Pronto para Partir? Reflexões Jurídico-Filosóficas Sobre a Morte - Ed. 2014

Enquanto a morte não vem

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ENQUANTO A MORTE NÃO VEM

Há tanto a ser feito para melhorar o mundo. Não é preciso encarar o período final da existência, presumivelmente a ser fruído por idosos, como aquela etapa melancólica referida por Ortega y Gasset. Para o filósofo madrilenho, o paradoxo da modernidade é o empenho de cada qual na luta pela sobrevivência, ocupados todos os dias, minutos e horas com o trabalho, substituído pelo fantasma da ociosidade.

Não se alcançou o período ameno do ócio acenado pelos pensadores mais recentes, com a civilização chamada a gozar dos benefícios do superávit em bens e serviços. A tecnologia de fato alcançou índices inimagináveis. Mas nem todos podem se servir dela. A desigualdade é persistente. Ainda agora, em plena segunda década do século XXI, início do terceiro milênio, apura-se que o Brasil é campeão no ranking das desigualdades sociais.

Mas não é isso que esvazia os últimos anos de existência das pessoas. Vivencia-se hoje uma cultura do trabalho permanente. Os aposentados precisam de uma atividade para preencher seu tempo. Quase sempre, os proventos da aposentadoria são insuficientes a fazer face às despesas acrescidas de quem enfrenta mais vicissitudes, é mais vulnerável e sujeito a achaques próprios à faixa etária.

Mesmo aqueles que se encontram em boa posição econômica, podem e devem se dedicar a outras causas, se tiverem condições de saúde. O mundo inteiro reclama participação das pessoas úteis para cuidar do meio ambiente, dos menores, dos desvalidos, dos enfermos, de todos os portadores de necessidades especiais.

O trabalho é terapêutico. A laborterapia é reconhecida como estratégia utilizada para tratamento de anomalias mentais e para a recuperação de encarcerados. Não é de se descartar a utilidade do trabalho do idoso. Tanto que empresas providas de madura responsabilidade social recrutam empregados na faixa da terceira idade. Auferem, com isso, ganhos também na área do marketing.

Mas nem todos precisam ocupar seus dias com trabalho. Podem viajar – e há tanto a ser visto no mundo! – podem se dedicar a hobbies, ao lazer, à leitura e a tantas outras atividades.

Perseguir velhos sonhos! Fazer o que não houve tempo de realizar, ou que se viu inviável à fase mais adequada. Curtir a família. Há quem tente compensar no cuidado aos netos a carência de que se arrependem por não haver propiciado a devida atenção em relação aos filhos. O consumismo, a competitividade, a urgência em galgar os degraus do êxito profissional, as requisições da vida contemporânea levam muitos pais a só perceberem que falharam quando já estão idosos. Os filhos cresceram desassistidos. Mas agora os filhos são pais. E pais precisam sempre de auxílio na educação da prole. Depois de uma fase em que os avós foram praticamente descartados, vislumbra-se hoje uma recuperação do valor que eles podem oferecer na formação da descendência. São eles os detentores de memória oral imprescindível à retomada de um rumo correto para uma civilização que a angústia jogou ao desvio.

Aqueles que têm saúde muito ganhariam se dedicassem algumas horas para fazer companhia aos enfermos. Estes, por sua vez, precisam receber o conforto da família, dos amigos e de todos os que forem movidos a manifestar sua solidariedade para com quem dela mais necessita.

Enquanto há vida, há esperança, diz a sabedoria popular. Gratificante missão é a de reabastecer de esperança o doente. Sem o amargor de Schopenhauer, que via na ilusão da esperança o disfarce das criaturas que dançam com a morte.

A morte ensina à humanidade que todo prazer é breve e que, ante sua inevitável chegada, não adianta o desespero. O remédio é a resignação. Contra a morte não há argumentos. Se não é fácil compreendê-la, é preciso aceitá-la. “Em condições de existência realmente humanas, a diferença entre uma morte por doença aos dez, trinta, cinquenta ou setenta anos, e um fim “natural”, depois de uma vida realizada, poderia ser uma verdadeira diferença que recompensaria uma luta travada com todas as energias pulsionais. Não são os que morrem que constituem a grande acusação contra nossa civilização e sim os que morrem antes que seja necessário, os que morrem em agonias e sofrimentos atrozes... São necessárias todas as obras e preparações de uma ordem repressiva para acalmar a má consciência que essa culpa dá”. 1 Toda criatura sensível deve ter remorsos em relação às omissões diante das vidas ceifadas abruptamente e das vidas desperdiçadas ou insuscetíveis de alcançar plenitude por falta de qualidade. Se a morte resolve tudo - mors omnia solvit - é imprescindível reagir à sua chegada prematura. Para nós e para os semelhantes. Pois urge viver e viver bem.

Tomemos um novo impulso na revisão de nossos valores. Vida e morte são o nosso Janus existencial: duas faces de uma única realidade. “Para a maioria das pessoas de hoje, conceber a própria vida como dom só é relativamente plausível no plano biológico-orgânico. Todos nós sabemos que não criamos a nós mesmos em nossa existência corporal, mas devemos nossa vida a um ato de geração e a anos de cuidados geralmente da parte de nosso pai e nossa mãe. Em todas as culturas, derivam-se desse fato determinadas normas de gratidão para com os progenitores, a família ou o povo”. 2 O que tem isso a ver com a morte? Tudo. Pois “nas atitudes de hoje frente à morte, essa compreensão da vida como dom geralmente não ganha mais expressão. A razão disso é que a morte hoje muitas vezes é vista apenas como destruição, como aniquilação, como o fim definitivo da pessoa”. 3 As pessoas não são redutíveis a seu corpo. A morte do corpo não significa a morte da pessoa. Para o crente, essa página é virada. Para o não crente, impõe-se responder com a razão e com a convicção de que o ser humano tem dignidade intrínseca, integra uma época e faz história. Não é descartável no decurso do tempo.

A morte é um fato absolutamente pessoal. Personalíssimo. Ninguém pode morrer em lugar do outro. “Apreender a própria morte e vivenciar a absoluta insubstituibilidade pessoal equivalem exatamente à mesma coisa. Assim, o outro nunca pode morrer por mim, mas tampouco posso assumir a morte dele, mesmo que morra em seu lugar; e também esse é um indicador da minha singularidade irredutível”. 4 A morte é o signo mais eloquente da solidão suprema do sujeito.

Pensar na solidão do momento derradeiro inspira uma tomada de posição para o tempo que ainda resta. Com esse, ainda se pode contar! O mesmo não se pode dizer do que já passou. Dos dias em que não agi. “São principalmente estes que suscitam mais deplorações, que têm um travo amargo e pungente. Nunca o homem fica mais desesperado do que no momento em que se dá conta de ter dilapidado os poderes de sua liberdade”. 5 Mas não se deve lamentar demais o passado, que já não pode ser alterado e que viverá somente no relato. A retroação é impossível, porque toda ação está voltada ao porvir. Convençamo-nos: “tudo em nós se dirige para a frente, para o futuro. Assim, Alain, em seu Propos (Considerações), descreve o homem moral como esse bípede cuja posição dos olhos o obriga a olhar para a frente, cuja forma das mãos o força a pegar de preferência o que está na sua frente. Toda a estrutura do homem sugere a ideia de um sentido natural e moral que vai sempre na frente”. 6

Enquanto a morte não vem, cumpre viver. Viver com urgência. Pois “a urgência é uma atitude moral, ativa, viril, que implica um futuro do qual participamos”. 7 Mas viver é também esperar!

Esperar na concepção da virtude teologal da esperança? “Espera-se quando se acredita poder alcançar o que se busca. Desespera-se, quando se acredita que não se pode fazer isto, que nada se pode fazer”. 8 A esperança “indica uma cooperação nascente do homem com a temporalidade. O entusiasmo e o arroubo do coração são necessários para cooperar ativamente com o destino”. 9

Se o homem espera, é por acreditar que pode. E nessa crença há força. Força suficiente para transformar a existência. Quais as forças sobre as quais a esperança coletiva do mundo se apoia para transformar as condições de existência? Jean Lacroix 10 as resume em três: a força técnica, a política e a energia moral.

Diz-se que a técnica é filha da ciência. Antigamente se completava: pouca ciência afasta de Deus; muita ciência Dele nos aproxima. Aos poucos, a ciência procurou apropriar-se do real e considerar como realidade só o que se vê. Há cientista que afirma: “Deus nada explica; mais exatamente, fazer Deus intervir para explicar o mundo é apelar para uma solução fácil a que a honestidade científica não pode recorrer. Isto é o que queria dizer o filósofo Renouvier, com sua célebre frase, frequentemente mal...

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8 de Dezembro de 2021
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1212797951/enquanto-a-morte-nao-vem-pronto-para-partir-reflexoes-juridico-filosoficas-sobre-a-morte-ed-2014