se a natureza para mim é morta!

É tempo já que o meu exílio acabe...

Vem pois, ó Morte, ao Nada me transporta!

Morrer... dormir... talvez sonhar... quem sabe?”.

Álvares de Azevedo, 251 outro romântico da segunda geração e integrante da Escola de Morrer Cedo, tem pelo menos duas poesias clássicas sobre a morte. A primeira é Lembrança de Morrer, cujos primeiros versos prenunciam a tristeza que o acometia ante a certeza da morte precoce:

Quando em meu peito rebentar-se a fibra

Que o espírito enlaça à dor vivente,

Não derramem por mim nem uma lágrima

Em pálpebra demente”.

A segunda é muito mais conhecida e igualmente melancólica:

Se eu morresse amanhã!

Se eu morresse amanhã, viria ao menos

Fechar meus olhos minha triste irmã;

Minha mãe de saudade morreria

Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!

Que aurora de porvir e que manhã!

Eu perdera chorando essas coroas

Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva

Acorda a natureza mais louçã!

Não me batera tanto amor no peito

Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora

A ânsia da glória, o dolorido afã...

A dor no peito emudecera ao menos

Se eu morresse amanhã!”.

Muitos outros românticos dedicaram sua lira à morte. Citem-se Laurindo Rabelo com O gênio e a morte, Castro Alves, com Mocidade e morte e Fagundes Varela, com o seu pungente Cântico do calvário, dedicado à memória de seu filho morto a 11.12.1863.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999) eternizou a frase “meu lugar é onde estão meus mortos” e já brindara a humanidade com sua imortal Morte e vida e severina. Quem consegue esquecer frases como “No fim de tudo um poço cego me fita. Difícil pensar nele. Um passeio de um dia. Passeio sem volta. Por estreita que seja” (Auto do Frade-1984).

A poesia cabralina comprova que a morte se inscreve na vida. Faz parte da vida recalcitrante do nordeste.

João Guimarães Rosa (1908-1967), um dos mais completos escritores brasileiros, foi quem disse que as pessoas não morrem: ficam encantadas. Isso não é prosa poética? O asserto, já antológico, foi feito em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, cerimônia tão adiada. Três dias após a posse, ele mesmo se encantou. Ele que dissera: “Morreu com modéstia. A gente morre é para provar que viveu”.

Sobre essa morte falou Carlos Drummond de Andrade, no poema Um homem chamado João, no qual se refere à figura roseana, “um vegetal ou passarinho sobre a robusta estatura”. O mesmo Drummond que nos legou o candente “cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte, depois morreremos de medo e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”. Antes disso, no poema Queda, ele rezava: “A tarde cai. Nós caímos na tarde. Numa antecipação de morte sem dor”.

Guimarães Rosa, em Grande sertão veredas, já fornecera, poeticamente, um exemplo de amor: aquele de Diadorim por Riobaldo, que consistia num desejo que não se podia sentir. Foi preciso que a morte chegasse para que esse amor pudesse ganhar vida. Por que se espera a morte do amado para se dizer que ama?

É de Manuel Bandeira (1886-1968) a célebre expressão “quando a indesejada das gentes chegar”, quando ele diz “O meu dia foi bom. Pode a noite descer” (Consoada-1952). Em A morte absoluta (1940), ele falou em “morrer de corpo e alma, morrer completamente”. Em Preparação para a morte, ele diz: “A vida é um milagre. Cada flor, com sua forma, sua cor, seu aroma, cada flor é um milagre (...)” Para terminar: “Tudo é milagre. Tudo, menos a morte. – Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres”. 252

Morremos assim tão completamente? Ou teria razão Drummond ao afirmar: “de tudo fica um pouco?” (1945)

Por que não ficaria um pouco de mim, se a morte é a indesejada das horas, mas sabe-se que ela chegará para todos?

Adélia Prado também produziu uma obra poética em que a alma desce aos infernos e se encontra em situação aparentemente sem saída:

A treva

Me escolhem os claros do sono

engastados na madrugada,

a hora do Getsêmani.

São suas claras visões,

às vezes pacificadas,

às vezes o terror puro

sem o suporte dos ossos

que o dia pleno me dá.

A alma desce aos infernos,

a morte tem seu festim.

Até que todos despertem

e eu mesma possa dormir,

o demônio come a seu gosto,

o que não é Deus pasta em mim”.

A inolvidável Esther de Figueiredo Ferraz legou à posteridade este primor de poema:

Quando eu me for...

Quando eu morrer, aquilo que era meu

A que mãos irá ter? A que dedos

Dar-se-ão as chaves dos segredos

Que são a própria essência do meu eu?

Retratos, livros, flores já sem cor,

Cartas de amor trocadas que guardei,

Versos que fiz e nunca revelei,

Quem os verá, Deus meu, quando eu me for?

As coisas que eu amei, este cenário

Composto de relíquias e lembranças,

Quem o destruirá? Que rudes lanças

Irão deitar por terra o meu sacrário?”.

Entre os poetas contemporâneos, Ives Gandra da Silva Martins escreveu durante um voo de São Paulo a Fortaleza, em 03.09.2008, o seu poema

A morte e o seu sentido

A morte que sentido, na existência,

Aos seres descortina, todo o dia?

Vivem todos envoltos na demência

Que jamais restarão na laje fria.

A busca desmedida em ser alguém,

Disfarça, alcandorada, a própria sorte

E a vida inteira passa e a noite vem,

Condenados, esquálidos, à morte.

Só quem, no fim, percebe a eternidade,

Sentido vai, no tempo, descobrir.

E seu rastro haver igual não há-de,

Pois, mais que a si, visou outros servir.

Que cada ser, no espaço recebido,

Saiba dar à existência seu sentido”.

E Paulo Bomfim, o Príncipe dos poetas brasileiros, sempre teve lugar, em sua poesia e em sua prosa poética para a morte. Em seu livro de estreia, Antonio triste, a morte já foi contemplada. E em sua obra mais recente, Diário do anoitecer, 253 inúmeras as passagens em que ela comparece:

No cemitério os mortos estendem aos vivos a flor do silêncio.

A mulher criadora da vida é também a inventora da morte.

Enquanto pensamos na morte, nossos mortos pensam em nós para viver.

Ah, o pudor da morte, esse parto da alma!

Adotamos a raridade de certos momentos. Temos filhos com a vida, somos amantes da morte.

Não choremos os que partiram com sobranceria nas feições e a missão cumprida sob os olhos cerrados. Choremos os que fizeram de si objetos de transação com os senhores da terra e os senhores do céu.

Precisamos ir dispensando hábitos vulgares para que os mortos nos reconheçam e aceitem a volta dos filhos pródigos.

Um réquiem para os mártires de todas as causas, para a inocência dos que a perderam, para a ternura que expirou nos bordéis, para os bichos trespassados, para as árvores abatidas, para a esperança que foge.

Toda moda é mortal porque faz escravos.

O tio morto chega até o sonho e entrega as chaves do casarão da infância. Sou chuva pelas escadas e vento que abre as portas para pedir a benção.

Toda a vaidade será desfeita em pó, ainda assim orgulho-me de ser um morto em potencial.

Os retratos dos avós são espelhos onde vivos e mortos se reconhecem.

Somos todos substituíveis e prescindíveis porque outras floradas precisam cobrir a árvore da vida e a natureza profanaria o ritmo universal se se detivesse na adoração de um só fruto.

É preciso que eu me parta para que sementes possam chegar à terra onde ventos nascem e chuvas são verdades expulsas das nuvens.

As coisas demasiadamente perfeitas nos arrepiam como se pressentíssemos a chegada da morte.

Doamos nossa emoção ao porvir, aos séculos de máquinas pensantes onde somente a arte poderá suprir o grande vazio. Acondicionamos entre palavras de paina e invólucros de cristal o sangue de nosso amor. Que ele alimente aqueles que caminharão sobre a poeira que seremos.

O medo da morte é que nos torna mortais.

Será que uma luz se acenderá quando apagarmos?

O sol torna morena a ideia de morrer.

Morrerei à espera da ressurreição de meus pecados.

O suicídio é uma forma de homicídio. Mata-se o outro que nos atormenta.

Na boca da noite a...

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jusbrasil.com.br
3 de Dezembro de 2021
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1212797945/o-que-e-a-morte-pronto-para-partir-reflexoes-juridico-filosoficas-sobre-a-morte-ed-2014