Pronto para Partir? Reflexões Jurídico-Filosóficas Sobre a Morte

Pronto para Partir? Reflexões Jurídico-Filosóficas Sobre a Morte

Morrer em paz

Entre no Jusbrasil para imprimir o conteúdo do Jusbrasil

Acesse: https://www.jusbrasil.com.br/cadastro

3

MORRER EM PAZ

Sumário: 3.1 O medo da morte – 3.2 O suicídio.

O pretensioso homem contemporâneo foi quem transformou a morte num drama. Na antiguidade, a morte inseria-se na vida. Tanto que não era incomum a sua premonição. Não era necessário ser santo para ter a intuição de que se ia morrer. Philippe Ariès relata inúmeros episódios em que se adivinhava a chegada da morte. E isso não era algo sobrenatural. “A bem dizer, é provável que a distinção que aqui fazemos dos sinais naturais e das premonições sobrenaturais seja anacrônica: a fronteira entre o natural e o sobrenatural era então incerta. Nem por isso deixa de ser notável que os sinais mais frequentemente invocados para anunciar uma morte próxima fossem na Idade Média sinais que hoje diríamos naturais: uma constatação banal, que recaía sobre o sentido, fatos comuns e familiares da vida quotidiana”. 1

Ainda hoje, para as pessoas providas de equilíbrio, que fazem da reflexão um exercício e sabem meditar, a morte não apavora. “A morte certamente nos simplifica e aguça a nossa consciência. Assim talvez não seja uma surpresa que alguém, diante da morte, desprotegido do medo desta e adentrando no total desamparo diante da sua presença, esteja aberto ao relacionamento fundamental de sua existência”. 2

Meditar faz com que se esteja diante da morte a cada dia. “E se estamos diante da morte a cada dia, se nos permitimos morrer um pouco mais a cada dia, então a experiência da morte nos permitirá viver cada dia mais plenamente”. 3 Essa noção de se morrer um pouco por dia é bastante comum no pensamento universal. Mahatma Gandhi costumava dizer: “Cada noite, quando vou dormir, eu morro. E na manhã seguinte, quando eu acordo, eu renasço”. Por óbvio que a crença auxilia um exercício como esse. Mas até o incréu pode se confortar nesse pensamento: “A morte elimina nosso senso de futuro e nos força a nos concentrarmos no momento presente. Para onde mais temos que ir? Quando realmente encaramos a morte, estamos totalmente no momento presente”. 4

Diante do desconhecido, crentes e ateus podem ter o mesmo comportamento. O medo é algo irracional. Por que alguém que se diz religioso se apavoraria em face da morte? Falta a ele a verdadeira fé? E como se explica a serenidade com que outrem, convictamente agnóstico, enfrenta esse mergulho, se ele sabe que nada e ninguém o espera?

Em seu Pequeno Tratado de Vida Interior, Frédéric Lenoir diz conhecer “crentes que têm muito medo da morte, embora sua fé seja profunda. Eles têm medo do desconhecido, o que é perfeitamente compreensível. Conheço outros, muito mais raros, que por sua vez não vivem na angústia, mas na expectativa da morte. Era o caso do abade Pierre, que começou a desejá-la e esperá-la já aos 17 anos. Esse homem aspirava apenas à plenitude da vida eterna, ao encontro amoroso com Deus, muito embora disso não tivesse nenhuma representação possível. Estava convencido de que depois de sua morte não seria mais entravado pelas falhas psíquicas e físicas que nos assoberbam aqui embaixo, de que poderia finalmente desabrochar em sua interioridade, viver o amor em sua plenitude”. 5 Ainda há pessoas que se entregam serenamente à irmã morte. Foi o que aconteceu com o brilhante Bispo de Guarulhos, Dom Joaquim Justino Carreira, 6 precocemente falecido após insidiosa moléstia.

A busca de paz no momento da entrega se vincula com o apego. Afeiçoar-se de maneira fanatizada a coisas materiais e até a pessoas, torna a despedida muito difícil. Desapegar-se aos poucos – sobretudo das coisas materiais – é o início da escalada rumo à tranquilidade.

Mostrar às pessoas amadas o seu amor é benéfico. Sem o desespero da separação, para quem é alimentado pela crença e vê a luz da esperança do reencontro futuro. Mas desapegar-se do controle do ser amado, que não é propriedade sua, mas alguém que tem o caminho próprio e dispõe de autonomia para edificar sua existência, independentemente da continuidade de sua presença.

Christine Longaker, na sua experiência com …

Uma experiência inovadora de pesquisa jurídica em doutrina, a um clique e em um só lugar.

No Jusbrasil Doutrina você acessa o acervo da Revista dos Tribunais e busca rapidamente o conteúdo que precisa, dentro de cada obra.

  • 3 acessos grátis às seções de obras.
  • Busca por conteúdo dentro das obras.
Ilustração de computador e livro
jusbrasil.com.br
10 de Agosto de 2022
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1212797949/morrer-em-paz-pronto-para-partir-reflexoes-juridico-filosoficas-sobre-a-morte