Jurimetria- Ed. 2019

Capítulo 3. Métodos Estatísticos

Entre no Jusbrasil para imprimir o conteúdo do Jusbrasil

Acesse: https://www.jusbrasil.com.br/cadastro

“Em Deus nós acreditamos; todos os outros precisam trazer dados.” 1

I. Definição de estatística

A estatística lida com a coleta, organização e análise de conjuntos de dados. Seu objetivo é descrever esses conjuntos e obter, a partir deles, a maior quantidade de conhecimento possível. O objeto da estatística não é ideal ou abstrato. Seu propósito é oferecer soluções para combinar a medidas e analisar conjuntos ou séries de informações coletadas nos mais diversos campos do conhecimento.

A estatística analisa dados de origens distintas, como preços, peso de animais, temperaturas, posição de corpos celestes, altura das pessoas, resultados de tratamentos médicos ou reações químicas. Em comum, as informações que podem ser analisadas através desse método ostentam algum grau de variabilidade, permitindo a distribuição de seus resultados em categorias ou faixas. Por exemplo, a variação de renda permite a distribuição da população brasileira entre as classes sociais alta, média e baixa; a variação de ritos viabiliza a distribuição (no sentido estatístico e não processual) das ações judiciais entre os procedimentos ordinário, de execução ou especial. Para cada uma dessas populações existe um grau de incerteza. Eu não sei exatamente quantas ações de execução tramitam no Brasil, até porque a cada hora algumas ações são distribuídas e outras são extintas. No entanto, uma amostragem periódica pode me indicar aproximadamente como são as ações no Brasil em relação ao tipo de procedimento e quantos processos de execução existem.

Ao contrário das ciências que são definidas por seus objetos (a biologia estuda a vida, a química estuda as transformações da matéria etc.), a estatística é uma disciplina definida por sua metodologia e que pode ser aplicada a qualquer objeto passível de experimentação e observação. Na definição de Stephen Stigler: “A estatística moderna oferece tecnologia quantitativa para a ciência empírica; ela é uma lógica e uma metodologia para medir a incerteza e para examinar as consequências dessa incerteza no planejamento e interpretação da experimentação e observação”. 2

A palavra estatística tem sua origem etimológica na expressão latina statisticum collegium e desde o século XVI foi utilizada na Itália com a finalidade de designar uma reunião de fatos (relatos verbais, descrições topográficas e geográficas) para informação de oficiais do Estado. Já o sentido moderno de estatística, indicando uma coleção de dados a respeito da população e das finanças de um Estado, é objeto de controvérsias.

Parte dos historiadores afirma que a expressão foi apropriada do alemão statistik, termo introduzido em 1749 por Gottfried Achenwall, filósofo germânico, para designar o estudo de dados econômicos e populacionais para o Estado. 3 Outros defendem que a primeira descrição estatística moderna é do inglês John Graunt em seu estudo sobre a mortalidade em Londres de 1662. Graunt, no entanto, não utilizou a expressão estatística, optando por denominá-la “political arithmetic”. Para os ingleses, a expressão statistics só foi utilizada pela primeira vez por J. Sinclair na obra Statistical account of Scotland drawn up from the communications of the ministers of the different parishes, elaborada entre 1791 e 1799. 4 Basta uma confrontação de datas para perceber que a razão está com os alemães.

A estatística é uma metodologia de pesquisa, que objetiva planejar e realizar testes de hipóteses. 5 O planejamento de uma pesquisa envolve diversas etapas, incluindo a formulação de hipóteses, a escolha do tipo de teste, a escolha de um nível de significância, a coleta de dados, a determinação do valor crítico e a apresentação dos resultados. 6 A vinculação com problemas de aplicação prática fazem com que a estatística seja considerada um conjunto de métodos distinto da matemática. Parte importante da estatística envolve problemas não matemáticos como, por exemplo, a identificação da fonte dos dados, a escolha de testes capazes de robustecer as conclusões ou a forma de visualização dos resultados em gráficos e tabelas.

O planejamento de uma pesquisa envolve a escolha de variáveis e um cuidadoso delineamento de seus objetivos. Por exemplo, um pesquisador pretende testar se um medicamento é capaz de curar dor de cabeça. Uma forma de responder a esta pergunta é reunir um grupo de pessoas com dor de cabeça e ministrar o medicamento, medindo em seguida (através de questionários e exames) quantos pacientes foram curados. Esse teste, no entanto, não permite rejeitar a possibilidade de que a melhora seria consequência de outros fatores, tal como um efeito placebo ou uma melhora espontânea resultante da passagem do tempo.

Uma maneira de controlar o efeito de outras variáveis sobre a cura dos pacientes é dividi-los em três grupos: um não medicado, outro receptor de placebo e um último medicado. A verificação dos resultados em cada um dos grupos é capaz de isolar os efeitos do medicamento e controlar os efeitos do tempo e do placebo sobre os pacientes, robustecendo a conclusão a respeito da eficácia do primeiro. O principal objetivo de um planejamento é, portanto, antever possíveis fraquezas e elaborar os testes de forma a robustecer, tanto quanto possível, as conclusões de uma pesquisa. 7

As hipóteses podem conter dúvidas sobre o comportamento de uma variável, na chamada análise univariada, ou sobre a associação entre duas ou mais variáveis, nas chamadas análises bivariada e multivariada. 8 Você pode estar interessado em saber, voltando ao exemplo dos processos, como se distribuem as ações judiciais no Brasil entre os procedimentos ordinário, de execução ou especial. Essa é uma análise univariada com foco na variável procedimento. Ou você pode estar interessado em entender se a distribuição das ações entre os procedimentos ordinário, de execução ou especial está ou não associada aos doze meses do ano. Essa é uma análise bivariada com foco nas variáveis “procedimento” e “mês do ano”.

A pesquisa estatística pode fazer apenas uma descrição do que foi observado. No entanto, ela pode também avançar para considerações a respeito do que não foi observado diretamente e fazer inferências sobre, por exemplo, o comportamento futuro de variáveis, a associação entre duas ou mais variáveis ou as características de uma parcela não observada da população. Essas abordagens dividem a estatística em duas subáreas distintas: a descritiva e a inferencial. 9

II. Estatística descritiva

A estatística descritiva é a área que estuda o processo de exploração, visualização e sumarização de dados. 10 Quando você tem acesso a certa quantidade de dados, a primeira tarefa é entender que tipo de informação esses dados traz. Essa área da estatística está limitada ao que se consegue observar diretamente e ela apenas descreve, de maneira exaustiva ou sumarizada, o conjunto de dados coletados. Daí o seu nome. Essa descrição pode ser apresentada de várias formas, através de uma distribuição de frequências de cada variável, pelo cálculo de medidas-resumo, pela tabulação de resultados e pela sua visualização através de tabelas e gráficos.

É importante explicar, ainda que de forma pontual, como é feita a descrição de dados. Começo com um exemplo clássico, que nos ajuda a entender o conceito de distribuição de frequência de uma variável: o jogo de dados. Ao jogar um dado, você tem uma variável com seis resultados possíveis, os números de um a seis, correspondentes a cada face. Em um experimento, eu jogo um dado 20 vezes e observo os seguintes resultados (R): R1) 3; R2) 4; R3) 3; R4) 3; R5) 4; R6) 3. Essa é distribuição de frequência absoluta da variável “resultado do dado”. A distribuição de frequência relativa são os resultados porcentuais: R1) 15%; R2) 20%; R3) 15%; R4) 15%; R5) 20%; e R6) 15%; cuja soma dá 100%. Em outras palavras, a distribuição de frequência indica o número de realizações de cada valor de uma variável (quando absoluta) ou o percentual de realização desses valores (quando relativa). 11

Outro conceito fundamental é o de medida-resumo. As medidas-resumo são indicadores capazes de sumarizar informações a respeito de uma grande quantidade de dados. A medida-resumo mais conhecida é a média. Por exemplo, se eu digo que em média um processo leva 4 anos para ser julgado por um tribunal, estou sumarizando em uma única medida os milhares de resultados da variável “tempo de duração do …

Uma experiência inovadora de pesquisa jurídica em doutrina, a um clique e em um só lugar.

No Jusbrasil Doutrina você acessa o acervo da Revista dos Tribunais e busca rapidamente o conteúdo que precisa, dentro de cada obra.

  • 3 acessos grátis às seções de obras.
  • Busca por conteúdo dentro das obras.
Ilustração de computador e livro
jusbrasil.com.br
24 de Maio de 2022
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1250396001/capitulo-3-metodos-estatisticos-jurimetria-ed-2019