Mediação e Conciliação: Teoria e Prática

Mediação e Conciliação: Teoria e Prática

Conversando Sobre o Transformador: O Universo da Mediação

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Patrícia Clélia Coelho de Carvalho

Mestranda em Resolución de Conflictos y Mediaciónpela Universidad Internacional Iberoamericana – UNINI – Puerto Rico. Pós-graduada em Mediação – Intervenções Sistêmicas para Resolução de Conflitos e Disputas em Diferentes Contextos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Pós-graduada em Direito Público pela Faculdade Damásio de Jesus. Graduada em Direito pela Universidade São Francisco. Instrutora em Mediação do Conselho Nacional de Justiça.

5.1.Introdução

Segundo o violoncelista Yo-Yo Ma, superstar da música erudita,

Há três grandes valores que são essenciais para qualquer músico. O primeiro é que não interessa em que campo você atua, mas você deve conhecer a fundo aquilo que faz. O segundo é ser capaz de trabalhar com qualquer um oriundo de qualquer tradição no mundo, ser capaz de entender sistemas de valor diferentes do seu e fazer concessões e ajustes para trabalhar em conjunto. O terceiro valor é a habilidade de transferir seu conhecimento para outras pessoas. 1

Provavelmente não há definição universal para o que seja arte, mas há consenso sobre o que seja a criação consciente de algo significativo, utilizando a habilidade e imaginação para o bem, o belo e o bom, buscando evocar conexão, emoção, reflexão e felicidade para cada pessoa e suas perspectivas únicas, plurais e temporais.

Quando se pensa em mediação como um ofício poético, como a arte que nos permite exprimir o que está dentro de nós, aliado ao método de resolução de conflitos, vem à mente a questão que permeia todas as relações, a rede dialógica, que pode ser empregada em qualquer conversação, como ferramenta comunicacional para uma superação construtiva dos problemas.

Assim como o violoncelista Yo-Yo Ma fala sobre a essencialidade dos valores humanos para o bom convívio social, o mediador deve reativar, inserir e resgatar valores como solidariedade, tolerância, cooperação, respeito, igualdade, honestidade, justiça e fraternidade para construir um trabalho empático, compassivo e competente, cumprir com ética sua função como facilitador das integrações conversacionais, proporcionando opções mais pacíficas e felizes.

O segredo do sucesso é o amor, amar quem é, o que faz e ao outro, ter uma consciência animada, dinâmica e adaptável a qualquer situação, por mais complicada que pareça. A resposta estará dentro de você, e assim o mediador desperto coopera com um belo trabalho de transformação.

5.2.A magia das relações: diálogo

A mediação pode ser utilizada em qualquer conflito que possa ser resolvido por meio do diálogo. Diante dessa afirmação, vale destacar os benefícios da arte de saber se comunicar.

Quando duas ou mais pessoas conversam, o que uma diz é percebido dinamicamente pela outra, influenciado pelas percepções, emoções e cultura. O diálogo transcende ao que é narrado. Quem escuta interfere com suas informações para dar sentido ao falado, transformando o discurso inicial.

Dialogia e alteridade são conceitos importantes para a compreensão da linguagem. Brait 2 define o dialogismo com base em duas dimensões estreitamente relacionadas: como fundador da natureza interdiscursiva da linguagem e como estreitamente relacionado ao conceito de alteridade. Como aponta Holquist, no dialogismo “a própria capacidade de ter consciência está baseada no outro”. 3

Somos seres sociais por natureza, dependemos muito mais do que imaginamos uns dos outros para viver bem, criar vínculos, manter relações de proximidade e afetividade é uma necessidade inata, biológica e comportamental.

Os vínculos, através da comunicação, podem ser positivos e negativos, intensos ou superficiais, podem conduzir desde a união até a repulsa, são circunstanciais, nascem, crescem, evoluem e transformam as pessoas, criam experiências e memórias.

Fazendo uma analogia, nossas memórias são acessadas assim como as informações são acedidas por um computador. Nossa mente tem um banco de memórias que podem ter sido gravadas corretamente ou não, de acordo com a percepção e imaginação de cada um. Se algum dia você já foi censurado e ficou muito inseguro, sua mente registrou a dor daquele instante. Assim, quando receber qualquer censura que lembre aquele momento primário, a sensação retorna ao seu corpo, como se fosse um vírus.

É preciso colocar o holofote nos comportamentos viciados, mudar hábitos com o objetivo de não reagir aos novos estímulos do presente associados aos antigos padrões de pensamentos “Há uma força motriz mais poderosa que o vapor, a eletricidade e a energia atômica: a vontade” (Albert Einstein).

Perceber comportamentos automáticos e repetitivos, influenciados pelas memórias negativas de dor e sofrimento, traz reações diversas às ações do dia a dia. Vivamos cada momento livres de contaminações, únicos, passíveis de interações mais conscientes.

Viver mais confiante, mesmo que a experiência tenha sido difícil, enxergar o lado positivo da situação como evolução: o ser humano é dinâmico; mudar faz parte da vida e viver é interagir.

Precisamos confiar no médico quando estamos doentes, no motorista do ônibus, do táxi, no piloto do avião. Mais do que máquinas, precisamos das pessoas, da família, dos amigos. A amizade, a cooperação, a lealdade, o companheirismo podem ter como origem o instinto de sobrevivência, como necessidade de proteger e ser protegido por outros. Nesse mesmo sentido a competição, a violência e a desarmonia podem surgir sob o pretexto de continuação da espécie.

Muitas pessoas, diante de situações conflituosas, por motivos diversos, perdem a conexão, deixam de lado valores éticos ou de consciência, escolhem o caminho da satisfação pessoal e exclusiva, abrindo campo para a crescente hostilidade, desrespeito, rigor e crueldade.

Quando os conflitos são tratados de forma destrutiva, emergem efeitos negativos, como falta de diálogo, baixa autoestima, depressão, ansiedade, infelicidade, solidão, ausência de escuta e desprezo pelas necessidades do outro. Como efeito reflexo, as pessoas são excluídas e repelidas, virando um círculo vicioso, doente e aprisionador.

Por isso a importância de trazer a conscientização de que a paz, a felicidade e o sucesso, seja no âmbito pessoal, profissional ou organizacional, tão idealizados universalmente, dependem do quanto conseguimos nos comunicar, sermos compreendidos e do quanto compreendemos o outro e suas percepções, ressaltando a inclusão, o pertencimento, a escuta ativa, a solidariedade e a empatia.

Nesse sentido, o mediador tem o diálogo como principal ferramenta para resolver qualquer questão de animosidade, desde a mais simples à mais …

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jusbrasil.com.br
19 de Agosto de 2022
Disponível em: https://thomsonreuters.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/1279971500/conversando-sobre-o-transformador-o-universo-da-mediacao-mediacao-e-conciliacao-teoria-e-pratica