Pronto para Partir? Reflexões Jurídico-Filosóficas Sobre a Morte

Pronto para Partir? Reflexões Jurídico-Filosóficas Sobre a Morte

Preparar-se para a morte

Entre no Jusbrasil para imprimir o conteúdo do Jusbrasil

Acesse: https://www.jusbrasil.com.br/cadastro

2

PREPARAR-SE PARA A MORTE

Sumário: 2.1 Providências de ordem prática: 2.1.1 O destino dos bens; 2.1.2 O corpo depois da morte – 2.2 Providências de ordem psicológica: 2.2.1 Acerto de contas: 2.2.2 Despedidas – 2.3 Coisas a fazer antes de morrer – 2.4 A morte e a criança.

É raro que alguém se prepare para a morte. Convivi com alguém que foi exceção. Minha mãe falou sobre morte continuamente. Possuía numa caixa o vestido com que seria enterrada. Cumprimos sua vontade. Tenho outro amigo que preparou um arquivo no seu computador com todas as providências a serem tomadas por seus filhos à sua partida. No decorrer da história já se produziu literatura destinada a preparar o homem a morrer. Uma das mais célebres obras é a clássica Artes moriendi.

A regra, todavia, tem sido não pensar na morte. Como se ela nunca fora ocorrer. Observância estrita ao conselho de Balzac: “A morte é certa. Esqueçâmo-la”. Um paradoxo, considerado o número dos que se afirmam crentes. A coerência de quem acredita na vida após a morte o obrigaria a encarar este fato com naturalidade. Por isso afirma-se que “o justo anda à espera da morte e prepara-se para ela”. 1 Felizes os que podem saborear a morte como um prelúdio da vida eterna.

Como ninguém sabe o dia, nem a hora, é preciso estar vigilante. Quem é movido pela fé gostaria mesmo de saber quando se aproxima o último momento. Quantas vezes o enfermo terminal sente que ela se aproxima e ouve a generosa tentativa de iludi-lo com a brevidade da cura. Com a melhor das intenções, familiares ou amigos dizem que ele não morrerá. Na verdade, “constitui uma falta de fé e, além disso, um erro não ter a coragem de advertir os doentes de que vão morrer. O que fazemos é enganá-los e impedi-los de se prepararem. Seria ótimo que duas pessoas se entendessem para se avisarem mutuamente”. 2

Para o católico, recomendável que, antevendo o fim, faça o sacrifício de sua vida em união com o sacrifício da missa, oportunidade preciosa de se perpetuar o sacrifício divino na cruz. “Convém, mesmo, que faça assim o seu sacrifício pessoal, pensando nos quatro fins do sacrifício: adoração, para reconhecer a excelência soberana de Deus, autor da vida e senhor da hora da nossa morte; reparação, para expiar todas as faltas passadas; súplica, para obter a graça da perseverança final; ação de graças, para agradecer ao Senhor os inumeráveis benefícios que nos prepara desde a eternidade e que vimos recebendo todos os dias desde o nosso nascimento”. 3

Quem é que poderia hoje sentir-se apto e ter a coragem de repetir, como o fazia São Pio X, o Papa Sarti, a oração cotidiana: “Senhor, qualquer que seja o gênero de morte que vos apraz reservar-me, aceito-a desde já, com todo o coração e boa vontade, aceito-a das Vossas mãos, com todas as suas angústias, penas e dores”.

O não crente não está dispensado de se preparar para a morte. Esta é muito democrática. Não escolhe ao fazer sua colheita. A recomendação de Gilberto Kujawski deve ser levada a sério:

Nunca deveríamos pensar: se vamos morrer um dia, a vida é nada, e nada tem sentido, e sim, o contrário. Se a morte é certa e inevitável, vamos nos preparar para que ela também tenha sentido, assimilando-a ao continuum de nossa vida. Quando a vida é vivida na plenitude do sentido, podemos dar sentido, inclusive, ao que não tem sentido, à morte que se avizinha. Dar sentido à morte significa saber aceitá-la. Cada um com sua fórmula, dentro do possível. Aceitar seu fim conversando, como Sócrates. Ou rezando, confessando suas faltas, quando se é religioso. Ou ditando seu testamento in extremis. Ou recolhendo-se ao silêncio. Ou afastando-se para um local de eleição, se houver tempo e condições”. 4

Discutir a morte e se preparar para enfrentá-la é tema de curso de extensão que a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo ministra tanto para profissionais da saúde como para o público leigo. Chama-se Tanatologia – Educação para a morte – Uma abordagem plural e interdisciplinar. 5 Os módulos previstos são atitudes religiosas, atitudes filosóficas, atitudes científicas, atitudes pedagógicas, atitudes estéticas. Painéis interdisciplinares: “É possível uma educação para a morte? Mídia e morte. Perspectivas histórico-culturais da morte. A criança e a morte: visão da educação, visão da psicologia e medicina. A comunicação com o paciente moribundo e a família. Perspectivas ético-jurídicas da morte: eutanásia, distanásia, ortotanásia. O médico diante da morte. Luto. Doação de órgãos. Suicídio. Dessa experiência já resultou ao menos um livro: A arte de morrer – Visões plurais”. 6 Também a PUC-Campinas, na Faculdade de Teologia e Filosofia desenvolveu uma investigação científica sobre a morte, a partir da linha A morte: uma visão multidisciplinar, pelo grupo de pesquisa Ética Aplicada. Dele resultou o livro Morte: qual seu significado, coordenado por José Trasferetti. 7

O cuidado com os enfermos terminais também se intensificou e hoje não é herético abordar-se o que fazer para posicionar o paciente em relação ao que virá, ao que é previsível tenha de suportar até o final.

Já se constatou haver “muitas razões para se fugir de encarar a morte calmamente. Uma das mais importantes é que, hoje em dia, morrer é triste demais sob vários aspectos, sobretudo é muito solitário, muito mecânico e desumano”. 8 É o que explica a maioria das reações esboçadas pelos pacientes quando cientificados de que vão morrer. Os estágios empiricamente verificados têm início com a negação e isolamento, depois a ira, a barganha, a depressão e a aceitação. Em todas essas fases, a solidariedade se faz essencial.

Às vezes, basta segurar as mãos do moribundo e ele sentirá o carinho que se pretende transmitir e que as palavras se mostram incapazes de fazê-lo. Gestos, olhares, presença, conseguem aquilo que o pobre instrumento da comunicação verbal não obteve. Com a experiência adquirida nessa área, Elisabeth Kübler-Ross ensina: “Aqueles que tiverem a força e o amor para ficar ao lado de um paciente moribundo, com o silêncio que vai além das palavras, saberão que tal momento não é assustador nem doloroso, mas um cessar em paz do funcionamento do corpo. Observar a morte em paz de um ser humano faz-nos lembrar uma estrela cadente. É uma entre milhões de luzes do céu imenso, que cintila ainda por um breve momento para desaparecer para sempre na noite sem fim”. 9

As necessidades dos agonizantes são emocionais, práticas e espirituais e Christine Longaker tenta reproduzi-las, com a experiência de quem se dedica a amenizar a situação de pacientes em estado terminal e de auxiliar suas famílias. É preciso também preparo se alguém pretender se devotar a essa missão. Ela não será fácil a quem não se imbuir de amor, paciência, devotamento e disponibilidade. É muito mais fácil trabalhar com a vida plena, com a infância ou com a juventude. Pois “o que posso fazer se meu amigo moribundo insiste em negar a sua morte e não me permite falar sobre ela? Como posso ajudar um paciente que está em coma, ou extremamente confuso em sua demência? O que posso oferecer a alguém que se sente completamente deprimido e desesperado, e se recusa a falar sobre a dimensão espiritual da morte? Como posso responder à situação de partir o coração de uma jovem mãe que precisa deixar para trás crianças pequenas? O que eu digo a alguém que tem tanto medo da deterioração e da dor da morte que está planejando por fim à sua própria vida?”. 10

As situações são múltiplas e muito distintas. Cada uma delas requer um tipo de atuação. Quem se propuser a auxiliar a outrem, nesse momento indecifrável, concluirá que sua dedicação também resultou em aprendizado.

Poucos iluminados teriam a coragem de realizar um “living funeral”, como o professor americano acometido de uma enfermidade progressiva e incurável, que teve a ideia após comparecer ao …

Uma experiência inovadora de pesquisa jurídica em doutrina, a um clique e em um só lugar.

No Jusbrasil Doutrina você acessa o acervo da Revista dos Tribunais e busca rapidamente o conteúdo que precisa, dentro de cada obra.

  • 3 acessos grátis às seções de obras.
  • Busca por conteúdo dentro das obras.
Ilustração de computador e livro
jusbrasil.com.br
19 de Agosto de 2022
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1212797948/preparar-se-para-a-morte-pronto-para-partir-reflexoes-juridico-filosoficas-sobre-a-morte