O Stress no Meio Ambiente de Trabalho - Ed. 2021

Capítulo VI. O Assédio Moral no Meio Ambiente de Trabalho

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1.Conceito

O assédio moral no trabalho não é um fenômeno novo. É possível afirmar que ele é tão antigo quanto o trabalho.

A novidade reside na intensificação, na gravidade, na amplitude e na banalização do fenômeno e na abordagem que tenta estabelecer o nexo causal com o trabalho e tratá-lo como não inerente ao trabalho. A reflexão e o debate sobre o tema são recentes no Brasil, tendo ganhado força com a repercussão da publicação, na França, do livro de Marie France Hirigoyen: “Harcelement Moral: la violence perverse au quotidien”. 1

E o que é assédio moral no trabalho?

É a exposição dos trabalhadores e das trabalhadoras a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções; sendo mais comum em relações desumanas e não éticas de longa duração, de um ou mais chefes, e dirigida a um subordinado, desestabilizando a relação da vítima com o ambiente de trabalho e a organização.

Caracteriza-se pela degradação deliberada das condições de trabalho em que prevalecem atitudes e condutas negativas dos chefes em relação a seus subordinados, constituindo uma experiência subjetiva que acarreta prejuízos práticos e emocionais para o trabalhador e a organização. A vítima escolhida é isolada do grupo sem explicações, passando a ser hostilizada, ridicularizada, inferiorizada e desacreditada diante dos pares.

Esses, por medo do desemprego e da vergonha de serem também humilhados, associados ao estímulo constante à competitividade, rompem os laços afetivos com a vítima e, frequentemente, reproduzem e atualizam ações e atos do agressor no ambiente de trabalho, instaurando o “pacto da tolerância e do silêncio” no coletivo, enquanto a vítima vai gradativamente se desestabilizando e se fragilizando.

O desabrochar do individualismo reafirma o perfil do “novo” trabalhador: “autônomo, flexível”, capaz, competitivo, criativo, qualificado e empregável. Essas habilidades o qualificam para a demanda do mercado. Estar “apto” significa responsabilizar os trabalhadores pela formação/qualificação e culpabilizá-los pelo desemprego, aumento da pobreza urbana e miséria, desvirtuando a realidade e impondo aos trabalhadores um sofrimento perverso.

A humilhação repetitiva e de longa duração interfere na vida do assediado de modo direto, comprometendo sua identidade, sua dignidade e suas relações afetivas e sociais, ocasionando graves danos à saúde física e mental, que podem evoluir para a incapacidade laborativa, desemprego ou mesmo a morte, constituindo um risco invisível, porém concreto, nas relações e condições de trabalho.

O assédio moral no trabalho constitui um fenômeno internacional, segundo levantamento recente da OIT com diversos países desenvolvidos. A pesquisa aponta para distúrbios da saúde mental relacionados com as condições de trabalho em países como Finlândia, Alemanha, Reino Unido, Polônia e Estados Unidos. As perspectivas são sombrias para as duas próximas décadas, pois, segundo a OIT e a Organização Mundial da Saúde, essas serão as décadas do “mal-estar na globalização”, em que predominarão as depressões, as angústias e outros danos psíquicos relacionados com as novas políticas de gestão na organização de trabalho, que estão vinculadas às políticas neoliberais.

2.As fases e o espaço da humilhação

A humilhação constitui um risco invisível, porém concreto, nas relações de trabalho e na saúde dos trabalhadores e das trabalhadoras, revelando-se como uma das formas mais poderosas de violência sutil nas relações organizacionais, sendo mais frequente com mulheres e adoecidos. Sua reposição se realiza “invisivelmente” nas práticas perversas e arrogantes das relações autoritárias na empresa e na sociedade. A humilhação repetitiva e prolongada tornou-se prática costumeira no interior das empresas, nas quais predominam o menosprezo e a indiferença pelo sofrimento dos trabalhadores, que, mesmo adoecidos, continuam trabalhando.

Frequentemente, os trabalhadores adoecidos são responsabilizados pela queda da produção, pelos acidentes e pelas doenças, pela desqualificação profissional, pela demissão e, consequentemente, pelo desemprego. São atitudes como essas que reforçam o medo individual, ao mesmo tempo que aumentam a submissão coletiva construída e alicerçada no medo. Por medo, os trabalhadores passam a produzir acima de suas forças, ocultando suas queixas e evitando, simultaneamente, serem humilhados e demitidos.

Os laços afetivos que permitem a resistência, a troca de informações e a comunicação entre colegas se tornam o “alvo preferencial” de controle das chefias, caso “alguém” do grupo transgrida a norma instituída.

A violência nos intramuros se concretiza em intimidações, difamações, ironias e constrangimento do “transgressor” diante de todos, como forma de impor controle e manter a ordem.

Em muitas sociedades, ridicularizar...

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jusbrasil.com.br
3 de Dezembro de 2021
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1250395205/capitulo-vi-o-assedio-moral-no-meio-ambiente-de-trabalho-o-stress-no-meio-ambiente-de-trabalho-ed-2021