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Depois da morte

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DEPOIS DA MORTE

Sumário: 6.1 A incerteza quanto à eternidade – 6.2 A imortalidade virtual – 6.3 O culto aos mortos – 6.4 O luto.

A grande questão, para a maior parte das pessoas, é saber o que acontece depois da morte. Haverá outra vida? Ou será que tudo termina com a morte?

A morte não é o fim da vida, mas simplesmente uma pausa numa história contínua. 1 A morte é começo, até na poesia de Vinicius de Moraes: “Da morte apenas/Nascemos imensamente”. É a postura do crente, um núcleo comum para todas as crenças. “Tudo nos acontecimentos vitais tenta nos ensinar que fora da morte vem a vida. Nesse processo urge saber e sentir que algo não morre. Jesus ensinou que “todo aquele que salvar sua vida a perderá, mas aquele que perder sua vida por Mim a salvará”. Em outra lição, Jesus perguntou: O que ganhará o homem que ganhar todo o mundo, mas perder sua própria alma?”. 2

A crença alavanca a compreensão da morte como algo natural e intrinsecamente vinculado à vida. Se alguém crê no Criador, não aceita o big-bang, por não achar natural que um puzzle de cinco mil peças, arremessado ao alto, caia a formar o desenho original em sua perfeição, é fácil pensar num destino de transcendência para as criaturas. Deus não faria o homem com tantos sonhos, anseios, aspirações, desejos e voluntarismo, para depois se descartar dele, condenando-o à morte eterna. Por isso, a crença constituiria imperativo da razão, mesmo para os mais céticos.

Nada obstante, há quem não se satisfaça com as explicações dogmáticas e não encontre respostas, senão a morte como fim absoluto.

6.1 A incerteza quanto à eternidade

As expectativas em relação à etapa a ser encarada após a morte são variadas. É comprovado pela etnologia de que em todas as épocas e em todos os lugares “os mortos foram ou são objeto de práticas que correspondem, todas elas, a crenças referentes a sua sobrevivência (na forma de espectro corporal, sombra, fantasma etc.) ou a seu renascimento”. 3 Não é demasia proclamar a universalidade da crença na imortalidade.

Jung salientava que a proximidade da morte seria necessária para se ter a indispensável liberdade de abordar o assunto: “Não desejo, nem deixo de desejar que tenhamos uma vida após a morte e absolutamente não cultivo pensamentos dessa ordem, mas para não escamotear a realidade, é preciso constatar que, sem que o deseje ou procure, ideias desse gênero palpitam em mim. São verdadeiras ou falsas? Eu ignoro, mas constato sua presença e sei que podem ser expressas desde que não as reprima constrangido por um preconceito qualquer”. 4

Queira-se ou não admitir, a ideia já passou ou perpassa a consciência de todo homem vivo. Mesmo aqueles que afirmam não se preocuparem com a perspectiva, já se viram a pensar em seu destino assim que a morte chegar. Ou, mais precisamente, no instante seguinte ao da própria morte.

Rodrigo de Souza Leão morreu aos 43 anos, depois de publicar pela editora 7 Letras seu primeiro livro em prosa: Todos os cachorros são azuis. Com esse livro, foi finalista do Prêmio de Literatura Portugal Telecom. Em carta para a família, antes de se internar numa clínica psiquiátrica, ele dizia:

Vocês sabem muito bem que a minha vida não foi fácil. Sofreram muito. Sofremos junto. Sofremos nós. Eu gostei da vida e valeu a pena (...) Tomara que exista outra vida. Esta foi pequena pra mim. Está chegando a hora do programa terminar. Mickey Mouse vai partir (...) Nunca tenham pena de mim. Nunca deixem que tenham pena de mim. Lutei. Luto sempre. Desculpem-me o mau humor. É que tudo cansa”. 5

O agnóstico não tem problemas quanto a essa incerteza. Ele está convicto de que a morte é o fim de tudo. Justifica a vida pela própria aventura existencial. Satisfaz-se com a explicação evolucionista para o fenômeno vital. É plausível a origem do universo pelo Big-Bang e não aceita o design inteligente. Já o crente é atormentado pela dúvida. Mesmo os mais fervorosos tiveram sua noite escura em que lhes parecia que Deus os abandonara.

Quem professa uma fé acredita no mundo invisível. Invisibilidade que é mistério, mas nem por isso inexiste. É lembrar-se do ditado espanhol: “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay...”.

O mundo invisível é habitado por seres reais, dentre os quais os demônios são os mais temidos. Embora o diabo esteja “fora de moda”, tantas as surpresas do cotidiano, sua …

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15 de Agosto de 2022
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1212797952/depois-da-morte-pronto-para-partir-reflexoes-juridico-filosoficas-sobre-a-morte