Pronto para Partir? Reflexões Jurídico-Filosóficas Sobre a Morte - Ed. 2014

Depois da morte

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DEPOIS DA MORTE

Sumário: 6.1 A incerteza quanto à eternidade – 6.2 A imortalidade virtual – 6.3 O culto aos mortos – 6.4 O luto.

A grande questão, para a maior parte das pessoas, é saber o que acontece depois da morte. Haverá outra vida? Ou será que tudo termina com a morte?

A morte não é o fim da vida, mas simplesmente uma pausa numa história contínua. 1 A morte é começo, até na poesia de Vinicius de Moraes: “Da morte apenas/Nascemos imensamente”. É a postura do crente, um núcleo comum para todas as crenças. “Tudo nos acontecimentos vitais tenta nos ensinar que fora da morte vem a vida. Nesse processo urge saber e sentir que algo não morre. Jesus ensinou que “todo aquele que salvar sua vida a perderá, mas aquele que perder sua vida por Mim a salvará”. Em outra lição, Jesus perguntou: O que ganhará o homem que ganhar todo o mundo, mas perder sua própria alma?”. 2

A crença alavanca a compreensão da morte como algo natural e intrinsecamente vinculado à vida. Se alguém crê no Criador, não aceita o big-bang, por não achar natural que um puzzle de cinco mil peças, arremessado ao alto, caia a formar o desenho original em sua perfeição, é fácil pensar num destino de transcendência para as criaturas. Deus não faria o homem com tantos sonhos, anseios, aspirações, desejos e voluntarismo, para depois se descartar dele, condenando-o à morte eterna. Por isso, a crença constituiria imperativo da razão, mesmo para os mais céticos.

Nada obstante, há quem não se satisfaça com as explicações dogmáticas e não encontre respostas, senão a morte como fim absoluto.

6.1 A incerteza quanto à eternidade

As expectativas em relação à etapa a ser encarada após a morte são variadas. É comprovado pela etnologia de que em todas as épocas e em todos os lugares “os mortos foram ou são objeto de práticas que correspondem, todas elas, a crenças referentes a sua sobrevivência (na forma de espectro corporal, sombra, fantasma etc.) ou a seu renascimento”. 3 Não é demasia proclamar a universalidade da crença na imortalidade.

Jung salientava que a proximidade da morte seria necessária para se ter a indispensável liberdade de abordar o assunto: “Não desejo, nem deixo de desejar que tenhamos uma vida após a morte e absolutamente não cultivo pensamentos dessa ordem, mas para não escamotear a realidade, é preciso constatar que, sem que o deseje ou procure, ideias desse gênero palpitam em mim. São verdadeiras ou falsas? Eu ignoro, mas constato sua presença e sei que podem ser expressas desde que não as reprima constrangido por um preconceito qualquer”. 4

Queira-se ou não admitir, a ideia já passou ou perpassa a consciência de todo homem vivo. Mesmo aqueles que afirmam não se preocuparem com a perspectiva, já se viram a pensar em seu destino assim que a morte chegar. Ou, mais precisamente, no instante seguinte ao da própria morte.

Rodrigo de Souza Leão morreu aos 43 anos, depois de publicar pela editora 7 Letras seu primeiro livro em prosa: Todos os cachorros são azuis. Com esse livro, foi finalista do Prêmio de Literatura Portugal Telecom. Em carta para a família, antes de se internar numa clínica psiquiátrica, ele dizia:

Vocês sabem muito bem que a minha vida não foi fácil. Sofreram muito. Sofremos junto. Sofremos nós. Eu gostei da vida e valeu a pena (...) Tomara que exista outra vida. Esta foi pequena pra mim. Está chegando a hora do programa terminar. Mickey Mouse vai partir (...) Nunca tenham pena de mim. Nunca deixem que tenham pena de mim. Lutei. Luto sempre. Desculpem-me o mau humor. É que tudo cansa”. 5

O agnóstico não tem problemas quanto a essa incerteza. Ele está convicto de que a morte é o fim de tudo. Justifica a vida pela própria aventura existencial. Satisfaz-se com a explicação evolucionista para o fenômeno vital. É plausível a origem do universo pelo Big-Bang e não aceita o design inteligente. Já o crente é atormentado pela dúvida. Mesmo os mais fervorosos tiveram sua noite escura em que lhes parecia que Deus os abandonara.

Quem professa uma fé acredita no mundo invisível. Invisibilidade que é mistério, mas nem por isso inexiste. É lembrar-se do ditado espanhol: “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay...”.

O mundo invisível é habitado por seres reais, dentre os quais os demônios são os mais temidos. Embora o diabo esteja “fora de moda”, tantas as surpresas do cotidiano, sua existência é reafirmada pela Igreja. Tanto que continua a existir o ofício de exorcista, o exorcismo cristão. “O ofício de exorcista, na Igreja Católica, é uma ordem eclesiástica pela qual um clérigo recebe o poder espiritual de impor as mãos aos energúmenos, batizados ou não, e de ler sobre eles os exorcismos rituais, para constranger os demônios a deixar os corpos dos possuídos”. 6

Essa ordem não foi diretamente instituída por Jesus Cristo, mas pela Igreja, em virtude do poder sobrenatural que seu divino fundador transmitiu a ela de instituir os ritos ordenados ao bem geral da sociedade cristã. Mas o Evangelho possui várias passagens em que o próprio Cristo livrou pessoas possuídas pelo demônio.

Só que o demônio não é o único ser invisível aos olhos humanos. O mundo insuscetível de percepção sensorial está povoado de pessoas ou de almas. Mesmo os incrédulos hão de concordar em que “a imortalidade da alma pertence a uma categoria de verdades que constituem o patrimônio mais precioso do gênero humano. Com efeito, todos os povos conhecidos da História têm um consenso moralmente unânime para assegurar que a morte do homem não entranha a morte da alma; e que esta sobrevive à sua separação do corpo”. 7

Embora variem as explicações para cada confissão religiosa, a Igreja crê na eternidade. “Uma só eternidade, termo de uma só vida, eis a ideia matriz de toda a escatologia católica de nossos dias”. 8

Para a Igreja não há reencarnação, cuja ideia central parece sedutora: para os seus adeptos, não existem penas eternas. Todas as pessoas se salvarão, a tanto bastando os contínuos retornos de aperfeiçoamento mediante múltiplos renascimentos. Por isso é que a reencarnação – e só ela – forneceria a “chave do enigma da injustiça, esta injustiça que nos choca e cada vez mais. A ideia de reencarnação explica porque ‘nós somos desiguais do ponto de vista físico, do ponto de vista intelectual, do ponto de vista moral, do ponto de vista espiritual; porque uns têm o corpo são e forte, os outros fracos e doentes; porque uns possuem a cultura e o charme pessoal, enquanto outros não partilham senão de um exterior grosseiro e por vezes repugnante; porque a inteligência de uns é aberta e vivaz, enquanto que a de outros é obtusa e lenta; porque, enfim, as circunstâncias exteriores criam tanto ilegalidades revoltantes e parecem ser a manifestação de uma sorte de favoritismo”. 9

A tese da reencarnação, para Siwek, reflete uma mentalidade da época. Os cientistas prestigiaram a lei da conservação da energia, a lei de causalidade fechada e a lei da evolução. São estas leis que representaram, na Ciência Moderna, o espírito do tempo, a mentalidade da época. E a teoria reincarnacionista entendida como síntese científica, repousa precisamente sobre estas três leis. 10

A incerteza quanto ao futuro não deveria desesperar os humanos. Serenidade é algo que se pode conquistar pela vontade e pelo exercício habitual. Quando perguntaram a Krishnamurti: O que acontece depois da morte? – Ele respondeu: “Saberei quando lá chegar. Por enquanto não preciso saber”. Ao indagarem a Krishnamurti como ele se preparava para a morte, ele replicou: “Todos os dias morro um pouco”.

Como interpretar essa resposta? Não era a contemplação mórbida voltada à inevitabilidade da morte física. A ideia nela contida é capacitar para a mudança diária a que todos estamos sujeitos. Em lugar da ansiedade pela grande transformação que nos espera ao final da jornada, é mais interessante estar atento às muitas portas para uma nova vida, para a contínua mutação rumo à plenitude, bastando para isso queiramos abri-las. 11

Quem estiver disposto a viver intensa e plenamente, se surpreenderá ao constatar que não sobrará tempo e espaço para temer a morte. Marco Aurélio simplificava essa perspectiva: “Se os deuses existem, nada há de temeroso em partir dentre os homens; eles não te haveriam de precipitar numa desgraça; mas se eles não existem ou não se importam com os assuntos humanos, que me interessa viver num mundo vazio de deuses ou vazio de providência?”. 12 O mesmo filósofo que recomendava: “Deves viver conforme a natureza o tempo excedente que te resta, como se já estivesses morto, terminada aqui tua vida”. 13

Não é o que acontece. A preocupação com o depois da morte é irremovível da consciência humana. Impossível para quem se considera imortal, tem uma ânsia de definitividade em suas opções, deixar de pensar no amanhã. Insuperável a ambiguidade do tema. “A despeito dos eufemismos, a morte é algo violentamente incabível para nossa experiência humana, que busca eternizar o indivíduo, através de sua história, de seus feitos, de sua prole, de seu sobrenome, de suas ideias... Toda a nossa vida terrena clama por imortalidade. E o caráter ambíguo aparece justamente pelo fato de que a finitude é a mola propulsora de todas as realizações da vida. Afinal, se tivéssemos todo o tempo do mundo, para que criar algo, neste exato momento? Seríamos como bois mansos, a ruminar eternamente no pasto. Eis o fascínio envolvido na morte, ela nos coloca a encarar nossas escolhas, desafiando-nos a sermos imortais em vida, a deixarmos um legado que a ultrapasse, que a anule”. 14

À incerteza sobre o futuro pós-morte adicione-se como carga extra de angústia o sentimento de dúvida sobre a própria sobrevivência da humanidade. É que “pela primeira vez na história da vida, uma espécie viva detém os meios de destruir todo o planeta; e essa espécie não sabe para onde vai! Seus poderes de transformação e, eventualmente, de destruição do mundo são, a partir de agora, gigantescos, mas como um gigante que tivesse o cérebro de um recém-nascido, eles estão totalmente dissociados de uma reflexão sobre a sabedoria – enquanto a própria filosofia se afasta apressada, tomada que está, também ela, pela paixão técnica”. 15

Outro dos incríveis paradoxos da humanidade. “A ciência abre a consciência para abismos que se abrem uns sobre os outros, se devoram uns aos outros. As civilizações são mortais. A humanidade está fadada à morte. A terra morrerá. E os mundos e os sóis. E o próprio universo, gigantesca explosão lenta. A morte humana, já vazio infinito, se dilata em todos os planos do cosmo, cada vez mais vazia e infinita: ela é como o universo, em expansão. Assim, tudo remete o indivíduo solitário a uma solidão cada vez mais miserável no vazio de um nada sem limite”. 16

Se ninguém hoje pode garantir a sobrevivência da espécie, a única suscetível de perseverar na insensatez, se o planeta emite sinais cada vez mais expressivos de sua exaustão, se a única certeza é a incerteza, ao medo da morte se acrescentou o medo de tudo. O otimismo é cada vez mais irracional e “o ideal das Luzes atualmente cede lugar a uma inquietação difusa e multiforme, sempre pronta a se cristalizar nesta ou naquela ameaça particular, de modo que o medo tende a se tornar a paixão democrática por excelência”. 17

O medo democrático do futuro da humanidade, mesclado ao medo pessoal de encarar a morte. Se ela for o “nada”, onde ficará o meu orgulho, a minha pretensão, o meu sonho de infinito. Se ela for o “tudo”, o que estará preparado para mim na eternidade? Serei castigado pelo mal que causei? A Justiça divina estará reservando grilhões, dores e ranger de dentes para mim?

Como será a dor depois da morte? Esta a obsessão que sobreviveria à pessoa mesmo depois de seu fim terreno. Traduzida na indagação de Baudrillard: “Se eu sinto a dor de minha perna esmagada, mesmo que ela já tenha apodrecido, então por que você não poderia sentir os sofrimentos atrozes na eternidade do inferno, mesmo quando teu corpo já tiver apodrecido?”. 18

6.2 A imortalidade virtual

Aquilo que mais dói na morte é a perda de um patrimônio intangível. O que se vivenciou, o que se sentiu. O acervo das emoções, dos sentimentos, dos amores e das desilusões. O que dói mais na morte é, em cada morte, o tesouro que se esvai. As paixões, segredos, revelações, os sonhos, vitórias, derrotas, memórias, conhecimento, saber. Se guardássemos tudo, nos tornaríamos imortais. Será que tudo isso realmente desaparece?

O desejo de imortalidade é sentimento que se perde na noite dos tempos. Mas o projeto de imortalidade entrou na ciência desde o seu início. “Francis Bacon e René Descartes tinham bem clara a finalidade da nova ciência experimental que estavam lançando no século XVII, e cuja intenção consistia em ‘suavizar a condição humana’. No entender deles, isso era nada menos do que reverter o Gênesis e anular a sentença de morte que pesava sobre todo ser humano”. 19

Há quem acredite que o projeto científico da imortalidade está nos umbrais do êxito. Ele abre alguma nova perspectiva para a nossa vida?

Leon Kass, nomeado diretor da Comissão Presidencial de Bioética pelo Presidente George Busch em 2001, afirma que morrer é bom para a humanidade. Em provocativo artigo – O brinde à vida e os seus limites: por que não a imortalidade? 20 sugere que a pergunta deveria ser: É a mortalidade uma benção? E oferece razões para que a resposta seja afirmativa.

Acrescentar duração à vida, tornando-a infinita ou prolongando-a por mais 20 ou 50 anos será satisfatório? Fazer mais do mesmo, ou até fazer coisas extraordinárias, tornará o ser humano mais feliz?

Para Kass, existe “a peculiar beleza do caráter humano, que nos leva a estabelecer uma relação entre a mortalidade e as virtudes. Viver a vida como o dom que realmente é seria mais difícil se não existisse a mortalidade”. 21

A imortalidade não pode ser nobre. É intuitiva a constatação e isso os helênicos intuiram e nos transmitiram em legados como a Ilíada e a Odisseia. Os imortais são néscios, frívolos, indolentes, enquanto os mortais são plenos de entusiasmo, paixão e do sentido da amizade. É o que leva a concluir que o projeto da imortalidade é desumanizador. “Afirmar que a vida humana seria melhor se não existisse a morte equivale a dizer que a vida humana seria melhor se fosse uma realidade não humana”. 22

Todavia, essa compreensão ainda não chegou à maioria das consciências. Para estas, pensar no próprio desaparecimento – ou no das pessoas que consideramos insubstituíveis – aflige, angustia, atormenta.

A certeza da morte atemoriza e a frágil criatura humana desenvolve artifícios para se perenizar. Sem adentrar às tentativas de congelamento para conservar o corpo enquanto se procura uma receita para a ressurreição científica, há vários outros subterfúgios para enganar a morte. Uma das mais frequentes invocações é o da descendência. Quem deixa um filho garante uma espécie de permanência genética. A semente frutificou e no filho, o pai assegurou uma sobrevida.

Outra é a conquista de um espaço na história, mediante atuação digna de ser preservada na memória das futuras gerações. É o que explica muita gente se devotar a causas que ultrapassarão o estreito limite de sua existência física.

As Academias, por mais criticadas sejam, garantem a imortalidade possível. Aquilo que Olavo Bilac bem caracterizou em dito jocoso, embora melancólico: Somos imortais porque não temos onde cair mortos! Expressão de que Lygia Fagundes Telles ainda se serve com frequência.

Impossível deixar de lembrar que Euclides da Cunha ironizava a morte precoce daqueles acadêmicos que ainda em vida estão condenados a cruel ostracismo. Ao observar que no Brasil é preciso morrer cedo para merecer alguma saudade, sela o destino do imortal que teima em ficar velho: é aquele predestinado “ao suplício lento e indefinível de acompanhar em vida o enterro pobre de sua imortalidade (...)”. 23

Outras fórmulas artificiais de imortalidade são exploradas pela cultura consumista. Figuras como Marilyn Monroe, Elvis Presley, Audrey Hepburn, James Dean e outros, inclusive Michael Jackson, continuam vivos para os que sobrevivem de sua memória.

Após a morte do cantor bailarino coreógrafo tão polêmico, Bob Greene escreveu no New York Times que Michael Jackson poderá ter o mesmo destino de Elvis Presley, cuja morte, aos 42 anos não afetou sua comerciabilidade. Quando de sua morte, o antigo empresário Coronel Tom Parker afirmou: Isto não muda nada. A propósito, o pai de Jackson, três dias após a morte do filho, disse a um repórter: Hoje ele é maior que nunca.

Paradoxal que alguns passem a viver mais com a morte, enquanto outros praticamente estão mortos ainda durante a vida. Em 2008, quando se comemorava o centenário de Claude Lévy Strauss, a antropóloga da Universidade de Chicago Manuela Carneiro da Cunha invocou seu colega americano Marshall Sahlins, numa conhecida boutade: No longo prazo, todo pensador célebre pode estar certo de duas coisas: de morrer e de ser considerado superado. Tem sorte quando a primeira ocorre antes da segunda. 24

Para Manuela Carneiro da Cunha, ao completar cem anos, Lévi-Strauss teve tempo suficiente para um terceiro momento: o de ter sido superado em alguns círculos, mas de ser redescoberto ainda em vida. Mesmo antes de morrer aos 101 anos, o antropólogo já havia conseguido o dom da imortalidade, como o reconhecia Jean Baudrillard: “Lévi-Strauss é imortal. No fundo de sua imortalidade acadêmica, ele espera a volta das sociedades sem escrita. Talvez ele não tenha que esperar muito tempo mais. Pois a sociedade que se aproxima, iletrada e computadorizada também não terá escrita. Será a nossa futura sociedade primitiva”. 25

A juventude, na vã convicção de que esse estágio da vida é permanente, chega a ser cruel quando – ante a notícia de falecimento de alguma personalidade – afirma sem pejo: “Pensei que já tivesse morrido há muito tempo!”.

O desejo vão da imortalidade perante os homens foi ridicularizado por muitos pensadores. No já citado Diálogo da Moda e a Morte, Leopardi ironiza essa pretensão falaciosa:

Finalmente, por ver que muitos se vangloriavam em tornar-se imortais, isto é, não morrendo inteiramente, uma boa parte deles não chegaria às tuas mãos, embora eu soubesse que isso não passasse de conversa e que esses e outros vivessem na memória dos homens; eles viviam, por assim dizer, de brincadeira e não gozavam da fama mais do que se sofressem com a umidade da sepultura; como quer que seja, compreendendo que o negócio dos imortais te irritava porque parecia abater a tua honra e reputação, acabei com essa moda de procurar a imortalidade, e mesmo de concedê-la no caso de alguém merecê-la”. 26

O diálogo termina com a moda a afirmar: “quem quer que morra não deixará uma migalha viva e lhe convirá rapidamente levar tudo para baixo da terra como um peixinho abocanhado com cabeça e espinhas”. 27

Outro sarcasmo em relação à imortalidade está em Nietzsche: “Que importa se eu viver tudo mais uma vez? (...) Contudo, a doutrina do eterno retorno é em si um tipo de aposta contra a morte, uma imortalidade imanente”. 28 A sociedade eletrônica da informação e da comunicação parece garantir uma sobrevida aos mortais. O Facebook, a maior rede social do mundo, tem cerca de 600 milhões de membros. Considere-se que a população norte-americana, a mais viciada nessa via de comunicação, equivale a metade disso. E se seu software é rápido em oferecer toques úteis sobre datas de aniversário de amigos, tem dificuldade em automatizar a tarefa de descobrir quando um de seus usuários morreu. O porta-voz da empresa, Meredith Chin, reconhece que o fato de os mortos continuarem a aparecer como se vivos fossem é um assunto delicado e mesmo doloroso. 29 É que as pessoas morrem diariamente e num universo de 600 milhões, nunca se atingirá a perfeição para detectar os falecimentos.

O problema decorre do amadurecimento da população. Se os primeiros usuários do Facebook eram jovens, a morte ocorria por acidente ou de forma trágica. Hoje, pessoas com mais de 65 anos também integram a rede e estas apresentam a taxa mais alta de mortalidade nos Estados Unidos.

Receber convites para se conectar com pessoas falecidas gera reações díspares. Alguns podem se apavorar e acreditar que o chamado vem “do além”. Outros se valem da oportunidade pare recordar com saudades do morto de suas relações. A todos deveria servir como passo natural à aceitação da própria morte, que é uma questão de tempo. Quanto dele ainda teremos, a ninguém é dado saber.

A imortalidade palpável a todos, é aquela permanência amorável no coração das pessoas queridas. “Tão certo quanto nós podemos amar uns aos outros, e recordar o sentimento de amor que tivemos, nós podemos morrer sem realmente ir embora. Todo o amor que você criou ainda está aqui. Todas as memórias ainda estão aqui. Você vive no coração de cada um que você tocou e nutriu enquanto você estava aqui”. 30 A morte acaba com uma...

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jusbrasil.com.br
8 de Dezembro de 2021
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1212797952/depois-da-morte-pronto-para-partir-reflexoes-juridico-filosoficas-sobre-a-morte-ed-2014